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Consórcio de micro-organismos como estratégia para aumentar a produtividade da soja

29/07/2020 Artigos Técnicos POR: * Denizart Bolonhezi

Nos últimos 59 anos (entre 1960 e 2018), a produção global de soja cresceu 1.202% (passando de 27 para 348 Mt – milhões de toneladas), sendo o Brasil o segundo maior produtor, com produção superior a 115 milhões de toneladas, produzidas em mais de 35 milhões de ha. O IAC introduziu a soja no Estado de São Paulo em 1891 através da seleção de cultivar destinada para alimentação animal. Durante 46 anos, nunca a soja ultrapassou 600 mil hectares de cultivo em terras paulistas, entretanto verificou-se crescimento de 45% na área cultivada nos últimos quatro anos, ultrapassando 1,0 milhão de hectares na safra 2019/2020. Observa-se que esse crescimento tem ocorrido principalmente em reforma de canaviais, como alternativa econômica para os fornecedores de cana e muitas usinas em tempos de dificuldade do setor sucroenergético. Todavia, esse novo período de parcerias no sistema cana x soja vem acompanhado de novas tecnologias que conferem aumentos expressivos no potencial produtivo, com destaque ao uso de transgenia e insumos mais eficientes. Entre a safra 2008/09 e 2016/17, a produtividade nacional aumentou de 43.1 sc/ha para 56 sc/ha. Entretanto, frequentemente o aumento da produtividade está acompanhado do aumento nos custos de produção, atualmente acima de 45 sc/ha. O desafio atual é aumentar os tetos de produtividade, porém não impactar o ambiente e não reduzir margens de lucro.

A soja tem tradição de uso de produtos biológicos, evidenciado pela FBN no tratamento de sementes ou aplicados no sulco, bem como o uso de inseticidas biológicos já consagrados no manejo integrado de pragas. Nessa nova onda, tem predominado o uso de biopesticidas e da técnica conhecida como coinoculação. A coinoculação consiste na mistura do Bradyrhizobium sp. com Azospyrilum sp. (FBN para gramíneas) na proporção de doses em média 5:1. Essa técnica tem proporcionado ganhos médios de 7 sc/ha na produtividade de grãos, principalmente quando a mistura é aplicada diretamente no sulco por ocasião da semeadura. Contudo, há uma infinidade de micro-organismos benéficos que poderiam ser empregados, isoladamente ou em consórcios na cultura da soja, com vistas a melhorar a performance agronômica.

O uso de consórcios de micro-organismos pode ser uma alternativa, na medida que promovem alterações benéficas no solo e nas plantas. Embora já existam resultados de pesquisa e validações comerciais para diversas culturas, ainda são incipientes os resultados gerados para a cultura da soja quanto ao uso desses consórcios aplicados na fase vegetativa. Por conseguinte, pesquisa preliminar foi conduzida para as condições edafoclimáticas de Ribeirão Preto/SP, com objetivos de estudar o efeito da aplicação de consórcios de micro-organismos entre os estágios de desenvolvimento V3 e V5 na cultivar de soja NS 6700 IPRO.

A cultivar NS 6700 IPRO foi semeada (12/12/2020) em Latossolo Vermelho eutroférrico, textura argilosa, em gleba com histórico de cultivo de leguminosas adubos verdes durante quatro anos, seguida de dois cultivos de soja (Figura 01). As sementes foram tratadas com a mistura de inseticida (CropStar), fungicida (Derosal Plus) e coinoculação. Os valores de saturação por bases (V%), fósforo e potássio na camada de 0-20 cm eram respectivamente; 70.3 %, 50 mg/dm3 e 8.2 mmolc/dm3. A adubação utilizada forneceu 12, 90 e 30 kg ha-1 de N, P2O5 e K2O. Utilizou-se delineamento experimental blocos casualizados com 8 repetições no campo, sendo os seguintes tratamentos testados; T1-Testemunha, T2-SoloVivo, T3-SoloGrão e T4-SoloPrêmio. A colheita foi efetuada no dia 26/03/2020, quando as plantas encontravam-se no estágio R7/8, com umidade dos grãos ao redor de 11%.

Verifica-se nos gráficos da Figura 2, que todos os consórcios de micro-organismos proporcionaram aumento na biomassa seca da parte aérea e no número de vagens por planta, na amostragem realizada aos 90 dias após a emergência, embora sem acusar diferença estatística. É importante mencionar que não houve diferença entre os tratamentos quanto ao estande inicial e final de plantas, indicando que os contrastes observados não foram influenciados pela população.

Por outro lado, o tratamento SoloPrêmio proporcionou aumento significativo de 13% na produtividade de grãos (Figura 3). Isso equivale a um ganho de nove sacas por hectare, quando se aplicou o consórcio de micro-organismos (SoloPrêmio) nos estágios V3 e V5. Considerando que o ensaio foi conduzido em área com alta fertilidade, que a distribuição de chuva foi acima da média para região e que todos os tratamentos receberam o mesmo fornecimento de fertilizantes e inoculantes, pode-se concluir que a diferença em produtividade foi decorrente dos produtos testados. Pode-se inferir que, em condições adversas (solos de baixa fertilidade) e regiões com risco de veranicos, a resposta tenderá a ser de maior magnitude. Em futuras pesquisas com esses consórcios de micro-organismos, será importante estudar a interação com genótipos e a resposta do seu fornecimento no sulco de semeadura em condição de palhada.

Figura 01. Vista do porte da cultivar utilizada (esquerda) e visual das parcelas na colheita (direita)

Figura 02. Biomassa seca (t/ha) e número de vagens por planta da cultivar de soja NS 6700 IPRO aos 90 dias após a semeadura, quando submetida à aplicação de consórcio de micro-organismos nos estágios V3 e V5. Média de 05 repetições. Ribeirão Preto, SP. Safra 2019/2020

Figura 03. Produtividade de grãos (kg/ha) da cultivar NS 6700 IPRO submetida a diferentes consórcios de micro-organismos aplicados no estágio V3 e V5. Teste F (3,2*) e C.V.(9.6%), letras indicam diferença estatística pelo teste de Tukey (5%). Ribeirão Preto, SP. Safra 2019/2020

* Denizart Bolonhezi é eng.o agr.o, doutor e pesquisador científico do Centro Avançado de Pesquisa em Cana/IAC/APTA, e bolsista do CNPQ – Desenvolvimento e Inovação Tecnológica