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20/01/2010
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Verdades e Mitos do ATR Relativo

Opreço da cana-de-açúcar no

Estado de São Paulo é forma-

do a partir dos preços médios líquidos, isto é, livre de impostos, de açúcar e álcool obtidos pelas unidades industriais. Este faturamento líquido é dividido entre o produtor de cana-de-açúcar e a usina proporcionalmente aos custos de produção de cada um. Assim a metodologia CONSECANA-SP busca apurar qual o faturamento líquido da usina com cada um destes produtos a partir dos preços levantado pela ESALQ/CEPEA. Posteriormente, aplica-se a participação do produtor para o açúcar e para o álcool, converte-se em ATR (Açúcar Total Recuperável) e ponderam-se os preços dos diversos mercados e produtos. Tem-se, então, o preço do ATR que será multiplicado pela quantidade de ATR fornecida pelo produtor para formar o preço por tonelada de cana.

Até a primeira revisão do CONSECANA-SP, realizada no ano de 2.005, para a formação do preço da cana-de-açúcar no Estado de São Paulo, o produtor de cana participava com 56,8% do faturamento líquido dos preços de açúcar e com 61,2% e 62,7% dos faturamentos líquidos de álcool anidro e hidratado, respectivamente.

Produtores de cana e industriais tinham consciência de que estes valores de participação estavam defasados e precisavam ser atualizados, assim como as perdas na fase comum do processo que eram de 12% e a eficiência de fermentação que era de 85,5%. Entretanto havia uma característica no fornecimento de cana de produtores independentes que impossibilitava o avanço nas negociações: a distribuição no fornecimento de cana durante a safra.

Buscamos, em nossa base de dados, as avaliações que tínhamos e que foram usadas para analisar a questão. No gráfico 1* é apresentado o perfil de moagem e a distribuição mensal de moagem ajustada para uma unidade padrão de 2 milhões de toneladas.

Esta unidade teria uma capacidade diária de 12 mil toneladas de cana. À época, antes da revisão a participação média dos produtores ponderada entre açúcar e álcool era de 58,3% e acreditávamos que este valor deveria passar de 60%.

Contudo quando usávamos em nosso modelo matemático a distribuição de moagem efetivamente prática pelos produtores de cana (veja gráfico 2*), obtínhamos uma participação média inferior à que tínhamos até então, ou seja, de 58,3%, chegávamos a algo em torno de 57%.

Nesta condição de distribuição, seria necessária uma unidade com capacidade diária de processamento de 16.400 toneladas, com investimento industrial 24% maior que uma de 12.000 t/dia e com uma participação inferior a que havia até então.

Havia duas alternativas possíveis:

1-) Tornar obrigatória a distribuição da entrada de cana durante a safra ou

2-) Aplicar o cálculo do ATR Relativo, cujo modelo vinha sendo aprimorado há anos, mesmo antes do CONSECANA-SP existir com o nome de Média Móvel.

A primeira opção foi logo rechaçada pelos industriais, pois, devido às mudanças ocorridas desde os primeiros anos do IAA (Instituto do Açúcar e do Álcool), onde existiam cotas de entrega, a matéria-prima de fornecedores em boa parte era colhida pelas unidades industriais e esta opção retornaria o problema para as indústrias.

Entre o início das negociações e a definição do modelo de fornecimento de cana, outros pontos importantes avançaram: as perdas na fase comum que eram de 12% passariam para 9,5% e a eficiência de fermentação que era de 85,5% passaria para 88%.

As negociações caminharam para dois desfechos possíveis: a utilização do ATR relativo com os demais avanços obtidos ou a manutenção do que estava disponível. Em todas as análises que realizamos utilizando todos estes ajustes, apesar da redução no teor de ATR causado pela aplicação do ATR relativo para aqueles produtores que estavam concentrados no meio da safra, havia um ganho no preço do ATR, com a aplicação das novas participações dos fornecedores, que passariam a 59,5% para o açúcar e 62,1% para o álcool, e no balanço de todos os fatores, o resultado apontava para um ganho para os produtores de cana-de-açúcar.

Hoje podemos afirmar que os ga-nhos para os produtores variaram de 6 a 10% em relação aos valores pagos antes da revisão de 2.005 dependendo do mix de produção da unidade industrial, mas para muitos produtores restam uma série de dúvidas. A principal delas é: com a utilização do ATR relativo ainda é importante buscar altos teores de ATR para minha cana, se eu vou receber pela média da usina?

Primeiramente é importante dizer que o fornecedor não recebe pela média da usina. A média da usina é um dos componentes do cálculo do ATR relativo. Outro importante fator é a dispersão do fornecedor com relação à média da quinzena, isto é, se o teor de ATR do produtor na quinzena foi maior ou menor que a média e quanto é esta variação.

Vejamos o gráfico 3* onde são apresentados dados dos teores médios de ATR de uma usina de nossa região da primeira quinzena da safra (Quinzena 1 – 1ª quinzena de abril) à última (Quinzena 16 – 2ª quinzena de novembro) separando os valores das canas de produtores e da usina e a curva de teor médio de ATR da safra nesta usina.

Cada ponto X azul representa o teor de ATR da cana entregue por um fundo agrícola de um produtor e cada ponto fechado em vermelho (Ï%) representa a cana entregue por um fundo agrícola da usina. A linha verde representa o teor médio de ATR das canas de entregues na usina (fornecedores + usina).

Percebam que, dentro de cada quinzena, há alguns fundos agrícolas estão com teores acima da média, isto é, estão acima da linha verde e outros com teores abaixo da média.

Vamos usar alguns exemplos para entendermos melhor como é calculado o ATR relativo.

Veja os exemplos abaixo. Estes valores foram colocados com fins didáticos e não representam os pontos acima*

Todos os valores estão em Kg de ATR por tonelada de cana.

Primeiro vamos entender o que significam as siglas:

F.A. – Fundo Agrícola

ATRfq – Teor de ATR do fornecedor na quinzena, isto é, o teor de ATR convencional obtido pelo fornecedor.

ATRuq – Teor de ATR da usina quinzena. É o teor de ATR médio de todos os fornecedores e das canas próprias da usina na quinzena

Dispersão – É a variação para cima ou para baixo que o fornecedor obteve da média da quinzena, portanto é o resultado da subtração do ATRfq menos ATRuq.

ATRus – Teor de ATR da usina na safra. É o teor de ATR médio de todos os fornecedores e das canas próprias da usina esperado para a safra. Antes de terminar a safra é calculado pela média das últimas 5 safras. Após o término da safra é substituído pelo teor médio da safra corrente.

ATRfr – Teor de ATR relativo do fornecedor. É o teor de ATR relativo obtido pelo fornecedor e que será utilizado para o cálculo do preço da cana, resultado da soma da dispersão com o ATRus.

Observe que, no exemplo na página anterior, para a 1ª quinzena de maio, o Fundo Agrícola 1 (F.A. 1) obteve um teor de 130 Kg de ATR/t e o F.A. 2 de 120 Kg de ATR/t, assim o F.A. 1 ficou 5 Kg de ATR acima da média da quinzena e o F.A. 2 ficou 5 Kg de ATR abaixo da média da quinzena que foi de 125 Kg de ATR/t. Para calcular o teor de ATR relativo do F.A. 1, somamos 5 Kg à média de safra estimada para a usina, que é 140 kg de ATR/t, e este fundo agrícola (F.A. 1) receberá 145 Kg de ATR/t. Já o F.A. 2 ficou receberá (140 – 5) = 135 Kg de ATR/t. Perceba que houve um “ganho” de 15 Kg de ATR para o F.A. 1 com relação ao ATR “convencional” entregue e mesmo o F.A. 2 também teve um “ganho” de 15 Kg de ATR/t, mas o F.A. 1 recebeu 10 Kg de ATR a mais que o F.A. 2, mesma diferença encontrada no ATR convencional (ATRfq).

Mas quando entrou agosto, o teor de ATR “convencional” obtido pelo F.A. 1 foi de 155 Kg de ATR/t, ficando também 5 Kg acima da média e assim o teor de ATR relativo do F.A. 1 na 1ª quinzena de agosto foi novamente de 145 Kg/t. Perceba que nesta caso, há uma “perda” de 10 Kg de ATR/t, mas é justamente este equilíbrio entre o início e o meio de safra que torna homogêneo o pagamento de cana em qualquer época do ano, evitando a concentração nos meses em que naturalmente um aumento no teor de ATR, mas perceba também que o F.A. 1 recebeu 10 Kg de ATR a mais que o F.A. 2 na 1ª quinzena de agosto, mesma diferença entre os teores de ATR convencionais (ATRfq).

Bem, mas se o teor da primeira quinzena de maio ficou igual ao da primeira quinzena de agosto, o que aconteceria se o produtor não cuidasse de sua cana de agosto e, ao invés de 5 Kg acima, ficasse 5 Kg abaixo?

Aconteceria o que aconteceu com o F.A. 2, ficaria com um teor de ATR com 10 Kg a menos em relação ao F.A. 1.

Conclusão: O teor de ATR relativo não diminui a necessidade de cuidar do canavial, principalmente de daninhas, e de escolher a variedade certa para a época adequada, pois quem descuidar do canavial receberá menos.

Outra questão relevante é que a revisão do CONSECANA-SP não incluiu apenas o ATR relativo, mas também melhorias na participação do fornecedor, nas perdas da fase comum e na eficiência de fermentação que, no conjunto, como dito, representaram ga-nhos significativos nos preços da cana-de-açúcar.

Veja no gráfico 4* como ficam os teores de ATR relativo de diversos fundos que foram apresentados no gráfico 3*. Compare o Gráfico 3* com o Gráfico 4*.

Percebam que fundos que estavam acima da média, continuam acima da média e recebendo mais por tonelada de cana. É importante lembrar também que ao final do período de moagem é feito o ajuste do ATRus, ou seja, o teor de ATR médio da usina na safra que inicialmente é estimado pela média das últimas 5 safras e que, no fechamento de safra, utiliza-se o teor efetivamente obtido na safra.

Devido às características climáticas deste ano agrícola (safra 2.009/2.010) e a partir de nosso acompanhamento do andamento da safra feito pelo Sistema ATR, praticamente todas as unidades industriais terão um teor de ATR inferior ao estimado inicialmente, o que redundará em um teor de ATR relativo inferior ao estimado inicialmente.

Um alerta que gostaríamos de fazer também àquelas unidades que pagam pelo teor médio de ATR da unidade sem utilizar o cálculo do ATR relativo, uniformizando o preço da cana para todos os fornecedores: haverá uma tendência dos produtores plantarem variedades mais rústicas e produtivas mesmo em terras mais férteis, ao invés de variedades com melhores teores de ATR, o que redundará em baixo rendimento industrial e baixa eficiência dos processos de extração, lavagem, recuperação de açúcar e fermentação.

Em caso de dúvidas, procure o Departamento de Planejamento e Controle Agrícola através do telefone (16) 3946-3300 ou na sede da CANAOESTE em Sertãozinho.

Cleber Moraes, Consultor CANAOESTE

M. Moraes Consultoria Agronômica S/C Ltda

*Gráficos e tabelas podem ser visualizadas na Revista Canavieiros - Ed de Janeiro de 2010 nº 43, páginas 28 à 30

*Gráficos e tabelas podem ser visualizadas na Revista Canavieiros - Ed de Janeiro de 2010 nº 43, páginas 28 à 30

www.revistacanavieiros.com.br

 

Fonte: Revista Canavieiros - Cleber Moraes

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