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Cana vai além do etanol e do açúcar Empresas inauguram novas fábricas no País

10/10/2012 Cana-de-Açúcar POR: Bloomberg News para O Estado de S.Paulo
Grandes grupos do agronegócio que atuam no Brasil, como a Bunge e o Grupo São Martinho, apostam cada vez mais na transformação da cana-de-açúcar em substâncias químicas usadas como ingredientes de produtos que vão dos cremes de beleza a lubrificantes industriais.

Uma joint venture entre a Bunge e a companhia americana de biotecnologia Solazyme começará, no fim do próximo ano, a produzir óleos a partir do açúcar. A produtora de cana de açúcar Paraíso Bioenergia inaugurará a primeira fábrica no Brasil até o fim do ano, em associação com a americana Amyris, para a produção de matérias-primas, como um substituto do óleo de fígado de bacalhau usado em loções. O Grupo São Martinho e a ETH Bioenergia planejam construir fábricas semelhantes nos próximos dois anos.

Em razão do ceticismo de alguns investidores globais, a conversão de produtos agrícolas em substâncias químicas renováveis está se tornando um negócio mais atraente no Brasil desde que o preço do açúcar caíram 13% no ano passado, e o do etanol despencou 12%. A Amyris teve uma desvalorização de 74% este ano, depois do atraso da construção da fábrica do Grupo São Martinho, e em razão da preocupação de que os seus projetos não atinjam a escala necessária para dar lucro. A Solazyme, por sua vez, perdeu 12%.

"Trata-se de uma oportunidade incrível para as usinas de cana-de-açúcar, se a tecnologia for correta", disse Steven Slome, consultor da companhia Nexant, de gerenciamento e pesquisa de energia. As companhias "poderão faturar o dobro com a mesma matéria-prima", disse.

O Grupo São Martinho e a Paraíso Bioenergia adotaram sistemas da Amyris em fábricas que usarão micróbios projetados para transformar a sacarose, o principal ingrediente da cana, em farneseno, um composto que pode ser processado numa variedade de produtos químicos especiais. A tecnologia da Solazyme utiliza algas geneticamente modificadas, que se alimentam de açúcar em tanques de fermentação, para produzir óleos especialmente destinados à fabricação de substâncias químicas específicas.

A Cosan S/A, que controla a maior processadora de cana-de-açúcar do mundo com a Royal Dutch Shell, e a Guarani, da Tereos Internacional, estudam a possibilidade de criar sociedades semelhantes, informou a companhia de biotecnologia em 2009.

Tecnologia. Embora o mercado para estes produtos químicos seja reduzido, as companhias apostam que a tecnologia incipiente deslanchará no Brasil por causa do seu clima quente, da abundância de usinas de cana e da demanda por produtos químicos. O Brasil é o maior produtor de cana-de-açúcar do mundo.

Os produtos químicos renováveis feitos da cana concorrerão com produtos derivados do petróleo que chegam a ser vendidos a um preço superior a US$ 20 o litro, em comparação com cerca de US$ 0,50 o litro do etanol, disse Slome.

"Em relação aos antigos negócios com commodities, este é muito melhor para nós", disse Dario Costa Gaeta, presidente da Paraíso Bioenergia. "Nosso objetivo é dobrar as margens" de açúcar e etanol, disse.

As vendas líquidas da indústria química brasileira mais que dobraram, para US$ 158,5 bilhões no ano passado, em comparação com US$ 72,3 bilhões em 2005, segundo a Associação da Indústria Química Brasileira, sediada em São Paulo.

As ações da Amyris despencaram para uma baixa recorde em maio, depois que atrasou a construção da fábrica com o Grupo São Martinho, e registrou prejuízos maiores do que os previstos pelos analistas. A Amyris "não foi clara na descrição dos problemas técnicos que a companhia enfrenta", afirmou Pavel Molchanov, analista da Raymond James & Associates. "Existe um risco relacionado a todo aumento da fermentação".

O Grupo São Martinho constituiu a sociedade com a Amyris em abril de 2010. O CEO da companhia de biotecnologia, John Melo, disse que ela chegará a produzir 100 milhões de litros de farneseno ao ano.

Esse projeto foi adiado enquanto a Amyris se concentrava em sua sociedade com a Paraíso Bioenergia, informou numa entrevista o presidente do Grupo São Martinho, Fábio Venturelli, que trabalhou para a Dow Chemical por 22 anos. O desenvolvimento poderá ser retomado em julho e poderá levar 18 meses para ser concluído.

A Solazyme, sediada em South San Francisco, Califórnia, pretende inaugurar uma fábrica de US$ 145 milhões em uma usina de cana da Bunge, no fim do ano que vem, para produzir 100 mil toneladas ao ano do seu óleo de algas, informou Miguel Oliveira, diretor executivo da Bunge da área de inovação global.

A Solazyme prevê atingir margens brutas de 30% ou mais, segundo o diretor financeiro Tyler Painter. O óleo de algas contém ácido láurico, com base no qual são fabricados detergentes, e substitui o óleo de palmiste, que é vendido a US$ 1.800 a tonelada, disse Oliveira. O mercado interno deste óleo poderá alcançar as 400 mil toneladas anuais, acrescentou o executivo.

Outras companhia de biotecnologia, como LS9, Green Biologies e Cobalt Technologies, também planejam constituir sociedades para a fabricação de produtos químicos usando a cana-de-açúcar no Brasil. A petroquímica Braskem já produz uma matéria-prima para a fabricação de plásticos usando a cana numa fábrica no Rio Grande do Sul.

As plantações de cana-de-açúcar no Brasil produziram, em média, 79 toneladas métricas por hectare em 2010, em comparação com cerca de 70 toneladas na Índia, a segunda maior produtora mundial, e dos EUA, informou em seu site a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO).

"O Brasil, com matéria-prima de baixo custo, se revela um terreno de testes para a biotecnologia", diz Steven Slome, consultor da Nexant. "Se não tivermos sucesso com custos do Brasil, não teremos em nenhum outro lugar."

Tradução de Anna Capovilla