atendimento@revistacanavieiros.com.br (16) 3946-3300

ATR produzido à base de confiança

26/12/2019 Cana-de-Açúcar POR: Marino Guerra
ATR produzido à base de confiança

Como continuar sendo fornecedor mesmo distante da lavoura

Até então, o caminho natural das fazendas de cana que não conseguiram fazer uma sucessão era fechar uma parceria com algum produtor próximo ou com a própria unidade industrial.

E esse negócio de forma alguma pode ser identificado como ruim, principalmente se observados os altos valores praticados a partir deste século nas regiões com alta concorrência por cana, formada pela presença de mais de duas unidades industriais.

Contudo, é obvio que no caso de parceria, quem for produzir na terra estará preocupado em retirar o máximo possível dela, relacionando ao tempo de contrato, não se atentando para a manutenção de um solo de qualidade, das outras benfeitorias da propriedade (como barracão e sede) e também deixando sem cuidados as reservas de mata, que podem gerar multas salgadas em caso de incêndios.

Outro ponto a ser considerado é que quando a operação canavieira é feita com eficiência, seu resultado final é maior que o valor recebido através do simples aluguel da terra.

Diante desta conjuntura, o filho de produtor rural e médico em Marília, dr. Antonio Luiz Tocalino Walter Porto, decidiu andar na contramão. Mesmo longe, tirou a fazenda herdada de seu pai, localizada em Terra Roxa-SP, do conforto da parceria e voltou a ter o título de fornecedor de cana.

O agrônomo da Canaoeste de Viradouro, Antônio Leandro Pagotto; o engenheiro-agrônomo e gestor da fazenda São João e Capela, Matheus Conceição Mateus, e sua esposa, a engenheira ambiental e também colaboradora, Bruna Aparecida Genari Mateus

No início, foi feito um trabalho de construção de infraestrutura e aquisição de máquinas, e implantada uma nova lavoura, mas ainda faltava algo para que a rentabilidade da operação deslanchasse. Foi quando, em 2018, o engenheiro-agrônomo Matheus Conceição Mateus foi contratado para administrar a fazenda, iniciando uma profunda mudança de manejos, pensando muito além da produtividade e colocando no mesmo grau de importância, a rentabilidade.

Seu trabalho começou em janeiro e ele conta que encontrou um canavial que exigia um foco no combate às plantas daninhas. “Havia alta infestação de capim-colonião, capim-amargoso, mucuna e corda-de-viola”, disse Mateus.

Em relação a esse manejo pouco pode ser feito, pois a cana já estava grande, fazendo com que o trabalho se iniciasse efetivamente após a colheita, em junho. A primeira atitude foi realizar a aplicação de herbicida em pré-brotação (da daninha e cultura) em área total, e foi colocado na mistura o clomazone, com o objetivo de pegar o colonião e o amargoso, e o hexazinone, tendo como meta iniciar o combate à infestação de folhas largas.

Antes do corte de soqueira foi executada a correção de solo (calcário e gesso), e na hora do manejo o controle ao sphenophorus utilizando o Regent Duo e um mix de micronutrientes com destaque ao zinco e boro, pois foi apresentada uma deficiência destes minerais através de análise de solo.

Após a emergência, foram feitas duas catações químicas através do uso do Volcane, produto à base de MSMA para dar uma “paulada”, com mais uma dose de hexazinone, para travar o desenvolvimento das folhas estreitas, principalmente.

Nesta fase do manejo, percebendo que o serviço não estava rendendo, o agrônomo reuniu sua equipe para desenvolver uma solução, quando surgiu a ideia que se fizesse uma adaptação num implemento velho encostado no barracão.

E assim foi feito, adaptando duas cadeiras (uma de cada lado) no chassi de uma plantadora de grãos, de forma a serem acopladas na frente do trator. Com a instalação de uma bomba de pulverização, os aplicadores que estão fazendo a catação não precisam nem se levantar para alcançar o alvo, conseguindo trabalhar numa área média de 20 alqueires por dia.

Catação química executada através de um implemento criado na própria capaz de trabalhar 20 alqueires por dia

Com o canavial já formado, ele aplicou 2,4 D para secar os cipós, em especial a mucuna, junto com os defensivos de controle para a cigarrinha e a broca.

Somente com esse trabalho, o resultado passou de 32,7 mil toneladas na safra 17/18, para 36 mil na 18/19.

A reforma do canavial também ganhou um upgrade em seu manejo, já iniciando pela correção do solo com metade do cálcio enterrada numa profundidade de 45 cm através do uso do arado aiveca e o restante na superfície do solo, numa segunda aplicação junto com a dose completa do gesso.

Desta maneira, basta fazer a segunda passagem da grade para o terreno estar pronto para o plantio da soja como rotação de cultura, serviço executado pelo time da propriedade.

Colhida a soja, é chegada a hora do plantio de cana, e para isso, em primeiro lugar, Mateus estuda a área em busca da pressão de invasoras e, dependendo como for o diagnóstico, desseca a palha do grão com uma aplicação em área total do glifosato.

Vale lembrar que a partir do plantio deste ano, 100% da área de reforma foi feita a meiosi, o que, consequentemente, mostra que todo o plantio será em área sistematizada e com as linhas guiadas via piloto automático, através da tecnologia do GPS.

Carreador limpo: desde que assumiu a gestão da propriedade, Mateus diminuiu em cerca de 80% a pressão de plantas invasoras

Com as mudas adquiridas no viveiro da Copercana/Canaoeste (Fazenda Santa Rita) ele formou as linhas mães duplas e calculou uma taxa de desdobramento de 1:8, sendo as duas principais variedades utilizadas a IACSP95-5094 - o que parece óbvio principalmente pela sua velocidade de rebrota e porte ereto -, e a RB 975242 por ser uma cultivar mais rústica, voltada para os solos mais pobres.

Com a área estabilizada, para a próxima safra será iniciado o teste para o uso de adubação líquida e a execução do manejo integrado (químicos e biológicos) de inseticida.

Diante de todo este trabalho, o qual tanto o proprietário como o administrador reconhecem a importância da Canaoeste e da Copercana como parceiras fundamentais do sucesso, foram entregues nesta safra 40 mil toneladas na usina.

Mas a produtividade não é apenas um número isolado. Quando observada a infestação de folhas largas, a redução é de mais de 80%, e ainda como aditivo, já que em sua formação Mateus tem MBA em Gestão, os resultados vêm acompanhados de rentabilidade. Um exemplo é que no tratamento acima, ao optar por herbicidas de custo médio, a sua economia de aplicação foi de 124 hectares se comparado com o que seria desembolsado caso escolhesse os produtos mais caros.

Para fechar o pacote de benefícios, além da eficiência nos 500 hectares da propriedade, a fazenda ainda consegue prestar diversos serviços para áreas vizinhas numa média que dobra o tamanho da propriedade, fazendo com que o ativo imobilizado na compra de máquinas e equipamentos seja diluído em mais uma fonte de renda.

Antes de fechar o texto, só mais um detalhe: além de todo o serviço, também está sendo realizado um trabalho de revitalização da sede e de sua área ao entorno, deixando-a mais próxima possível dos tempos em que o dr. Porto era criança e ia para a propriedade em companhia do pai.

Depois de tudo isso, será que há alguma possiblidade do proprietário fechar um novo contrato de parceria envolvendo sua fazenda? É o profissionalismo e a eficiência produzindo muito mais que toneladas de açúcar por hectare. Que o exemplo seja seguido.

Matheus, Bruna, dr. Porto e Dante Lanza dos Santos (Biosev) - relacionamento entre proprietário e administrador precisa ser sincronizado para o projeto dar certo