http://https://www.fmcagricola.com.br/index.aspx
http://www.ideaonline.com.br/conteudo/12-grande-encontro-sobre-variedades-de-cana-de-acucar.html
http://www.premiomulheresdoagro.com.br/
http://www.rgis.com.br
http://site.orplana.com.br/pages/caminhos-da-cana-2017/

Especial: Campos solitários

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Geral

09/02/2018
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Por: Marino Guerra

Uma reportagem com um dos maiores nomes da mecanização agrícola brasileira estaria incompleta se não apresentasse a visão dele a respeito da redução drástica da mão de obra que seu setor proporcionou à atividade rural.

Remetendo à sua infância, em São Joaquim da Barra-SP, na qual o empresário Artur Monassi, já participava muito do mundo agrícola em decorrência de seu pai ter uma oficina mecânica de máquinas, ele recorda que a região de Ituverava era uma grande produtora de algodão, e lembra-se de um verdadeiro exército de trabalhadores destinados a realizar a sua colheita.

Ao analisar o cenário dessa cultura hoje no Brasil, onde ela migrou para áreas extensivas localizadas no Mato Grosso e Bahia, na qual é cultivada por produtores com mais de 50 mil hectares que utilizam maquinário de altíssima tecnologia, Monassi não tem dúvidas em afirmar que se não tivesse evoluído o processo de mecanização, o algodão seria inviável não só no Brasil, mas também nos Estados Unidos.

Baseado nisso ele conclui trazendo um exemplo da produção canavieira indiana: “Os países asiáticos, onde a população é muito grande, ainda suportam esse tipo de mão de obra, mas estão mudando. Na Índia, por exemplo, a Case IH montou uma fábrica de colhedora de cana porque o indiano não quer cortar cana. Quanto mais pessoas alfabetizadas nós tivermos, menos mão de obra braçal teremos”.

Falar em escassez de mão de obra parece até um paradoxo diante de números volumosos de desempregados que se encontram no país hoje, porém existem nichos, e o canavieiro é um desses. Pouca gente tem a disposição de encarar um pesado trabalho de plantio manual e por outro lado, sobram vagas para os cargos gerados com a mecanização por simplesmente não existir mão de obra capacitada.

Diante desse cenário é muito raso atribuir ao avanço tecnológico a noção de que não há mais empregos no campo. O que houve foi uma evolução na necessidade de pessoas mais capazes para fazer uso dessa tecnologia, e o gargalo da capacitação, entende-se por educação, que é um dos problemas mais sérios de nossa sociedade.

Vagas para tratoristas, operadores de colhedoras, motorista de caminhão, mecânico para manutenção das máquinas e implementos sempre são facilmente encontradas nas unidades industriais.

Para mensurar um pouco do tamanho desse problema, Monassi cita como exemplo a transportadora de seu irmão: “Nós podemos chegar agora na empresa do meu irmão e encontrar pelo menos dez caminhões parados por falta de motorista”.

Tentando amenizar esse drama vivido pelos seus clientes, tanto a Tracan como a Case IH investem de forma pesada na questão de treinamento. Como é mais segmentada, a rede de concessionárias vai além de treinar apenas um operador de colhedora, de trator ou de pulverizador, ela alia a filosofia do grupo empresarial em entregar uma solução integrada ao seu cliente. Os participantes dos cursos aprendem também a como operar da maneira mais eficiente o transbordo, a plantadora, como fazer a distribuição de vinhaça, entre outras especificidades.

Já do lado da Case IH, a excelência nesse quesito não fica para trás. Com uma estrutura considerada como o maior centro de treinamento do mundo, localizada em Piracicaba-SP, somente em 2017 foram treinadas mais de 15 mil pessoas.

Uma curiosidade, ainda se tratando da função de operador, é a diferença cultural entre o agricultor brasileiro e o norte-americano: lá a maioria absoluta (cerca de 95%) dos donos das máquinas também as operam. Aqui no Brasil é encontrada uma incidência um pouco maior desse cenário a partir de um recorte feito no sul paulista e pegando todos os estados da região Sul, onde cerca de 40% dos donos também são operadores. Partindo da região canavieira paulista e subindo para Minas Gerais, Goiás, Tocantins, Mato Grosso e Sul da Bahia, a quantidade de operadores contratados chega a quase 100%.

Na visão de Monassi esse fato se dá em decorrência do tamanho das propriedades de cada região. No Sul as propriedades são mais pulverizadas enquanto que em direção ao Centro-Oeste o tamanho das fazendas é bem maior.

O trator autônomo, lançado no Brasil na Agrishow de 2017, que causou tanta polêmica, dá muitas pistas de como será o futuro em uma produção agrícola. O empresário é enfático ao dizer que possui uma visão “míope” ao relacionar esse processo com o fim da função de tratorista, isso porque é impossível pensar em máquinas trabalhando sem a presença do homem, ainda mais no campo, onde aparecem uma infinidade de problemas que necessitam da intervenção humana e também o fato da operação se tornar muito mais segura e eficiente, aumentando a rentabilidade daquela cultura que culminará na expansão da economia.

Questionado se ainda veríamos uma operação de colheita de cana sendo comandada de um dispositivo móvel, ele faz mistério mas confirma que veremos, e não vai demorar muito tempo para isso.
A tendência é clara, o trabalho no campo ficará mais sozinho sim, no entanto será muito mais inteligente.

Tracan: Uma empresa de tesouras
Ao ler o subtítulo acima o leitor deve ter ficado confuso – o que tem a ver a Tracan com uma indústria de tesouras? Será que a história deles é parecida com a da Peugeot (automobilística francesa que também produz moedores de pimenta)?
Pelo menos baseado nas informações dessa reportagem, o grupo de Monassi não tem muita ligação com os franceses, mas é fato que a tesoura é o core business (negócio principal) de sua operação. Isso porque antes mesmo de fabricar e vender máquinas, a Tracan corta os custos de seus clientes.

Esse fato fica evidente ao perceber a importância do CRM (programa que faz a gestão de relacionamento com o cliente) para o negócio dele. Como o próprio Monassi explica: “Aqui nós usamos o CRM com lupa para colher informações e dizer para o cliente os pontos que ele pode melhorar com determinada máquina, pensando na avaliação de desempenho. Analisamos o consumo de óleo diesel, peças e material de desgaste. Temos uma equipe que analisa e orienta o cliente”.

Porém, a empresa não se limita em apenas passar as informações. Sempre respeitando as regras de privacidade, ela pega os dados colhidos a todo tempo e joga em um banco que apontará as melhores práticas e com isso é possível fornecer comparativos para ficar nítido aonde o cliente precisa mudar sua maneira de trabalhar.

Se levar em consideração o quanto são exigidos os tratores tupiniquins, as tesouras ou o CRM precisam estar muito bem afiados, pois eles trabalham, em média, 4 mil horas por ano, enquanto que um americano é utilizado por uma média de 600 horas, ou seja, o que uma máquina brasileira roda em 1 ano, a gringa leva 8.

De tão antagônicos que são os mundos, a Case IH montou um centro de desenvolvimento de tratores em uma unidade canavieira na região de Ribeirão Preto. No entanto, a diferença de realidade não fica somente entre os dois países. Dentro da canavicultura existem clientes que trocam suas frotas com 12 mil horas e outros que chegam até 40 mil. Perante esse cenário, dá para concluir que o segundo negócio do grupo de Monassi é a lapidação, não de pedras preciosas, mas de dados.

Cana no tanque
A expectativa de grande parte do setor é saber quando será rentável abastecer as máquinas agrícolas com biocombustíveis. Sobre a utilização do etanol, Monassi informa que a Fiat Industrial, fornecedora de motores da Case IH, trabalha no desenvolvimento de um motor que ultrapasse o diesel sob o ponto de vista do consumo energético, inclusive com uma equipe de engenharia focada nisso.

No entanto, um outro combustível que está em processo de desenvolvimento para sua produção nas unidades industriais pode ganhar protagonismo nos canaviais brasileiros. É o biometano, onde já existe um grupo realizando testes para movimentar sua frota de caminhões e tratores.

Sobre motores elétricos, Monassi mostrou que a indústria de máquinas se encontra em um estágio bem embrionário, principalmente pelo fato de não terem sido desenvolvidos motores comercialmente viáveis nem para os carros leves, quem dirá para os que precisam de força bruta.

Mesmo com o mundo falando em formas alternativas de energia, o empresário lembra que o combustível das máquinas ainda é o diesel, e afirma que nos últimos cinco anos não houve empresa que conseguiu reduzir tanto o consumo como a emissão de poluentes como a Case IH. Para justificar a sua afirmação, ele fala sobre a MAR1 (lei brasileira para a redução de poluentes em máquinas agrícolas), que entrou em vigor no ano passado e, desde 2009, através dos motores Tier 3, as máquinas vermelhas já eram adaptadas à norma.

Aluguel de máquinas
Com mais de 30 anos de bagagem dentro desse segmento, Monassi encara possíveis formas alternativas de comercialização inviáveis, pelo menos a um curto prazo, e para isso seu principal argumento é bem simples: “A atividade final do produtor, para ter rentabilidade, tem que ser feita por ele”.

Mesmo quando olha para a modalidade de rental de máquinas (aluguel), o empresário diz que é interessante para algumas empresas, pois vem atrelado à uma operação financeira, na qual o cliente assina contratos e se compromete a ficar com a máquina ao longo de 4, 5 e até mesmo 7 anos. No entanto, dentro da canavicultura, ele acredita que com uma possível alavancada nas contas, grupos poderão entender que a aquisição do maquinário é o melhor negócio. 

Sobre a modalidade de aluguel “part-time” ele é totalmente descrente devido a sua inviabilidade financeira. Na visão dele, o valor de um trator precisa ser amortizado rodando e produzindo e se as margens de quem compra já são pequenas, como alguém poderia ter lucro em um aluguel, considerando que o produtor não poderia pagar muito além dos custos de ter a máquina própria, sem considerar ainda os custos logísticos que uma operação dessa geraria.

Ele argumenta fazendo um comparativo entre o tamanho do capital a ser investido e o tamanho do mercado: “Quando se pega um equipamento que custa R$ 1 milhão, não está se falando em um automóvel que custa R$ 40 mil. Uma locadora tem 100 carros nesse valor, o que dá um investimento de R$ 400 mil para atender 100 clientes, pessoas comuns ao dia ou em um período curto de tempo. Para atender 100 clientes com o aluguel part-time de máquinas, será necessário investir R$ 100 milhões, fora os implementos, para 100 produtores, que é uma profissão específica”.

Monassi também analisa que em nenhuma parte do mundo existe alguma operação parecida que tenha tido sucesso, o mais próximo disso acontece nos Estados Unidos. Lá algumas empresas, de maneira bem tímida, vendem o defensivo já aplicado, método que já foi testado aqui no Brasil através da venda de controle de plantas daninhas na canavicultura, mas não funcionou.

Líderes tecnológicos
Um plano estratégico bem feito precisa dar duas visões sobre o futuro de um negócio: quem serão os líderes e como a empresa pretende trabalhar as questões tecnológicas. No caso da Tracan dá para perceber que o atual gestor prepara muito bem os seus sucessores (filhos e genro), passando o mesmo empreendedorismo tecnológico que o fez ser um dos maiores nomes dentro do seu mercado.

Tanto que o maior ensinamento que ele passa para a geração posterior é o olhar analítico, sério e constante que é necessário ter em cima da evolução da tecnologia. As vezes algo desenvolvido em um setor totalmente diferente como o aeronáutico, por exemplo, pode significar uma solução para problemas dos clientes, sendo isso uma característica fundamental para qualquer negócio crescer, gerar resultados e se perpetuar.

Na contramão, e não menos importante, o empresário também aponta a presença deles como fundamental para a sua própria atualização profissional: “Eles me trazem muita coisa nova, desde uma análise financeira feita de uma forma diferente até a mudança de conceitos na hora de conversar com os clientes.

Mudou muito em relação ao que era feito antigamente. Falar de tecnologia era muito mais complicado, e hoje se você não estiver bem argumentado em relação às inovações, com certeza não terá sucesso nesse negócio”.

Sangue e óleos, ossos e ferro
Ir contra a visão de futuro onde sangue e óleos, ossos e ferro estarão perfeitamente obedecendo comandos de cérebros e chips é negar uma maravilhosa revolução perpétua que temos o privilégio de participar.

Dizem que o medo é gerado perante o receio da dor e isso é muito aproveitado pelos cronistas do caos que apontam a evolução tecnológica como o precipício da humanidade, que no futuro perderá sua liberdade quando os robôs ou clones humanos a escravizarem. Ou então ainda apontam que haverá verdadeiras legiões de desempregados porque a “evolução humana” vai fechar boa parte dos postos de hoje.

Cada vez que converso com pessoas como o Artur Monassi, me afasto ainda mais dessa teoria. Antes preciso deixar claro que onde há humanidade sempre acontecerão problemas, no entanto, sobre a questão do trabalho, fica claro o papel da tecnologia em acabar com aquele que é degradante, que liquida com saúdes e vidas, ou então aquele chato, burocrático, que condiciona a mente humana a sempre andar pelo mesmo caminho sem sequer poder olhar para o lado e ver uma paisagem.

Contudo, por mais avançada que seja uma sociedade, dificilmente vão conseguir fazer uma cópia do cérebro humano. Podem até chegar a fazer uma cópia do seu lado esquerdo, porém a criatividade é algo impossível de ser copiado e será com base nela a grande maioria das vagas de trabalho no futuro.
 

Fonte: Revista Canavieiros

Especial: Campos solitários

09/02/2018

Por: Marino Guerra

Uma reportagem com um dos maiores nomes da mecanização agrícola brasileira estaria incompleta se não apresentasse a visão dele a respeito da redução drástica da mão de obra que seu setor proporcionou à atividade rural.

Remetendo à sua infância, em São Joaquim da Barra-SP, na qual o empresário Artur Monassi, já participava muito do mundo agrícola em decorrência de seu pai ter uma oficina mecânica de máquinas, ele recorda que a região de Ituverava era uma grande produtora de algodão, e lembra-se de um verdadeiro exército de trabalhadores destinados a realizar a sua colheita.

Ao analisar o cenário dessa cultura hoje no Brasil, onde ela migrou para áreas extensivas localizadas no Mato Grosso e Bahia, na qual é cultivada por produtores com mais de 50 mil hectares que utilizam maquinário de altíssima tecnologia, Monassi não tem dúvidas em afirmar que se não tivesse evoluído o processo de mecanização, o algodão seria inviável não só no Brasil, mas também nos Estados Unidos.

Baseado nisso ele conclui trazendo um exemplo da produção canavieira indiana: “Os países asiáticos, onde a população é muito grande, ainda suportam esse tipo de mão de obra, mas estão mudando. Na Índia, por exemplo, a Case IH montou uma fábrica de colhedora de cana porque o indiano não quer cortar cana. Quanto mais pessoas alfabetizadas nós tivermos, menos mão de obra braçal teremos”.

Falar em escassez de mão de obra parece até um paradoxo diante de números volumosos de desempregados que se encontram no país hoje, porém existem nichos, e o canavieiro é um desses. Pouca gente tem a disposição de encarar um pesado trabalho de plantio manual e por outro lado, sobram vagas para os cargos gerados com a mecanização por simplesmente não existir mão de obra capacitada.

Diante desse cenário é muito raso atribuir ao avanço tecnológico a noção de que não há mais empregos no campo. O que houve foi uma evolução na necessidade de pessoas mais capazes para fazer uso dessa tecnologia, e o gargalo da capacitação, entende-se por educação, que é um dos problemas mais sérios de nossa sociedade.

Vagas para tratoristas, operadores de colhedoras, motorista de caminhão, mecânico para manutenção das máquinas e implementos sempre são facilmente encontradas nas unidades industriais.

Para mensurar um pouco do tamanho desse problema, Monassi cita como exemplo a transportadora de seu irmão: “Nós podemos chegar agora na empresa do meu irmão e encontrar pelo menos dez caminhões parados por falta de motorista”.

Tentando amenizar esse drama vivido pelos seus clientes, tanto a Tracan como a Case IH investem de forma pesada na questão de treinamento. Como é mais segmentada, a rede de concessionárias vai além de treinar apenas um operador de colhedora, de trator ou de pulverizador, ela alia a filosofia do grupo empresarial em entregar uma solução integrada ao seu cliente. Os participantes dos cursos aprendem também a como operar da maneira mais eficiente o transbordo, a plantadora, como fazer a distribuição de vinhaça, entre outras especificidades.

Já do lado da Case IH, a excelência nesse quesito não fica para trás. Com uma estrutura considerada como o maior centro de treinamento do mundo, localizada em Piracicaba-SP, somente em 2017 foram treinadas mais de 15 mil pessoas.

Uma curiosidade, ainda se tratando da função de operador, é a diferença cultural entre o agricultor brasileiro e o norte-americano: lá a maioria absoluta (cerca de 95%) dos donos das máquinas também as operam. Aqui no Brasil é encontrada uma incidência um pouco maior desse cenário a partir de um recorte feito no sul paulista e pegando todos os estados da região Sul, onde cerca de 40% dos donos também são operadores. Partindo da região canavieira paulista e subindo para Minas Gerais, Goiás, Tocantins, Mato Grosso e Sul da Bahia, a quantidade de operadores contratados chega a quase 100%.

Na visão de Monassi esse fato se dá em decorrência do tamanho das propriedades de cada região. No Sul as propriedades são mais pulverizadas enquanto que em direção ao Centro-Oeste o tamanho das fazendas é bem maior.

O trator autônomo, lançado no Brasil na Agrishow de 2017, que causou tanta polêmica, dá muitas pistas de como será o futuro em uma produção agrícola. O empresário é enfático ao dizer que possui uma visão “míope” ao relacionar esse processo com o fim da função de tratorista, isso porque é impossível pensar em máquinas trabalhando sem a presença do homem, ainda mais no campo, onde aparecem uma infinidade de problemas que necessitam da intervenção humana e também o fato da operação se tornar muito mais segura e eficiente, aumentando a rentabilidade daquela cultura que culminará na expansão da economia.

Questionado se ainda veríamos uma operação de colheita de cana sendo comandada de um dispositivo móvel, ele faz mistério mas confirma que veremos, e não vai demorar muito tempo para isso.
A tendência é clara, o trabalho no campo ficará mais sozinho sim, no entanto será muito mais inteligente.

Tracan: Uma empresa de tesouras
Ao ler o subtítulo acima o leitor deve ter ficado confuso – o que tem a ver a Tracan com uma indústria de tesouras? Será que a história deles é parecida com a da Peugeot (automobilística francesa que também produz moedores de pimenta)?
Pelo menos baseado nas informações dessa reportagem, o grupo de Monassi não tem muita ligação com os franceses, mas é fato que a tesoura é o core business (negócio principal) de sua operação. Isso porque antes mesmo de fabricar e vender máquinas, a Tracan corta os custos de seus clientes.

Esse fato fica evidente ao perceber a importância do CRM (programa que faz a gestão de relacionamento com o cliente) para o negócio dele. Como o próprio Monassi explica: “Aqui nós usamos o CRM com lupa para colher informações e dizer para o cliente os pontos que ele pode melhorar com determinada máquina, pensando na avaliação de desempenho. Analisamos o consumo de óleo diesel, peças e material de desgaste. Temos uma equipe que analisa e orienta o cliente”.

Porém, a empresa não se limita em apenas passar as informações. Sempre respeitando as regras de privacidade, ela pega os dados colhidos a todo tempo e joga em um banco que apontará as melhores práticas e com isso é possível fornecer comparativos para ficar nítido aonde o cliente precisa mudar sua maneira de trabalhar.

Se levar em consideração o quanto são exigidos os tratores tupiniquins, as tesouras ou o CRM precisam estar muito bem afiados, pois eles trabalham, em média, 4 mil horas por ano, enquanto que um americano é utilizado por uma média de 600 horas, ou seja, o que uma máquina brasileira roda em 1 ano, a gringa leva 8.

De tão antagônicos que são os mundos, a Case IH montou um centro de desenvolvimento de tratores em uma unidade canavieira na região de Ribeirão Preto. No entanto, a diferença de realidade não fica somente entre os dois países. Dentro da canavicultura existem clientes que trocam suas frotas com 12 mil horas e outros que chegam até 40 mil. Perante esse cenário, dá para concluir que o segundo negócio do grupo de Monassi é a lapidação, não de pedras preciosas, mas de dados.

Cana no tanque
A expectativa de grande parte do setor é saber quando será rentável abastecer as máquinas agrícolas com biocombustíveis. Sobre a utilização do etanol, Monassi informa que a Fiat Industrial, fornecedora de motores da Case IH, trabalha no desenvolvimento de um motor que ultrapasse o diesel sob o ponto de vista do consumo energético, inclusive com uma equipe de engenharia focada nisso.

No entanto, um outro combustível que está em processo de desenvolvimento para sua produção nas unidades industriais pode ganhar protagonismo nos canaviais brasileiros. É o biometano, onde já existe um grupo realizando testes para movimentar sua frota de caminhões e tratores.

Sobre motores elétricos, Monassi mostrou que a indústria de máquinas se encontra em um estágio bem embrionário, principalmente pelo fato de não terem sido desenvolvidos motores comercialmente viáveis nem para os carros leves, quem dirá para os que precisam de força bruta.

Mesmo com o mundo falando em formas alternativas de energia, o empresário lembra que o combustível das máquinas ainda é o diesel, e afirma que nos últimos cinco anos não houve empresa que conseguiu reduzir tanto o consumo como a emissão de poluentes como a Case IH. Para justificar a sua afirmação, ele fala sobre a MAR1 (lei brasileira para a redução de poluentes em máquinas agrícolas), que entrou em vigor no ano passado e, desde 2009, através dos motores Tier 3, as máquinas vermelhas já eram adaptadas à norma.

Aluguel de máquinas
Com mais de 30 anos de bagagem dentro desse segmento, Monassi encara possíveis formas alternativas de comercialização inviáveis, pelo menos a um curto prazo, e para isso seu principal argumento é bem simples: “A atividade final do produtor, para ter rentabilidade, tem que ser feita por ele”.

Mesmo quando olha para a modalidade de rental de máquinas (aluguel), o empresário diz que é interessante para algumas empresas, pois vem atrelado à uma operação financeira, na qual o cliente assina contratos e se compromete a ficar com a máquina ao longo de 4, 5 e até mesmo 7 anos. No entanto, dentro da canavicultura, ele acredita que com uma possível alavancada nas contas, grupos poderão entender que a aquisição do maquinário é o melhor negócio. 

Sobre a modalidade de aluguel “part-time” ele é totalmente descrente devido a sua inviabilidade financeira. Na visão dele, o valor de um trator precisa ser amortizado rodando e produzindo e se as margens de quem compra já são pequenas, como alguém poderia ter lucro em um aluguel, considerando que o produtor não poderia pagar muito além dos custos de ter a máquina própria, sem considerar ainda os custos logísticos que uma operação dessa geraria.

Ele argumenta fazendo um comparativo entre o tamanho do capital a ser investido e o tamanho do mercado: “Quando se pega um equipamento que custa R$ 1 milhão, não está se falando em um automóvel que custa R$ 40 mil. Uma locadora tem 100 carros nesse valor, o que dá um investimento de R$ 400 mil para atender 100 clientes, pessoas comuns ao dia ou em um período curto de tempo. Para atender 100 clientes com o aluguel part-time de máquinas, será necessário investir R$ 100 milhões, fora os implementos, para 100 produtores, que é uma profissão específica”.

Monassi também analisa que em nenhuma parte do mundo existe alguma operação parecida que tenha tido sucesso, o mais próximo disso acontece nos Estados Unidos. Lá algumas empresas, de maneira bem tímida, vendem o defensivo já aplicado, método que já foi testado aqui no Brasil através da venda de controle de plantas daninhas na canavicultura, mas não funcionou.

Líderes tecnológicos
Um plano estratégico bem feito precisa dar duas visões sobre o futuro de um negócio: quem serão os líderes e como a empresa pretende trabalhar as questões tecnológicas. No caso da Tracan dá para perceber que o atual gestor prepara muito bem os seus sucessores (filhos e genro), passando o mesmo empreendedorismo tecnológico que o fez ser um dos maiores nomes dentro do seu mercado.

Tanto que o maior ensinamento que ele passa para a geração posterior é o olhar analítico, sério e constante que é necessário ter em cima da evolução da tecnologia. As vezes algo desenvolvido em um setor totalmente diferente como o aeronáutico, por exemplo, pode significar uma solução para problemas dos clientes, sendo isso uma característica fundamental para qualquer negócio crescer, gerar resultados e se perpetuar.

Na contramão, e não menos importante, o empresário também aponta a presença deles como fundamental para a sua própria atualização profissional: “Eles me trazem muita coisa nova, desde uma análise financeira feita de uma forma diferente até a mudança de conceitos na hora de conversar com os clientes.

Mudou muito em relação ao que era feito antigamente. Falar de tecnologia era muito mais complicado, e hoje se você não estiver bem argumentado em relação às inovações, com certeza não terá sucesso nesse negócio”.

Sangue e óleos, ossos e ferro
Ir contra a visão de futuro onde sangue e óleos, ossos e ferro estarão perfeitamente obedecendo comandos de cérebros e chips é negar uma maravilhosa revolução perpétua que temos o privilégio de participar.

Dizem que o medo é gerado perante o receio da dor e isso é muito aproveitado pelos cronistas do caos que apontam a evolução tecnológica como o precipício da humanidade, que no futuro perderá sua liberdade quando os robôs ou clones humanos a escravizarem. Ou então ainda apontam que haverá verdadeiras legiões de desempregados porque a “evolução humana” vai fechar boa parte dos postos de hoje.

Cada vez que converso com pessoas como o Artur Monassi, me afasto ainda mais dessa teoria. Antes preciso deixar claro que onde há humanidade sempre acontecerão problemas, no entanto, sobre a questão do trabalho, fica claro o papel da tecnologia em acabar com aquele que é degradante, que liquida com saúdes e vidas, ou então aquele chato, burocrático, que condiciona a mente humana a sempre andar pelo mesmo caminho sem sequer poder olhar para o lado e ver uma paisagem.

Contudo, por mais avançada que seja uma sociedade, dificilmente vão conseguir fazer uma cópia do cérebro humano. Podem até chegar a fazer uma cópia do seu lado esquerdo, porém a criatividade é algo impossível de ser copiado e será com base nela a grande maioria das vagas de trabalho no futuro.