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Como adubar cana-de-açúcar com goiaba

27/12/2019 Agricultura POR: Marino Guerra
Como adubar cana-de-açúcar com goiaba Goiaba de mesa vale cinco vezes mais que fruto destinado à industrialização

Modelo de integração entre culturas dá rentabilidade para pequena propriedade

Uma das principais discussões no mundo canavieiro da atualidade é como o pequeno produtor irá sobreviver na atividade num cenário que já pede, e exigirá cada vez mais, ganhos escalonados de produção através de uma reação química que tem como elementos a adoção assertiva de tecnologias e a redução de custos.

Nessa conjuntura, uma das saídas é pensar numa estratégia de integração, de forma que não demande muita quantidade de área e que gere valor para o ganho de margem. Assim, muitos já adotaram projetos bem-sucedidos ao desenvolverem operações voltadas à criação animal como confinamento de gado e piscicultura.

Outro segmento que vem atraindo a atenção dos produtores rurais é a produção de frutas, principalmente as consideradas de “mesa” devido ao seu alto valor agregado.

Um exemplo de sucesso dessa operação conjunta está numa propriedade localizada em Taiúva-SP, comandada por Aimar Francisco Ferrari Pedrini Júnior, e que tem como braço direito o profissional Ivair de Jesus Berci.

De uma maneira bastante superficial, na propriedade, através da rentabilidade de um alqueire de goiaba e meio de poncã (ambas de mesa) é possível pagar os custos de, aproximadamente, 20 alqueires (50 hectares) de cana-de-açúcar. Isso permite deixar, como sobra, todo o faturamento dos canaviais, que é direcionado para um fundo e retorna em investimentos.

O profissional Ivair de Jesus Berci, ao lado do engenheiro agrônomo da Canaoeste, Felipe Volpe. Integração entre fruticultura e cana-de-açúcar tem grandes chances de ser bem-sucedida, contudo, necessita de profissionais experientes e com muita vontade de trabalhar

Na operação goiabeira são cultivadas quatro variedades que, ao todo, formam um plantel com cerca de 1,2 mil pés. A variedade Pedro Sato, com cem árvores na propriedade, produz a fruta que todos conhecem e é encontrada em fundos de quintal, chácaras e pomares de sítios. Ela tem a polpa bastante vermelha e é muito adocicada. Contudo, em decorrência da sua alta sensibilidade às condições de tempo, ao ataque de pragas e às doenças, que prejudicam principalmente o seu visual, o produtor tem como estratégia substituí-la por cultivares mais adaptadas aos seus objetivos, como a Cortibel.

Desenvolvida no Espírito Santo, ela tem como principais diferenciais o tempo de prateleira (as outras espécies duram, em média, sete dias depois da colheita e a Cortibel pode ser consumida em até 15 dias) e também o fato de não exalar o cheiro forte característico da fruta, o que agrega muito valor quando a mesa é o seu destino. Na propriedade foram plantados 200 pés que ainda não deram a primeira colheita, porém, as expectativas são as melhores possíveis.

A rainha do pomar é a Tailandesa. Com cerca de 700 pés cultivados, ela gera um fruto que praticamente tem como único destino as mesas, isso porque como sua polpa é mais clara, não se enquadra nos padrões industriais. Outra característica é sua alta resistência ao ataque de pragas, fazendo com que mais unidades fiquem intactas para irem até as gôndolas dos supermercados.

O último tipo de goiabeira encontrada é a Século 21. Tendo bons frutos, ela foi praticamente a variedade pioneira a partir do surgimento deste novo mercado. No entanto, as outras duas espécies mais novas vêm ganhando espaço, pois no pomar onde já foram cultivados mais de 300 pés da Século 21, hoje são apenas 150.

Um ledo engano aos produtores que já estão aquecendo as mãos e pensando em formar um pomar e faturar alto com a cultura sem ter muito trabalho e, principalmente, experiência.

Para se ter ideia da complexidade, seu manejo básico consiste em ralear as plantas quando estão com dois meses de vida e, ao completar meio ano, é preciso executar a primeira poda,  isso porque a intenção é que a planta foque sua energia, neste momento, em se desenvolver e em abrir lateralmente  os seus galhos.

Variedade Pedro Sato tem a casca mais clara e é preferida para a industrialização. Já a Tailandesa é destinada ao mercado de “mesa”

A primeira colheita vem um ano após o plantio e depois da retirada dos frutos é feita uma nova poda. Passado quarenta dias, é realizada uma desbrota, deixando nos galhos somente os brotos que têm potencial para dar o fruto. Após mais 50 dias, a goiabeira é "raleada", fazendo com que fique no galho somente três frutos, já que o mercado exige peças grandes e o objetivo deixa de ser a quantidade.

Todo o ciclo acontece a cada sete meses, e como já notado na descrição acima, o processo exige um conhecimento específico significativo. “A poda, a desdobra e o processo de ralear exigem experiência muito grande, pois algum procedimento, se malfeito, pode gerar queda de produção no ciclo seguinte. Também é preciso ter muito cuidado na colheita, pois como o visual do nosso produto tem que ser perfeito, há uma técnica para não machucá-lo”, conta Berci.

O processo de adubação também é manual, no qual é aplicada uma mistura de NPK na proporção 8-28-16 a cada 40 dias e "no pé" de cada árvore. Duas vezes ao mês é aplicado um mix de adubos foliares numa mistura com fungicida (utilizado de maneira preventiva) e inseticida.

Todas as plantas recebem irrigação que é feita através de gotejamento quando elas estão em processo de desenvolvimento, e utilizada a microaspersão no pé da árvore quando elas passam a produzir.

Esse trabalho é recompensado quando o assunto passa a ser a remuneração da atividade. Para se ter ideia, o valor médio do quilo da goiaba para a indústria é cerca de R$ 0,25, enquanto que para o fruto de mesa o valor sobe para R$ 1,25.

Também é válido ressaltar que o fornecimento das frutas é realizado para um mesmo cliente, que distribui para uma rede de supermercados e possui box no Ceasa. Essa parceria, que funciona tão bem, já incentivou o produtor a investir no plantio de duzentos pés de abacate geada, deixando claro um ponto importante na atividade: a rentabilidade não vem do tipo de fruta que é cultivada, mas de sua qualidade aliada com o encontro de um comprador que a valorize.

Com o objetivo de produzir frutos maiores, ficam apenas três goiabas por galho

Variedade Cortibel recém-plantada: a primeira colheita vem após um ano. Ainda é válido ressaltar que essa cultivar foi desenvolvida no Espírito Santo com diferenciais importantes como maior tempo de prateleira e fruto com pouco cheiro característico

Saber fazer a desbrota correta é fundamental para ter os melhores frutos na colheita

Logo após colher os frutos, é realizada uma poda na planta

Árvore próxima do momento ideal de colheita

Produtor também tem uma operação de poncã e planeja iniciar a plantação de abacate, provando que o segredo não é o tipo de fruta, mas aliar qualidade com compradores que a valorize