atendimento@revistacanavieiros.com.br (16) 3946-3300

Consumo do Hidratado é Recorde

20/06/2019 Colunista POR: Revista Canavieiros
*Marcos Fava Neves


Reflexões dos Fatos e Números do Agro


  • Um fato novo neste mês foi a forte desvalorização do real, puxada por fatores externos e internos. A elevação da temperatura nas relações comerciais entre a China e os EUA derrubou as bolsas pelo mundo e trouxe mais incertezas na manutenção do crescimento global e, aqui dentro, a dificuldade de se caminhar com as reformas aliadas às trapalhadas de comunicação do governo e pouco diálogo.
  • O acordo entre China e EUA neste mês ficou um pouco mais distante, devido às trocas de farpas e aumento da lista de produtos com novas tarifas de importação. Isto vem sendo muito prejudicial aos produtores dos EUA, mas o governo deve disponibilizar US$ 15 bilhões em ajuda aos produtores rurais devido ao problema com a China.
  • Segue muito bem a nossa safra. Como estávamos na torcida, o clima ajudou e a safrinha de milho chegará a 69 milhões de t, 30% maior que no ano passado. Com isso teremos 95,3 milhões de t de milho no total (18% a mais). A Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) inclusive aumentou em 1 milhão a estimativa comparada à ultima, e esta quantidade derrubou os preços em 20% com relação à safra passada. Na Bolsa de Chicago, os preços do milho caíram quase 10% em 12 meses. Cerca de 31 milhões de t serão exportadas e internamente consumidas 62,5 milhões de t.
  • Pela Conab teremos 236,7 milhões de t, aumentando 1,4 milhão no número de abril e no total, 4% superior à produção de 2017/18. De soja produziremos 4,2% a menos que o ano passado, ou seja, 114,3 milhões de t e exportaremos 68 milhões de t em 2019/20, 2 milhões a menos que no anterior. O arroz deve cair 12,2%, ficando em 10,6 milhões de t.
  • Segundo o Mapa (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento), o Valor Bruto da Produção de 2019 será de 597,8 bilhões, crescimento de R$ 9 bilhões sobre a projeção feita em abril e 1,4% maior que o valor de 2018, mesmo com a queda de 12,7% no valor total da soja. O valor do milho ficará 17,3% acima, algodão 17,1% e laranja 15,1%. Cairão o café (21%) e o trigo (4,4%). Na pecuária, o VBP será de R$ 199,4 bilhões, R$ 3 bilhões a mais que a última previsão e também 3% acima de 2018.
  • Em abril nossas exportações do agro caíram 2,4% quando comparadas a abril de 2018, totalizando US$ 8,6 bilhões (47,6% de tudo que foi vendido pelo Brasil). As importações caíram 12% indo para US$ 1,1 bilhão, deixando então um saldo de US$ 7,5 bilhões. Os volumes vendidos cresceram 1,2%, mas os preços caíram 6%.
  • Nos primeiros quatro meses do ano exportamos US$ 30,42 bilhões, 0,2% a mais que os US$ 30,35 bilhões no mesmo período de 2018. Conseguimos vender 5,9% a mais de produtos, pois os preços em geral caíram 5,4%. As importações caíram de US$ 4,91 bilhões para US$ 4,79 bilhões.
  • As cinco cadeias líderes das exportações, que representam 80% do total vendido, nos quatro primeiros meses deste ano foram: soja (37,9%); produtos florestais (15,8%); carnes (15,3%); café (5,7%) e os cereais, farinhas e preparações (5,1%). As vendas de soja foram de US$ 11,52 bilhões (0,6% a menos) e apenas de grãos foram embarcadas 26,3 milhões de t (12% a mais), pena que o preço médio foi 8% menor. De papel e celulose trouxemos US$ 4,82 bilhões (3,7% a mais), com preços 5,8% maiores. Nas carnes também crescemos 3%, chegando a US$ 4,64 bilhões, puxadas pelo frango com US$ 2,08 bilhões (quantidade cresceu 0,6% e preço médio 4,2%), na sequência a carne bovina com US$ 2,01 bilhões (+3,2%) e a carne suína com US$ 414,12 milhões (+3,8%). O café trouxe nestes quatro meses US$ 1,75 bilhão (+7,2%), com crescimento de 32% na quantidade, 722,5 mil t vendidas, e forte queda de preços, de 17,4%. Finalmente, os cereais, farinhas e preparações tiveram 43% de crescimento, trazendo US$ 1,55 bilhão, sendo US$ 1,23 bilhão (+54,8%) para o milho, com quase 7 milhões de t vendidas (+40,9%). Vendemos para a Ásia US$ 14,92 bilhões, 4% a mais, e isto já representa praticamente 50% das nossas exportações, seguida pelo Oriente Médio, que tem 8,3% do total.
  • Enfim, neste mês para o agro tivemos estabilidade de preços das principais commodities e agora acompanhamos o plantio da safra nos EUA, que está bem atrasado; os impactos da gripe suína africana na China, o acordo comercial China e EUA e o andamento das reformas no Brasil e as pressões no câmbio.
 
Reflexões dos Fatos e Números da Cana
  • Segundo a Unica (União da Indústria de Cana-de-Açúcar), a moagem em abril foi de 45,42 milho?es de t, uma reduc?a?o de 24,50% comparada ao ano anterior e com um mix de praticamente 71,5% para o etanol. Esta moagem produziu 1,37 milhão de t de ac?u?car (-38,90%), 392,70 milho?es de l de etanol anidro (-32,60%) e 1,83 bilhão de l de etanol hidratado (-15,57%). Vale ressaltar que 100 milhões de l de etanol vieram do milho.
  • A qualidade da cana no acumulado desta safra está 3,65% pior que a safra passada.
  • A Cosan fechou a safra 2018/19 com moagem de 59,7 milhões de t de cana, e alocação de 52% do mix para etanol. Esperam para esta safra entre 61 milhões a 63 milhões de t.
  • Começamos atrasados com a moagem.
 
Reflexões dos Fatos e Números do Açúcar
  • A FCStone acredita que a produção de açúcar em 2019/20 será 1,9% menor, totalizando 182,2 milhões de t e a demanda será 1% maior, de 187,9 milhões de t. Com isto, teremos um déficit de 5,7 milhões de t. A consultoria espera produções menores na Índia (28,6 m.t. ou 13% menor devido a menos chuvas) e Tailândia (13,5 m.t, 9% menor devido ao plantio de outras culturas). Acredita em produção de 27,8 m.t. no Brasil (9% maior). Os EUA devem produzir 8,5 m.t. (3,5% a mais), Europa 17 m.t. (0,6% menor). Para a safra 2018/19, estima ainda um déficit de 300 mil t. Os estoques serão de quase 80 m.t. (praticamente 43% do consumo). Abaixaram o mix açucareiro no Brasil para 37,1% (era 40 na primeira estimativa), devido aos preços 35% maiores do petróleo.
  • Segundo a F.O. Licht, o déficit no ciclo internacional 2019/20 será de 1,7 milhão de t e nesta safra um superávit de 400 mil. A produção total em 19/20 cairia 1,2 milhão de t,  ficando ao redor de 185,1 milhões de t. Deve cair na Tailândia e na Índia, além do Brasil.
  • Nesta safra 2018/19, a Índia superou todos os recordes e afundou os preços do açúcar. Deve produzir 33 milhões de t, aumentando estoques para 14,7 milhões de t (38% maior) e inundando o mercado internacional com 3 milhões de t nesta safra, principalmente para Bangladesh, Irã, Sri Lanka e Somália.
  • Os números da Archer Consulting indicam que cerca de 11,35 milhões de t da safra 2019/2020 estão já fixadas a um preço médio de R$ 1.164 por tonelada FOB, com prêmio de polarização. Isto representaria 54% do total a ser exportado (ano passado estava em 52,7%).
  • Segue muito ruim a situação do açúcar.
Reflexões dos Fatos e Números do Etanol e Energia em Maio
  • Em março, pela ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis), o consumo de combustíveis no Brasil caiu 4%, puxado pelo diesel com 5,6%, a gasolina com 14,1% e o etanol foi o único que aumentou, chegando a 27,4%. Mesmo assim, no primeiro trimestre tivemos alta de 1,7% no consumo de combustíveis, puxados pelo etanol hidratado, que cresceu quase 34% no período.
  • As vendas de etanol em abril foram de 2,5 bilhões de l (1,83 bilhão de hidratado e 666,61 milhões de anidro), sendo que as do hidratado estão 36% maiores e os níveis de estoques estão bem mais baixos (50% do que existia) que neste período na safra passada.
  • A FCStone projeta agora para o etanol a produção de 29,1 bilhões de l em 2019/20, 1,5 bilhão a mais que a sua última previsão. A safra de cana será de 574 milhões de t.
  • A Archer Consulting estima que a gasolina no mercado brasileiro ainda está defasada do preço internacional em 6 a 8%. Com esta recente desvalorização do real, seus preços devem continuar ajudando o hidratado a ter vendas recordes.
  • Uma fala do presidente Bolsonaro reaqueceu o debate da venda direta de hidratado das usinas aos postos. De um lado, argumentos que trarão mais competição e simplicidade ao sistema e, de outro, a questão de escala, tributação de PIS e COFINS e sonegação.
Qual seria a minha estratégia com base nos fatos?
 
  • O que observar agora em junho: O setor só não afunda neste ano de uma vez graças aos preços do petróleo e ao câmbio que deixa a gasolina mais cara. Esses fatos, somados às chuvas que incidiram nos canaviais e atrasaram o início de safra, fez bombar o consumo do hidratado, como antecipei aqui há três meses. Esta é a torcida, que o consumo continue forte e que o Brasil consiga tirar, quem sabe outra vez, quase 10 milhões de t do mercado mundial de açúcar. 
 
Homenageado do Mês
 
- Desta vez nossa singela homenagem vai ao amigo Allan Wayne Gray, da Universidade de Purdue, Indiana (EUA), que aqui permaneceu por quase um ano contribuindo com a USP, com a Markestrat e, juntos, escrevemos um novo livro sobre Planejamento Estratégico. Foi o primeiro norte-americano que a FEA-RP (Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto - USP) recebeu e que deu um curso de pós totalmente em inglês. Escreveu comigo o caso da Copersucar, em 2013, e é entusiasta da cana.
 
*Marcos Fava Neves é professor Titular (em tempo parcial) das Faculdades de Administração da USP em Ribeirão Preto e da FGV em São Paulo, especialista em Planejamento Estratégico do agronegócio