atendimento@revistacanavieiros.com.br (16) 3946-3300

Cana: algo mais do que açúcar

23/08/2012 Cana-de-Açúcar POR: Granna
Num contexto marcado, em escala mundial, pelo impacto duma crise que abrange desde a área econômica, a produção e distribuição de alimentos, a energia e até o meio ambiente, o aproveitamento da cana-de-açúcar se ratifica como uma alternativa sustentável, para mitigar essa situação.
O Grupo Açucareiro está acelerando um dos programas de maior impacto neste sentido: a construção de usinas bioelétricas, em usinas açucareiras selecionadas, devido ao crescimento da cana e à fiabilidade industrial.
Uma usina bioelétrica é uma termoelétrica em pequena escala, cujo combustível não fóssil não afeta o meio ambiente, neste caso, é a biomassa da cana. Essas plantas, que operam com maior pressão de vapor e eficiência que as usinas açucareiras atuais, podem gerar eletricidade até 290 dias num ano. E na projeção estratégica até 2020, estima-se que com estas tecnologias na indústria açucareira não sejam emitidos uns três milhões de toneladas de dióxido de carbono anuais. Tais projetos, desenvolvidos pelo Grupo Açucareiro, são feitos em parceria com os Ministérios da Agricultura e da Indústria de Base.
Com as Mãos e a mente na biomassa
"Poderia parecer excessivo %4 comenta o doutor em Ciências Federico Sulroca Domínguez, especialista superior em Produção de Cana-de-açúcar, do Grupo Açucareiro %4, mas os benefícios dessa cultura ultrapassam grandemente os níveis de utilização dados atualmente, inclusive em nosso país".
A cana-de-açúcar constitui um alimento, sem esquecer os derivados obtidos dela (açúcar, fermento, álcool e outros subprodutos). Também se utiliza na dieta dos animais, sobretudo em períodos de seca, alternando com o "king grass" (Pennisetum purpureum x Pennisetum typhoides), amoreira branca, moringa oleifera e suplementos.
"Do ponto de vista ambiental, diminui os níveis de dióxido de carbono na atmosfera, mediante a fixação biológica; fornece nutrientes e matéria orgânica, ineludíveis na conservação do solo. E ao anterior se somam suas potencialidades na produção de energia", abundou o especialista.
A partir da cana-de-açúcar pode se obter o biodiesel, que possui a vantagem de substituir o petróleo em motores de tipo diesel, tanto de forma parcial como total, e sem efetuar modificações técnicas a esses dispositivos. Igualmente, faz diminuir as emissões de monóxido de carbono e hidrocarbonetos voláteis, e no caso das de dióxido de carbono, as reduz entre 25% e 80%.
Da mesma maneira, a biomassa da cana-de-açúcar é capaz de produzir bioetanol, o qual é obtido pela fermentação natural do açúcar contida, utilizado como combustível renovável e ecológico. Também, é de grande utilidade na elaboração de bebidas e licores, e noutros processos industriais. Substituindo os combustíveis fósseis, tem a propriedade de ser oxigenante, ou seja, que reduz a emissão de gases poluentes para a atmosfera.
"Por outro lado, a biomassa da cana-de-açúcar processada para a fabricação de açúcar é reutilizável, ao ser usada na produção de biogás", explicou Sulroca. Para ter medida de sua repercussão, é necessário conhecer que um metro cúbico de biogás é capaz de substituir, como combustível, meio quilo de óleo diesel, similar quantidade de diesel, quase um litro de gasolina, um litro de álcool, meio quilo de butano, 1,5 metro cúbico de gás liquefeito de petróleo e 3,6 quilos de carvão vegetal.
O biogás pode ser usado para cozinhar, iluminar, operar maquinarias agrícolas, bombear água e gerar energia térmica e eletricidade. Razão pela que continuar desenvolvendo a usina especializada do Grupo, instalada em Villa Clara e com capacidade para 13.500 metros cúbicos, demanda algo mais que boas intenções, levando em conta a possibilidade deste biocombustível de mitigar aproximadamente 47 mil toneladas de dióxido de carbono anuais.
Além dos mencionados usos e propriedades, este tipo de biomassa permite a cogeração de energia elétrica (processo que em nível internacional data de 1926), com o que nossas usinas podem satisfazer seu consumo de eletricidade. E de fato, fazem isso em boa medida, embora algumas usinas fiquem por baixo dos planos. A energia térmica é obtida nas usinas gerando vapor em caldeiras que empregam como combustível a biomassa da cana-de-açúcar, ou seja, o bagaço e as folhas da planta.
Do ideal ao real: o que nos deixou a passada safra?
Segundo informou ao Granma a especialista de Análise do Grupo, Osiris Quintero López, na moenda de 2011-2012 os 46 usinas que fizeram safra conseguiram gerar cerca de 540 mil megawatt/hora e entregaram ao Sistema Eletroenergético Nacional (SEN) um excedente elétrico suficiente para abastecer mais de 576.500 moradias, durante um mês, em relação com a média nacional de consumo do setor residencial.
"Para uma usina balanceada energeticamente, comenta a chefa de Geração Elétrica do Grupo Açucareiro, Bárbara Hernández Martínez, basta com o bagaço para gerar toda a eletricidade necessária na fabricação de açúcar e produzir um excedente, capaz de contribuir com energia em períodos de paragens e reinício, assim como entregar energia à rede pública, porque todas as usinas estão sincronizadas ao SEN, e possuem uma infraestrutura agrícola e industrial distribuída em todo o arquipélago", afirmou.
Contudo, o potencial é superior aos resultados, que ainda são discretos, se levamos em conta que a indústria opera com baixa pressão de vapor, cujo índice de geração mais eficiente por cada tonelada de cana-de-açúcar moída não ultrapassa os 40 kilowatt por hora. A tecnologia para fazê-lo também é ineficiente, fundamentalmente, na contribuição que se realiza durante a etapa fora de safra.
Aumentar o aproveitamento da biomassa da cana-de-açúcar, requer de ações e medidas encaminhadas a recuperar a disciplina no campo e na indústria. A isso se acrescenta a necessidade de equipamento em inúmeras usinas e na fase agrícola. Caso conseguirmos maiores rendimentos por hectare e os parâmetros industriais exigidos, não só o plano de açúcar resultaria beneficiado, também o seria a geração de energia a partir desta fonte.
O contraditório neste assunto radica em que os conhecimentos e o capital humano existem, mas apesar disso não se conseguiu aproveitar os benefícios da cana, num país com vastíssima cultura e tradição agroindustrial no processamento e cultura dessa planta.
Hoje dependemos de altas importações de petróleo como combustível para diversos processos produtivos, e ao redor de 93% da geração de eletricidade se realiza a partir desse combustível fóssil. A vulnerabilidade energética nunca antes esteve tão "dobrando a esquina".
É preciso "investir" esforços e atenção para que se elevem os quilowatts dados pela biomassa da cana-de-açúcar %4 assim como por outras fontes que substituam o uso do "ouro preto" %4, se quisermos dar energia à sustentabilidade econômica.
Sheyla Delgado Guerra