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A crise das moléculas na China

29/08/2019 Cana-de-Açúcar POR: Revista Canavieiros
Por: Marino Guerra

No ano passado o mundo agro se deparou com mais um desafio conjuntural para encarar: a falta de matéria-prima para a produção de defensivos em decorrência do alto número de fechamento de fábricas na China.
 
A situação acarretou em ausência de algumas moléculas e, com a diminuição da oferta, alta nos preços de outras.
 
Desde o surgimento do problema, a indústria se move para se adequar à nova realidade, como pode ser conferido na entrevista feita com o diretor de Operações Supply da Syngenta, Jorge Buzzetto, que também falou sobre a guerra de imagem do agronegócio nacional, a lei dos defensivos e a visão da empresa para o futuro da cana-de-açúcar:
 
Revista Canavieiros: Depois da crise na China, como está configurado o mercado mundial de produção de matéria-prima para a produção de defensivos?
 
Jorge Buzzetto: No nosso planejamento foi considerado um ano com crescimento importante. Essa previsão nos deu uma indicação de quanto seria demandado de cada produto, fazendo com que houvesse uma preparação junto aos nossos fornecedores internacionais.
 
Outro ponto que esperávamos e aconteceu foi uma antecipação de consumo. Sendo assim, estamos conseguindo nos equilibrar quando observados os números de necessidade e disponibilidade.
 
Revista Canavieiros: Então o problema que teve na China no ano passado, em parte, está resolvido?
 
Buzzetto: Se você olhar a questão da China num contexto global, ainda teremos dificuldades em polos de algumas regiões.
 
No contexto da Syngenta, estamos na China há quinze anos, ou seja, a nossa relação com a fonte de suprimento é de longa data, o que representa uma certa fidelização, inclusive se pensarmos que temos a política de trabalhar com contratos de longo prazo.
 
Também é válido ressaltar que estamos no país desde o início dos anos 2000, o que significa que levamos muita tecnologia para lá. Com isso, criamos uma lógica a partir de uma base instalada maior e, consequentemente, mais confiável.
 
Isso não quer dizer que não podemos vir a ter problemas pontuais, porém essa estrutura nos deixou bem preparados para enfrentar os desafios pós-crise.
 
Revista Canavieiros: Quanto essa crise de matéria-prima incentivou a Syngenta a procurar soluções fora do químico?
 
Buzzetto: No contexto em que estamos inseridos, vemos compatibilidade da semente de biotecnologia, do químico e do biológico. A questão é como estabelecer essa nova forma de manejo, que deve ter uma fase de transição, assim como já ocorreu quando surgiu a biotecnologia em relação aos químicos.
 
Assim, o biológico será uma terceira via tecnológica para o produtor, porém enxergamos que falta o estabelecimento dessa lógica.
 
Aqui, na Syngenta, estamos na fase de testes de soluções biológicas, justamente caminhando no sentido dessa complementariedade, mas não temos uma perspectiva de curto prazo para suprir a necessidade demandada se amanhã houver uma ruptura da cadeia na China.
 
Contudo, acreditamos que no médio e longo prazo, todos os fatores vão se organizar.
 
Revista Canavieiros: Quanto a agricultura brasileira é fonte de inspiração dentro do portfólio mundial da Syngenta?
 
Buzzetto: Realizamos este ano um evento em Campinas, denominado One Agro, cujo o objetivo foi justamente representar a importância do Brasil dentro do contexto mundial, além de mostrar o papel da Syngenta como ator do agronegócio brasileiro.
 
Lá, algumas direções ficaram mais claras como, por exemplo, a China, com sua dimensão territorial e populacional. Vemos seu foco macroeconômico voltado mais para a indústria, apesar de que a agricultura crescerá no país.
 
Se olharmos para a Índia, que é outro centro importante, vemos mais uma tendência forte voltada ao setor de serviços. E, assim como todo o setor, estamos trabalhando para o Brasil emplacar na competência que imaginamos para ele, que é a agropecuária.
 
Então, no evento levamos influenciadores, clientes finais, políticos e presidentes de empresas do agronegócio para mostrar esse protagonismo.
 
 
Revista Canavieiros: Como o senhor vê o movimento que vem se formando para diminuir a influência do agronegócio brasileiro nos mercados internacionais?
 
Buzzetto: Nós temos que estar melhor preparados para essa competição de mercado internacional, para competir olho-no-olho e dizer: “Você está dizendo que eu poluo? Que eu uso muito agroquímico? Mas eu tenho duas e até mesmo três safras. Enquanto que Estados Unidos e Europa têm uma safra só”.
 
Precisamos passar essa percepção para a população em geral, de que se não tivermos a produtividade agrícola brasileira, através da utilização dos defensivos como ferramenta para isso, continuaremos a ser taxados como o patinho feio da história.
 
Queremos ser protagonistas disso. Nós temos um mundo que quer comer mais proteína, quer um tomate o mais vermelho possível, sem nenhuma manchinha, e laranja sem nenhum sinal de cancro, mas que questiona o método.
 
Precisamos aprender a brigar pelo nosso negócio e pararmos de levar caneladas.
 
Temos competência para isso porque temos o nível de produtividade igual aos Estados Unidos, somos potencialmente o maior produtor de soja do mundo, tornamos o milho uma commodity agrícola, algo que não era. E, com todo esse vigor, nos sentimos acuados porque vem um comentário negativo feito por um pais economicamente mais forte que nós.
 
Revista Canavieiros: O sentimento que precisamos ter é de que somos primeiro mundo, potência mundial da agropecuária?
 
Buzzetto: Perfeitamente, acho que agricultura já passa por um nível de profissionalismo muito grande, e está faltando trabalharmos para que todos entendam e conheçam isso. Cito como exemplo o que acontece com o algodão, onde a associação fez um trabalho maravilhoso de credenciar fazendas porque o mercado internacional tinha a visão de que o Brasil produzia algodão de uma forma qualquer, de baixa qualidade, impactando o meio ambiente e não seguindo regras de preservação. O trabalho feito eliminou essa visão.
 
Hoje vem um importador de algodão ao Brasil e fica impressionado com tamanho profissionalismo, sem impacto ao meio ambiente.
 
Outro ponto relevante é o de quem no mundo tem pelo menos 20% da produtividade agrícola reservada para preservação? Ninguém, e nós não falamos isso.
 
Revista Canavieiros: Todo esse contexto atrapalha o desenvolvimento do agro, como pode ser percebido no atraso do andamento da lei para modernizar o processo de aprovação dos agroquímicos...
 
Buzzetto: Nós somos uma empresa de pesquisa e desenvolvimento. Sendo assim, demoramos cerca de dez anos para desenvolver uma molécula e gastamos por volta de US$ 150 milhões. Levam-se cinco anos para ter o registro dessa molécula no mercado, ou seja, são perdidos 50% da potencialidade daquele desenvolvimento e, diante disso, alguma coisa precisa ser feita, se não, não haverá inovação.
 
Se olharmos hoje uma molécula química, ela tem entre 10 a 15 etapas de síntese orgânica para ter eficácia e ser ambientalmente amigável. Isso ninguém fala.
 
Então, acreditamos que o órgão regulador, aquele que faz o registro do produto, deve ser mais efetivo, caso contrário, não tem como ser líder mundial do agro. Somos totalmente favoráveis que haja os testes, que se tenha a garantia, não somos contra nada disso, mas queremos agilidade para que estes ensaios sejam analisados e nos tragam as respostas. Nós queremos um processo regulatório baseado em informações científicas, retirando do processo as ideologias.
 
Revista Canavieiros: Como um diretor de uma marca tão importante como a Syngenta enxerga o futuro da cana-de-açúcar?
 
Buzzetto: Vejo a cana-de-açúcar como um cultivo de grande importância para nós, isso pelo seu elo com a cadeia da bioenergia. Esta é a maior bandeira da cultura.
 
A Syngenta está trabalhando no desenvolvimento de uma semente de cana, que é o Emerald. Já estamos na fase de testes com resultados bastante interessantes, vimos números que suplantam o plantio convencional no sentido de produtividade por área. Nos falta encontrar a escalabilidade disso.
 
A cana é uma das culturas que mais apresentou evolução em seu manejo nas últimas décadas. A queimada foi substituída pela mecanização, o que demanda até hoje um trabalho árduo para retomar os altos patamares de produtividade.
 
Precisamos ter o preço dos produtos melhor trabalhado para evitar os altos e baixos, pois essa oscilação é o que mata, em decorrência da falta de previsibilidade.
 
É importante ressaltar que, da parte da Syngenta, como sendo do grupo Chem China, temos também a Adama e começamos a trabalhar em conjunto para criarmos o portfólio em cana de maneira complementar.
 
Revista Canavieiros: Qual o tamanho do barulho que o Emerald causará na cultura?
 
Buzzetto: Eu estive envolvido na primeira fase do Plene, aquela que não deu certo. Na época, eu cheguei a ser o diretor de produção e o problema foi a escalabilidade, não conseguimos fazer o produto escalar porque ele tinha um tempo de prateleira menor, num processo que depende muito do clima externo.
 
Com o Emerald, enxergamos entre 10 a 15 dias a mais de vida do produto. Esse tempo parte do momento de sua produção até o plantio porque adotamos outra tecnologia, outros componentes que proporcionaram outra dinâmica ao produto.
 
Estamos justamente no processo de encontrar essa escalabilidade dentro de seu desenvolvimento. Temos um trabalho árduo pela frente, mas esperamos alcançá-la porque sabemos que há essa demanda latente.
 
O mercado quer o Emerald e imagine a simplificação que ocorrerá no plantio de cana, serão 18 toneladas contra 800 quilos de muda.
 
Revista Canavieiros: O mundo da distribuição e comércio de qualquer produto está no olho do furacão do processo de inovação. Como será o papel das cooperativas agropecuárias no futuro?
 
Buzzetto: Eu não sou da área comercial, mas enxergo que está havendo uma certa consolidação dos canais, efeito que já aconteceu na indústria há um certo tempo.
 
Se pegarmos a Syngenta, ela vem de uma fusão da Novartis com a AstraZeneca e, a Novartis, também veio de uma fusão da Ciba-Geigy com a Sandoz. Isso mostra a consolidação da indústria em busca de escala e musculatura.
 
Vejo essa história não somente com as cooperativas, mas com as revendas e o distribuidor porque o tamanho do agro exige o jogo de grandes. Indicadores neste sentido já são vistos com os chineses comprando distribuidores e, em breve, provavelmente os indianos também entrarão no mercado.