/ etanol /

04/03/2010
Voltar a página inicial

"Sem recursos, não há como fazer estoque de etanol", diz Biagi

Os últimos meses foram marcados por altas significativas no preço do etanol combustível, o que provocou uma migração em massa do consumidor para a gasolina, hoje mais atrativa sob o argumento da relação custo/rendimento.

Maurilio Biagi, empresário brasileiro do setor sucroalcooleiro e integrante do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República, afirma em entrevista ao Campo News que o desequilíbrio desta gangorra é resultado da falta de um estoque regulador de etanol. Também lembra que para estocar o combustível, antes de mais nada, é preciso de recursos.

"É necessário esclarecermos que enquanto a gasolina tem tarifa, o etanol é regido pelo mercado e, como todos os produtos regidos pelo mercado, passa por alternância de preço. Sem recursos, não temos como fazer estoque regulador de um combustível produzido em seis ou oito meses e consumido em 12. A culpa não é do consumidor por ignorar esse fato, mas nossa, por não esclarecer", acrescenta.

Confira os principais trechos da entrevista concedida ao Campo News.

Campo News: O sr. acredita numa tendência de melhora ou piora dos preços da cana em 2010? Quais argumentos o levam a ter essas expectativas?

Biagi - Depende da base que tomamos como referência. Para 2010, sobre os preços que estão sendo praticados hoje, a tendência é de piora. Se a base de referência, no entanto, for 2009, eles serão melhores. Atingiram um pico em janeiro, mas já começam a cair. Durante a safra, com certeza, não permanecerão no atual patamar. Afora a campanha negativa liderada pela mídia que estamos sofrendo. Ela fará com que mais consumidores optem por consumir gasolina em detrimento do etanol. O que se passa, porém, é mais amplo. A opinião pública já pode ter assimilado, mas ainda não entendeu a violenta oscilação nos preços do etanol ao longo dos últimos meses. Depois de uma baixa persistente, a alta foi tão brusca, na entrada de 2010, que a maioria dos usuários de carros flex simplesmente mandou encher os tanques de gasolina. E assim será até a gangorra voltar ao equilíbrio. Este é um ciclo que vai e volta. E nós ainda não conseguimos que as variações de preços não fossem tão abruptas. Infelizmente, tanto os preços do açúcar quanto do etanol tendem a cair. Num ciclo de dez anos, os preços de etanol têm sido melhores durante dois ou três anos e do açúcar, nos outros. Nós, produtores de etanol, e os consumidores do principal biocombustível brasileiro, vivemos duas crises seguidas. Primeiro, quando muitos usineiros, para fazer caixa, durante o colapso financeiro mundial, chegaram a vender etanol a menos de R$ 0,60 o litro. Era um patamar baixíssimo que não poderia durar muito tempo, já que não cobria sequer os custos de produção. Foi o que aconteceu. Como tem se repetido, falta ao empresário do setor vir a público anualmente, antes que a safra termine, e esclarecer que se trata de produto sazonal, sujeito à safra e entressafra, à lei da oferta e da procura. É necessário esclarecermos que enquanto a gasolina tem tarifa, o etanol é regido pelo mercado e, como todos os produtos regidos pelo mercado, passa por alternância de preço. Sem recursos, não temos como fazer estoque regulador de um combustível produzido em seis ou oito meses e consumido em 12 - sempre haverá momentos de baixa, no fim da safra, elevando o preço. A culpa não é do consumidor por ignorar esse fato, mas nossa, por não esclarecer.

CN - A cana-de-açúcar é uma boa opção para quem pretende investir neste momento? O retorno ao produtor é de curto, médio ou longo prazo?

Biagi - A cana-de-açúcar é um investimento sempre de longo prazo e nunca de curto. Ela leva, depois de plantada, 18 meses para ficar "pronta" para a colheita e processamento. O mercado da cana é sempre promissor e em expansão, não só por causa da necessidade de açúcar no mundo e de álcool, como a melhor alternativa aos combustíveis fósseis. Não se pode perder de vista a enorme diversidade de produtos oferecidos pelas rotas sucroquímica e alcoolquímica - um leque que vai do açúcar orgânico ao plástico, da levedura para ração animal à cogeração de eletricidade a partir da biomassa. Não fosse um bom investimento, a participação do capital externo não teria saltado de 5% para 25% em menos de cinco anos, com 12 grupos estrangeiros instalados no Brasil. A Shell não teria se associado à Cosan nem haveria até bancos japoneses investindo na construção de alcooldutos no País.

CN - O sr. acredita que a valorização do açúcar continuará firme neste ano e o etanol sendo pouco atrativo aos produtores?

Biagi - O etanol não é pouco atrativo para os produtores. Tem mercado aberto e é referência mundial no futuro -- que já chegou -- para os biocombustíveis. Ele é infinito, enquanto os concorrentes derivados de fontes fósseis são finitos. Terá custos de produção cada vez menores, o que não é possível na concorrência. O barril de petróleo tem um custo militar escondido, pelo qual o mundo inteiro paga sem ver. O álcool tem um custo de paz representado pela geração de emprego e renda e distribuição de riqueza. Mais: o canavial é o maior indutor de produção de alimentos, cujas lavouras têm convívio único com a cana. Experimente plantar um pé de arroz ou de feijão num campo de petróleo.

CN - O governo acertou na decisão de reduzir a mistura de etanol à gasolina para equilibrar os preços?

Biagi - O governo não acertou nem errou. Fez o que era preciso. O que me assusta é o fato de nós produtores pedirmos para que isso fosse feito, pois não fomos capazes de produzir o etanol necessário para consumo, mesmo levando em consideração o excesso de chuva. Temos que saber que o consumidor e a sociedade contam com o nosso compromisso de produzir o que é consumido. A nós cabe muito mais produzir o etanol em quantidade necessária do que fazer propaganda do carro flex. Sem o nosso produto, que motivo teriam as montadoras para fabricar esse tipo de motor? Temos um privilégio único no mundo proporcionado pela cana e por essa tecnologia: só o consumidor brasileiro pode chegar ao posto e escolher que combustível irá mover o seu carro. Não podemos negligenciar algo conquistado com tanto esforço. Há momentos em que, parece, o mundo admira e valoriza mais o que é nosso do que nós mesmos. Aliás, em vários segmentos é assim.

CN - O presidente Lula disse em Campinas, no dia 24 de janeiro, que "o álcool quase acabou nesse País porque não houve seriedade e ajuste de conduta entre empresários, governo e a indústria automobolística". O sr. concorda com esse ponto de vista?

Biagi - O presidente não foi feliz no que disse em Campinas, mas tinha motivos para estar irritado, pois existia uma grande possibilidade de faltar etanol, o que não é admissível para qualquer governo e, muito menos, para os produtores e, claro, para o consumidor. É válido apontar ainda que, em que pese a falta de uma maior articulação entre governo e empresários, para discussão e, implementação de questões fundamentais para o setor, a exemplo da manutenção dos estoques estratégicos, já caminhamos bastante nos últimos anos no sentido de alcançar um diálogo mais estreito entre o setor produtivo e o governo. O País tem a chance de ter a matriz energética mais limpa do mundo e o etanol é parte importante disso. O estoque regulador é fundamental, mas não basta fazer os tanques estocarem. É preciso que o governo entenda que quando se trata de um mecanismo regulador, quem deve fazer as regras da regulação é ele. Essa foi uma das primeiras necessidades expressas, quando se fundou o Programa Nacional do Álcool, o chamado Proalcool.

CN - Que futuro o sr. vislumbra para o mercado sucroalcooleiro no Brasil?

Biagi - Se corrigirmos nossa rota teremos um futuro brilhante. O passado nos mostra os erros e acertos e, no presente, vamos colher os frutos do que plantamos.

 

Fonte: Campo News

Voltar a página inicial

e-mail
Envie essa notícia por e-mail
impressora
Imprimir