A Revista Canavieiros bateu um papo com a empresária sertanezina do setor de transportes, Rosana Amadeu da Silva

14/04/2023 Noticias POR: FERNANDA CLARIANO

“É pelo trabalho que a mulher vem diminuindo a distância que a separava do homem, somente o trabalho poderá garantir-lhe uma independência concreta”. Essa frase da filósofa e escritora francesa Simone de Beauvoir, que teve inegável contribuição à luta das mulheres. Não há dúvidas de que o papel das mulheres no mercado de trabalho é cada vez mais central e segue, ao longo do tempo e com muita luta e dedicação, ganhando o espaço e o reconhecimento merecidos. Para uma singela homenagem ao Dia Internacional da Mulher, celebrado neste mês de março, a reportagem da Revista Canavieiros bateu um papo com a empresária sertanezina do setor de transportes, Rosana Amadeu da Silva. Ela que é mãe dos gêmeos Thales Zumstein e Letícia Zumstein e que recentemente foi empossada como a nova presidente do Ceise Br (Centro Nacional das Indústrias do Setor Sucroenergético e Biocombustíveis), sendo a primeira mulher a presidir a entidade em mais de quatro décadas de existência. Na oportunidade, ela falou sobre este novo desafio, o protagonismo das mulheres, dentre outros assuntos. Confira!

Revista Canavieiros: Quem é Rosana Amadeu da Silva? Fale um pouco sobre sua trajetória.

Rosana Amadeu da Silva: Nasci em Sertãozinho no dia 06 de dezembro de 1969, filha de José Hermenegildo da Silva e Neuza Maria Amadeu da Silva, com descendência de portugueses e italianos. Sou filha desta terra, com DNA de cana-de-açúcar, criada na Usina São Martinho, onde passei minha infância. Mãe de um casal de filhos gêmeos Thales Zumstein e Letícia Zumstein. Antes de ingressar na empresa familiar, meu primeiro emprego foi na Zanini S/A. Trabalhei também, por curto espaço de tempo, na Prefeitura Municipal de Sertãozinho e no Grupo Balbo até ingressar no setor bancário na Nossa Caixa Nosso Banco, onde fiz carreira por 14 anos, até sair para assumir o desafio de empreender na Telog, empresa do segmento de logística e transporte com mais de 22 de anos de atuação e dedicação ao setor sucroenergético e respectiva cadeia produtiva. Atualmente, temos mais de 400 colaboradores. Tenho uma expectativa de que através do trabalho poderei ajudar a sociedade como um todo e, principalmente, no setor em que atuo, gerando emprego, renda e soluções sustentáveis para contribuir com o futuro das novas gerações.

Revista Canavieiros: Recentemente você foi empossada como presidente do Ceise Br. Como foi recebida na entidade?

Rosana: Iniciei minha trajetória no Ceise Br em 2017 como diretora financeira, onde fui muito bem recebida por todos daquela gestão. No dia 18 de outubro de 2022, fui eleita presidente por aclamação, juntamente com os membros que compuseram a chapa denominada “Juntos Somos Mais”. Aproveito a oportunidade para cumprimentar e agradecer o apoio que tenho recebido de cada um, desde o início. Irei presidir o mandato durante o biênio 2023/2024 e tenho a honra de ser a primeira mulher a ocupar a presidência do Ceise Br, representando a força feminina que tem ampliado muito seu espaço de atuação.

Revista Canavieiros: O que significa estar à frente de uma entidade como Ceise Br sendo a primeira mulher em mais de quatro de existência?

Rosana: Significa uma grande e emblemática oportunidade. Depois de mais de 40 anos de existência, o Ceise Br vem moldando, junto à própria cidade onde está sediado, uma trajetória de amplo desenvolvimento, graças não só a economia regional, mas também ao conhecimento e visão dos diretores que passaram pela entidade. A forma de atuação político-institucional do Ceise Br, tanto no mercado interno como também no externo, objetiva alavancar e ampliar os negócios, estimulando o desenvolvimento tecnológico e criando um ambiente próprio para as práticas permanentes de sustentabilidade social e ambiental. Tudo isso me faz sentir um enorme orgulho da nossa entidade porque está totalmente alinhada com minhas crenças e valores pessoais e meu propósito de vida.

Revista Canavieiros: Quais estão sendo suas prioridades frente à entidade?

Rosana: Nossas metas consistem em ampliar e fortalecer as parcerias existentes, aumentar o quadro de associados e, consequentemente, a representatividade do Ceise Br no cenário nacional. Desejamos trabalhar para atender às indústrias, buscando soluções e mitigando obstáculos que possam impactar no bom êxito dos negócios. Neste início de ano, por exemplo, já realizamos eventos focados na avaliação da economia em função das mudanças de governos no Brasil e os aspectos internacionais que afetam a economia nacional. Também estamos atentos às questões tributárias. Realizamos encontro com empresários com palestra sobre negociações de débitos tributários junto a Fazenda Nacional e, ainda neste sentido, criamos um comitê permanente para discussão da reforma tributária, onde o Ceise Br apresentará sua pauta em razão da realidade das indústrias de base metalmecânicas. É nosso dever, como entidade, difundir os interesses dos associados.

Revista Canavieiros: O que julga ser um desafio neste cargo?

Rosana: A principal missão do Ceise Br é o fomento de negócios para seus associados, através de ações que visam a melhora contínua do ambiente empresarial e aí, julgo ser o grande desafio porque dependemos de ações de responsabilidade política e de segurança jurídica. Neste sentido, nosso maior trabalho será fazer valer a voz da nossa indústria com muita articulação com os novos governos e entidades que atuam no segmento. Teremos que nos organizar e posicionar fortemente nas causas que mais afetam as empresas. Sinto que o fato de ser mulher não será um impeditivo para que tenhamos acesso e condições de pontuar e realizar ações que contribuam para que este mercado cresça ainda mais. Um bom exemplo que posso citar é, um dos destaques do Brasil na COP 27, o RenovaBio, programa que completou cinco anos e que estamos esperançosos que nossos governantes tenham sabedoria e não desidratem a Lei 13.576/17, que o instituiu. Esperamos que este ano, o RenovaBio tenha o devido apoio e continue seguindo forte com as diretrizes do programa e os motivos pelos quais ele foi elaborado. Por isso, também será um bom desafio, nossa atuação na proposta de que este programa tenha regras que obriguem as unidades produtoras de biocombustíveis, destinar um percentual fixo do recebimento da comercialização de CBios, com investimento nas melhorias de perfomance ou ampliação das plantas produtoras, garantindo um volume importante de negócios com as indústrias de fabricação de bens de capital sob encomenda do setor.

Revista Canavieiros: Considerando o quadro de associados do Ceise Br, como você avalia a participação das mulheres neste segmento?

Rosana: É notório o crescimento feminino na participação societária nas empresas associadas. Vemos também um crescimento importante nos cargos de liderança, seja na área da gestão administrativa ou de relações humanas, como também nas linhas de produção, no chão de fábrica e no desenvolvimento de novas tecnologias. É claro, também, que o percentual ainda não é equivalente à masculina, o que demonstra que ainda há um campo de oportunidades muito grande a ser preenchido por nós mulheres. Na história do Ceise Br, algumas mulheres foram pioneiras como: Maria Aparecida Zeferino Marcolino, Maria Conceição Ferreita Turini, Maria Lúcia Daniel Jorge, e de lá para cá tivemos outras na diretoria. Atualmente, estamos em quatro nesta gestão e continuamos valorizando e ampliando a presença das mulheres em nossa entidade.

Revista Canavieiros: A presença da mulher em cargos de liderança é um fato indiscutível e irreversível?

Rosana: Com certeza. Academicamente falando, para as organizações, o planejamento estratégico permite realizar uma análise do ambiente externo, definir e projetar cenários futuros, possibilitando o crescimento e a sustentabilidade organizacional. Nesse contexto, as mulheres estão adaptadas com a questão de serem multitarefas com: carreira profissional, lar, filhos, família e vida social, atuando com gestão mais humanizada e, além disso, com os conceitos de ESG que vieram para ficar, tornando a presença da mulher indiscutível e irreversível em favor das gerações que estão por vir.

Revista Canavieiros: A Fenasucro & Agrocana, importante feira para o setor de bioenergia, irá acontecer em agosto, e o Ceise Br é um dos grandes incentivadores desse evento. Qual sua expectativa como presidente do Ceise Br?

Rosana: Minha expectativa é que teremos grande sucesso. As vendas proporcionais estão maiores do que as do ano passado. Inclusive, convoco a todos para que se engajem, uma vez que é extremamente importante para nossas empresas: indústrias, prestação de serviços, administração pública, rede hoteleira e gastronômica e comércio, envidem esforços para que tenhamos em 2023 uma Fenasucro & Agrocana ainda maior do que a do ano passado, que foi uma feira de retomada após o complicado período de pandemia. Nossa feira é uma vitrine de oportunidades para o setor de bioenergia mundial. Vamos trabalhar com muita dedicação para ampliar estes mercados e, em parceria com a RX Brasil, demonstrar que temos o maior evento do mundo neste segmento.

Revista Canavieiros: Como você vê o atual momento do país e da indústria?

Rosana: Com relação ao atual momento do país, esperamos que nossos governantes possam aproveitar as oportunidades que ora se apresentam para estabelecer uma nova dinâmica para o crescimento. Nossas indústrias necessitam de ações responsáveis como a reforma tributária que defina uma carga justa e suportável, que possibilite a competitividade da indústria brasileira. É preciso continuidade na reforma trabalhista que garanta os direitos dos trabalhadores, mas que desonere as empresas, possibilitando que as organizações suportem seus encargos. É urgente que se tenham linhas de financiamentos condizentes com a realidade das empresas e que sejam atrativas ao investimento produtivo. O estado brasileiro precisa eliminar os entraves que o impedem de atuar e, ao mesmo tempo, combater os fatores de incertezas. A sigla VUCA (em inglês) define bem esta conjuntura atual: Volatility; Uncertainty; Complexity; Ambiguity (Volatilidade; Incerteza; Complexidade; Ambiguidade). Avaliando o cenário dos últimos anos, podemos perceber que a indústria brasileira mostrou grande capacidade de resiliência, comprovando que o setor produtivo apresenta elevada performance, resultado do uso de boas práticas de gestão, recursos humanos de qualidade e capacitação para a inovação. Podemos dizer, sem medo de errar, que não existe país forte, país rico, sem uma indústria grande e forte por trás. Naturalmente, a indústria foi impactada pelas crises globais, que vêm marcando o cenário mundial desde 2020, com a pandemia e o conflito entre Rússia e Ucrânia. Para fazer frente à essa conjuntura, nos últimos anos a indústria também vem se caracterizando por processos de mudanças estruturais relacionados às novas tecnologias de produtos e processos organizacionais, visando à produção mais limpa e focada na sustentabilidade ambiental. “A melhor maneira de prever o futuro é criá-lo!”. Esse pensamento de Peter Ducker se aplica sob medida ao momento atual.

Revista Canavieiros: Tudo indica que a safra 22/23 será mais otimista tanto do ponto de vista de preços que estão retraindo quanto de aumento de produtividade. O que isso significa para o Ceise Br?

Rosana: Dados da consultoria Datagro mostram que teremos crescimento na quantidade de cana processada e também na produção de açúcar. Pela estimativa da consultoria, a moagem de cana-de-açúcar na região Centro-Sul deve chegar a 590 milhões de toneladas na safra 2023/24, volume 6,9% superior ao de 2022/23.Em relação à produção de açúcar, projeta-se 38,30 milhões de toneladas para a região, que, caso se confirme, representaria crescimento de 13,1% ante a temporada anterior. As projeções apontam para uma produção de etanol estimada em 30,96 bilhões de litros, aumento de 5,9% ante 2022/23 – 11,70 bi de litros de anidro (+3,5%) e 19,26 bi de litros de hidratado (+7,5%). Para o Norte e Nordeste, a Datagro projeta 58 mi de toneladas de cana na safra 2023/24, alta de 3,6% ante 2022/23. A produção de açúcar está prevista em 3,45 mi de toneladas (+6,2%); a de etanol em 2,2 bi de litros. Maior produção, maior fomento aos negócios industriais. Significa que nesse período, nossa atuação seguirá ainda mais forte na busca de garantir um melhor ambiente de negócios para nossos associados. Também estaremos atentos às novas oportunidades de crescimento, caminhando sempre em parceria com as demais entidades do nosso segmento. Na nova economia, a união é fundamental.