http://https://conferences.datagro.com/
http://www.fmcagricola.com.br/index.aspx
http://icminc.com/corporate/contact-us-corporate.html
http://www.ideaonline.com.br/conteudo/21-seminario-de-mecanizacao-e-producao-de-cana-de-acucar.html
http://https://www.fenasucro.com.br/
http://www.forumabisolo.com/
http://site.orplana.com.br/pages/caminhos-da-cana-2017/
http://www.rossam.com.br/index.html

Ameaças Aumentam com Queda do Preço do Petróleo

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Colunista

12/12/2018
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Reflexões dos Fatos e Números do Agro

Começamos nosso planejamento com as últimas projeções do Boletim Focus: inflação de 2018 agora em ligeira redução para confortáveis 4,13% e a do ano que vem manteve em 4,20%. O PIB deste ano chegaria a 1,36% e o do ano que vem crescimento de 2,50%. Para a taxa de câmbio, o valor em dezembro seria de R$/US$ 3,70 neste ano e R$/US$ 3,76 para 2019 e finalmente a taxa Selic para estes dois anos seria de 6,50% e 8,00%, respectivamente. No geral melhoramos os indicadores em relação ao mês passado, provavelmente com crescimento da confiança e anúncio inicial da equipe do Presidente Bolsonaro.

Poucas alterações na segunda estimativa da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) para a safra 2018/19. Para os grãos espera-se algo entre 233,7 a 238,3 milhões de toneladas (2,5 a 4,5% a mais), numa a?rea plantada entre 61,9 e 63,1 milho?es de hectares (0,3% a 2,2% maior). Em soja podemos colher entre 116,8 milhões e 119,3 milhões de toneladas, plantadas em cerca de 36 milhões de hectares. No milho, a Conab estima que produziremos algo no intervalo entre 90 a 91 milhões de toneladas, plantados em 16,7 milhões de hectares. No limite superior podemos bater o recorde histórico de produção de grãos, torcer para o clima ajudar e teremos esta boa notícia.

As exportações do agro em outubro cresceram 5,7% em relação ao mesmo mês de 2017 e chegaram a US$ 8,48 bilhões, deixando um saldo de US$ 7,3 bilhões. Fortes aumentos na cadeia da soja (quase 80% a mais, cerca de US$ 2,62 bilhões), com incríveis 5,35 milhões de toneladas (115% a mais) exportadas nos grãos, que trouxeram renda 125% maior (US$ 2,11 bilhões). As carnes caíram 5%, mesmo com o recorde de vendas mensais de carne bovina (136.000 toneladas). Produtos florestais outra vez surpreenderam, com 10,2% a mais. Entre janeiro a outubro chegamos a US$ 85,14 bilhões no total exportado e um saldo de US$ 73,42 bilhões. Como ainda faltam dois meses, a menos que ocorra algum desastre, as exportações devem passar dos US$ 100 bilhões pela primeira vez na história do Brasil. Precisamos buscar US$ 14,86 bilhões nos dois meses que faltam.

Foram 30 dias sem boas novidades nos preços das principais commodities exportadas pelo Brasil. O índice da FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação) para os preços das commodities mostrou queda de 0,9% em outubro e está 7,4% menor que na mesma época do ano passado. A queda neste mês foi puxada por carnes, óleos e lácteos. O índice vem caindo desde maio. No caso dos cereais, subiu 2,2% e os preços estão 9% acima do ano passado, valores em dólar.

Mas as margens para nossos produtores de cereais podem ser mais complicadas na safra 2018/19. Em momento importante de compras de insumos, o câmbio esteve acima de 4 reais, o que os encareceu. Se o câmbio permanecer nos valores de R$ 3,70 durante a safra, quem também não vendeu nada dos produtos ao câmbio de R$ 4,20 (lembrando que aqui nesta coluna recomendei fortemente a venda) terá um descasamento. A consultoria Céleres estima margens 27% menores. Segundo o Rabobank, gastos com fertilizantes foram de 15 a 35% maiores e com defensivos, cerca de 20%. As chuvas frequentes também podem trazer maior necessidade de controles e investimentos em defensivos. A menos que tenhamos valorização de preços, o que aparentemente não ocorrerá caso as safras se comportem bem, virá um período de mais aperto, apesar dos preços em reais permitirem margens aos bons produtores.

Surpreendeu o último relatório do USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos), que derrubou a expectativa de compras de soja pela China em 9 milhões de toneladas na safra 2018/19, vindo de 94 para 85 m.t.. Os argumentos são a guerra comercial com os EUA, casos de peste suína africana que podem diminuir a demanda de soja para rações e política de vendas de estoques. Os prêmios da soja em Paranaguá estiveram agora em novembro em US$ 2,20 a mais que o valor do bushel negociado na bolsa de Chicago, mas os de entrega em março caem para apenas US$ 0,90. Temos agora que prestar atenção nas conversas entre EUA e China para ver o que acontece no mercado de grãos e do agro. Por enquanto, imprevisível.

Entre os estudos relevantes divulgados no mês que pude acompanhar, vale destacar 3. O primeiro fala sobre o mercado de terras, feito no Agrianual da FNP, onde esperam-se mais negócios e aquecimento para 2019 com expectativa de aprovação de reformas e melhoria do ambiente de negócios, além da possibilidade de aquisição de terras por estrangeiros.

O segundo, feito pela BCG (Boston Consulting Group), aborda as consequências do tabelamento de fretes: aumento de preços e perda de competitividade, compra de frotas próprias com aumento da ociosidade, além das especificidades dos fretes, que uma tabela tem dificuldades de contemplar, tais como: presença do frete de retorno, condições das rodovias, tempos gastos para carregamento/descarregamento, produtividade, e as diferenciações por qualidade/idade do caminhão. A BCG conclui que o tabelamento é muito mais negativo que positivo, por ser complexo, trazer distorções e maior ociosidade de ativos. Aumenta a ineficiência do setor. Todos estes fatores antecipei aqui nos textos deste ano.

Finalmente, no terceiro estudo, algo para pensarmos... uma ameaça de longo prazo ao agro brasileiro é sua distância em relação aos grandes compradores e a venda de produtos com grandes volumes aos preços de commodities. É a conclusão de um estudo feito pela Coppe/UFRJ ao ICS (Instituto Clima e Sociedade). Preocupa a posição de maior proximidade de nossos concorrentes destes mercados compradores destes produtos, pois as emissões para o transporte desde o Brasil em alguns casos chega a ser 3 vezes maior, além do custo do combustível e frete. Este é um ponto a ser estudado com o aumento da pressão feita na e pela IMO (Organização Marítima Internacional) visando reduzir emissões via eficiência energética, uso de biocombustíveis ou mesmo tributação. Já há uma meta para reduzir 50% das emissões de CO2 até 2050 em navios. A mensagem aqui é a de prestar atenção nestes movimentos e seguir buscando vender produtos com menor volume e maior valor, onde o peso do frete seja mais diluído.

Concluo com um sentimento recente de satisfação com os novos rumos do Brasil. O Presidente Bolsonaro vem indicando quadros de perfil técnico e sinto nas pessoas uma sensação maior de civismo e vontade de fazer a diferença. Isto é uma grande mudança em relação à sensação anterior de não ver futuro pela frente. Este otimismo pode ajudar na aceleração da economia, do consumo criando mais oportunidades e aumentando a sensação de bem-estar.
 
Reflexões dos Fatos e Números da Cana

Segundo a Unica (União da Indústria do Açúcar), já processamos, até o dia 1º de novembro, 508 milhões de toneladas de cana (4,35% abaixo do ciclo anterior). O mix está em 64,13% para etanol, sendo que na última quinzena chegou a quase 70%. Em açúcar foram produzidas 24,35 milhões de toneladas (26,7% a menos) e de etanol 27,26 bilhões de litros (20,29% a mais), sendo 46% a mais a produção de hidratado. Na segunda quinzena de outubro processamos quase 18% a menos, fruto já de pouca cana disponível neste final de safra e das chuvas. Devemos fechar a safra com 560 milhões de toneladas processadas, queda de 6,4% em relação as 596 da safra anterior. Muitas unidades encerrando as atividades a partir de agora. Entressafra mais longa!

Pelo levantamento do CTC, o ATR/tonelada no mês de outubro foi de 133,96 kg/ton, e o acumulado está em 140,13 (1,73% maior). O rendimento apurado pelo CTC foi de apenas 60,22 t/ha em setembro, contra 66,5 t/ha na safra anterior. Na safra temos 74,45 t/ha contra 77,62 t/ha da anterior, uma queda de 4,1%, esperada pela seca que castigou os canaviais no começo deste ciclo.

A Datagro espera para 2018/19 uma safra no Centro-Sul de 558,78 milhões de toneladas, com produção de 30,4 bilhões de litros de etanol vindos de cana e milho e 26,4 milhões de toneladas de açúcar.

Nas notícias de empresas, destaque para a Atvos, que moeu 25 m.t. de cana em 2017/18 e deve fechar 2018/19 com crescimento de pelo menos 10%, chegando a 28 m.t..

A São Martinho anunciou lucro líquido 10,4% maior, de R$ 58,5 milhões no segundo trimestre desta safra, graças a redução do endividamento e melhoria do perfil da dívida e operações de câmbio. A receita líquida caiu 12,6% e o Ebitda também recuou em 19,1%, para R$ 316,2 milhões com margem Ebitda de 49,1%. Parte destes números é explicado pela política de estocagem de produtos que no trimestre, aumentou o endividamento, mas deve melhorar bem no quarto trimestre com a venda de estoques.

De acordo com o Itaú BBA, na safra 2017/18 a dívida média foi de R$ 117/tonelada de cana, contra R$ 120 na safra anterior. O endividamento médio é de 2,8 vezes na relação dívida líquida sobre o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda). Grande trabalho de corte de custos tem sido feito. Investimentos devem ser mais fortes na recuperação de canaviais e em cogeração nesta próxima safra.

Em relação ao médio prazo, a EPE (Empresa de Pesquisa Energética) estima que em 2027 produziremos 45 bilhões de litros de etanol (32 bilhões de hidratado, 12 bilhões de anidro e o restante de importações, sendo que deste total produzido no Brasil, 2 bilhões seriam de milho), quase 50% a mais que o atual. Os investimentos necessários para esta expansão seriam de R$ 25 bilhões, sendo R$ 16 bilhões para novas unidades e R$ 9 bilhões em expansão das atuais. Em produção e área agrícola, a EPE estima que teremos 837 milhões de toneladas (31,6% a mais) sendo produzidas em 9,9 milhões de hectares (14% a mais que os 8,7 milhões de hectares no último ano) com produtividade de 85 t/ha bem acima das atuais 72,5 t/ha. No açúcar a estimativa é de crescimento de 16%, para 44 m. t.. Caso o RenovaBio não seja implementado, os números são bem mais modestos: iríamos para 33 bilhões de litros advindos de 729 m. t. de cana no Brasil.

Finalizando a parte de cana, os meses de outubro e novembro chuvosos estão dando bom tratamento aos canaviais e melhorando as estimativas para 2019/2020. Se continuar bem distribuída e em bom volume até março, pode ser um alento. Segundo a Unica a idade média dos canaviais do Centro-Sul é de 3,6 anos. O ideal seria de 3,2 anos.
 
Reflexões dos Fatos e Números do Açúcar

No açúcar nossa recuperação de preços perdeu força e estes recuaram novamente. Chegou a 14,20 cents/libra peso no final de outubro e mergulhou outra vez para 12,60 cents. É intrigante esta queda, pois foram notícias boas vindas da relação oferta e demanda. A Archer justifica principalmente como movimento dos fundos, além da queda dos preços do petróleo (20% em um mês) e a valorização do real.

A OIA (Organização Internacional do Açúcar) em sua nova estimativa derrubou o superávit esperado para a safra 2018/19 de 6,75 m.t. para 2,2 m.t.. A produção total deve ser de 180,488 m.t.. Tanto Brasil (31,8 m.t.) quanto Índia (32 m.t.), União Europeia (17,9 m.t.) e Paquistão tiveram quedas nas estimativas. O consumo global deve crescer 1,65% (a média de dez anos foi de 1,67%) chegando a 178,316 m.t.. Os estoques serão de 93,363 m.t., e a relação estoque/consumo cai para 52%. O superávit da safra 2017/18 também caiu praticamente 1,32 m.t. agora em 7,28 m.t. Números começam a melhorar para nós.

Há sinais de queda na safra indiana devido à menor produtividade por seca e presença de larvas brancas. Novas estimativas trazem a safra de 32,5 m.t. para 30 m.t. Lembremos que chegou a ser estimada em 35,5 m.t.

Nova estimativa da Datagro para 2018/19 ampliou o déficit de 715 mil toneladas para 1,58 milhão de toneladas. E na safra seguinte (2019/20) um déficit de 7,52 m.t..

Exportações de açúcar em outubro foram de 1,934 m.t. (bruto e refinado), quase 33% a menos que outubro de 2017 e 25% a menos que o mês de setembro deste ano. Já em valores, vendeu-se US$ 828,8 milhões (15% a mais que setembro mas 20% a menos que outubro de 2017). Desde janeiro as exportações são de 18,679 m.t., 24% a menos que em 2017 com receita de US$ 5,80 bilhões, um tombo de 41,5% sobre as exportações de US$ 9,910 bilhões realizadas até este momento em 2017.

Segundo a Archer, com dados de 30 de setembro de 2018, cerca de 4,16 m.t. de açúcar da safra 2019/20 já estavam fixados a um valor médio de 12.94 centavos de dólar por libra-peso (sem prêmio de polarização), ou R$ 1,159.54 por tonelada equivalente FOB Santos (já com o prêmio de pol). A empresa estima que os custos de produção da saca de açúcar (50 kg) posto usina das melhores do Brasil está entre R$ 40,89 e R$ 45,39. Isto se situa num intervalo entre 11,50 e 12,55 cents por libra-peso FOB Santos. Mas no Brasil para boa parte do setor e no mundo, os preços do açúcar são prejuízo puro, e se este fosse um mercado livre e sem proteções, teria ajuste de oferta em breve.

Pelo Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada - Esalq/USP) a saca de 50 kg do açúcar cristal teve queda de 0,02%, indo para R$ 66,32.

Ou seja, neste mês onde apostei em subida de preços, acertei até o final de outubro, mas desceram novamente, mesmo com a maioria de boas notícias. Meu viés ainda é de alta.
 
Reflexões dos Fatos e Números do Etanol e Energia

Em setembro, o consumo de combustíveis voltou a cair em 2,5% na comparação com o ano anterior, pela ANP. No ano a queda é de 0,5%. O diesel caiu 1,6% no mês, mas no ano tem alta de 1,2%. A gasolina caiu 17,3% no mês e teve seu menor consumo desde julho de 2011. No ano caiu 13,5%, já o hidratado cresceu 37,2% em setembro e 41,3% no acumulado de 2018. Na segunda quinzena de outubro usinas do Centro-Sul venderam 1,07 bilhão de litros de hidratado, 26,5% a mais que a mesma quinzena de 2017. E no mês de outubro as vendas foram 33,6% maiores, chegando a 2,02 bilhões de litros, estimulada pela paridade média de 63%.

Surpreenderam as exportações de etanol, que cresceram 82,3% em outubro, atingindo 278,7 milhões de litros, quando comparadas a outubro de 2017 e foram também 58% maiores que setembro. Estas trouxeram US$ 139,6 milhões em outubro (58% a mais que outubro de 2017 e 65% maiores que setembro). Desde janeiro já vendemos 1,444 bilhão de litros (18,5% a mais), com valor de US$ 769,5 milhões (11,1% maiores que 2017).

Segundo o Mapa (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento), o estoque de etanol (dados de 30/09) era de quase 11 bilhões de litros, 29% a mais que em 2017. Grandes grupos foram os que apresentaram maiores crescimentos nos estoques, chegando em alguns casos a quase 80% a mais de produto nos tanques.

O risco agora é o preço da gasolina cair e prejudicar o consumo de hidratado. Já houve queda de quase 16% nos últimos 30 dias nas refinarias. Mesmo assim, para a maioria dos grupos, os preços médios de venda de etanol estão entre 5 a 10% maiores que na safra anterior. Mas ainda existe margem para queda das gasolina pois em muitos locais a paridade está em 60%.

Temos algumas outras boas notícias, a saber: mais pessoas se acostumaram a usar o hidratado nesta fase de paridade favorável; teremos neste ano mais 2,4 milhões de carros vendidos no Brasil, sendo mais de 85% flex e; as distribuidoras de combustíveis já esperam melhoras de consumo para o último trimestre do ano.
 
Finalizando... qual seria a minha estratégia com base nos fatos?

Onde eu arriscaria agora em novembro/dezembro: O consumo do hidratado nos próximos quatro  a cinco meses é a uma das principais variáveis a serem observadas, bem como o volume de estoques, uma vez que teremos uma entressafra mais longa. Vai interferir neste consumo uma possível retomada da economia bem como a paridade, trazida pelos preços da gasolina. Resta saber se a queda do preço do petróleo continua, pois isto afetaria o consumo de hidratado e o mix da próxima safra, sendo impactos negativos aos preços. Aparentemente desde o dia 14/11 parou de cair e iniciou recuperação, a se observar.
 
Quem é o homenageado do mês?

Todos os meses temos um grande homenageado aqui neste espaço e desta vez nossa singela homenagem vai ao amigo e engenheiro agrônomo Samuel Ribeiro Giordano, um dos responsáveis pelo Pensa (Programa de Agronegócios da USP) e grande militante das causas do agronegócio, sempre contribuindo com suas análises do setor.
 

Haja Limão


No Brasil acontece o seguinte, explicando numa simples analogia com um condomínio: 
"A turma que paga o condomínio cansou um pouco da turma que não paga o condomínio, da turma que rouba o condomínio e da turma empregada no condomínio. E a estratégia bem simples é esta: assumir a gestão do condomínio, reduzir o grande grupo empregado no condomínio, vender algumas partes do condomínio, diminuir ao máximo o roubo ao condomínio e criar oportunidades para aqueles que não pagam, passarem a pagar o condomínio. Mais adiante, pelos ganhos de eficiência, reduzir a taxa do condomínio." Prof. Dr. Marcos Fava Neves
 
*Marcos Fava Neves é Professor Titular (em tempo parcial) das Faculdades de Administração da USP em Ribeirão Preto e da FGV em São Paulo, especialista em planejamento estratégico do agronegócio.
 
 
 

Fonte: Ameaças Aumentam com Queda do Preço do Petróleo

Ameaças Aumentam com Queda do Preço do Petróleo

12/12/2018

Reflexões dos Fatos e Números do Agro

Começamos nosso planejamento com as últimas projeções do Boletim Focus: inflação de 2018 agora em ligeira redução para confortáveis 4,13% e a do ano que vem manteve em 4,20%. O PIB deste ano chegaria a 1,36% e o do ano que vem crescimento de 2,50%. Para a taxa de câmbio, o valor em dezembro seria de R$/US$ 3,70 neste ano e R$/US$ 3,76 para 2019 e finalmente a taxa Selic para estes dois anos seria de 6,50% e 8,00%, respectivamente. No geral melhoramos os indicadores em relação ao mês passado, provavelmente com crescimento da confiança e anúncio inicial da equipe do Presidente Bolsonaro.

Poucas alterações na segunda estimativa da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) para a safra 2018/19. Para os grãos espera-se algo entre 233,7 a 238,3 milhões de toneladas (2,5 a 4,5% a mais), numa a?rea plantada entre 61,9 e 63,1 milho?es de hectares (0,3% a 2,2% maior). Em soja podemos colher entre 116,8 milhões e 119,3 milhões de toneladas, plantadas em cerca de 36 milhões de hectares. No milho, a Conab estima que produziremos algo no intervalo entre 90 a 91 milhões de toneladas, plantados em 16,7 milhões de hectares. No limite superior podemos bater o recorde histórico de produção de grãos, torcer para o clima ajudar e teremos esta boa notícia.

As exportações do agro em outubro cresceram 5,7% em relação ao mesmo mês de 2017 e chegaram a US$ 8,48 bilhões, deixando um saldo de US$ 7,3 bilhões. Fortes aumentos na cadeia da soja (quase 80% a mais, cerca de US$ 2,62 bilhões), com incríveis 5,35 milhões de toneladas (115% a mais) exportadas nos grãos, que trouxeram renda 125% maior (US$ 2,11 bilhões). As carnes caíram 5%, mesmo com o recorde de vendas mensais de carne bovina (136.000 toneladas). Produtos florestais outra vez surpreenderam, com 10,2% a mais. Entre janeiro a outubro chegamos a US$ 85,14 bilhões no total exportado e um saldo de US$ 73,42 bilhões. Como ainda faltam dois meses, a menos que ocorra algum desastre, as exportações devem passar dos US$ 100 bilhões pela primeira vez na história do Brasil. Precisamos buscar US$ 14,86 bilhões nos dois meses que faltam.

Foram 30 dias sem boas novidades nos preços das principais commodities exportadas pelo Brasil. O índice da FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação) para os preços das commodities mostrou queda de 0,9% em outubro e está 7,4% menor que na mesma época do ano passado. A queda neste mês foi puxada por carnes, óleos e lácteos. O índice vem caindo desde maio. No caso dos cereais, subiu 2,2% e os preços estão 9% acima do ano passado, valores em dólar.

Mas as margens para nossos produtores de cereais podem ser mais complicadas na safra 2018/19. Em momento importante de compras de insumos, o câmbio esteve acima de 4 reais, o que os encareceu. Se o câmbio permanecer nos valores de R$ 3,70 durante a safra, quem também não vendeu nada dos produtos ao câmbio de R$ 4,20 (lembrando que aqui nesta coluna recomendei fortemente a venda) terá um descasamento. A consultoria Céleres estima margens 27% menores. Segundo o Rabobank, gastos com fertilizantes foram de 15 a 35% maiores e com defensivos, cerca de 20%. As chuvas frequentes também podem trazer maior necessidade de controles e investimentos em defensivos. A menos que tenhamos valorização de preços, o que aparentemente não ocorrerá caso as safras se comportem bem, virá um período de mais aperto, apesar dos preços em reais permitirem margens aos bons produtores.

Surpreendeu o último relatório do USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos), que derrubou a expectativa de compras de soja pela China em 9 milhões de toneladas na safra 2018/19, vindo de 94 para 85 m.t.. Os argumentos são a guerra comercial com os EUA, casos de peste suína africana que podem diminuir a demanda de soja para rações e política de vendas de estoques. Os prêmios da soja em Paranaguá estiveram agora em novembro em US$ 2,20 a mais que o valor do bushel negociado na bolsa de Chicago, mas os de entrega em março caem para apenas US$ 0,90. Temos agora que prestar atenção nas conversas entre EUA e China para ver o que acontece no mercado de grãos e do agro. Por enquanto, imprevisível.

Entre os estudos relevantes divulgados no mês que pude acompanhar, vale destacar 3. O primeiro fala sobre o mercado de terras, feito no Agrianual da FNP, onde esperam-se mais negócios e aquecimento para 2019 com expectativa de aprovação de reformas e melhoria do ambiente de negócios, além da possibilidade de aquisição de terras por estrangeiros.

O segundo, feito pela BCG (Boston Consulting Group), aborda as consequências do tabelamento de fretes: aumento de preços e perda de competitividade, compra de frotas próprias com aumento da ociosidade, além das especificidades dos fretes, que uma tabela tem dificuldades de contemplar, tais como: presença do frete de retorno, condições das rodovias, tempos gastos para carregamento/descarregamento, produtividade, e as diferenciações por qualidade/idade do caminhão. A BCG conclui que o tabelamento é muito mais negativo que positivo, por ser complexo, trazer distorções e maior ociosidade de ativos. Aumenta a ineficiência do setor. Todos estes fatores antecipei aqui nos textos deste ano.

Finalmente, no terceiro estudo, algo para pensarmos... uma ameaça de longo prazo ao agro brasileiro é sua distância em relação aos grandes compradores e a venda de produtos com grandes volumes aos preços de commodities. É a conclusão de um estudo feito pela Coppe/UFRJ ao ICS (Instituto Clima e Sociedade). Preocupa a posição de maior proximidade de nossos concorrentes destes mercados compradores destes produtos, pois as emissões para o transporte desde o Brasil em alguns casos chega a ser 3 vezes maior, além do custo do combustível e frete. Este é um ponto a ser estudado com o aumento da pressão feita na e pela IMO (Organização Marítima Internacional) visando reduzir emissões via eficiência energética, uso de biocombustíveis ou mesmo tributação. Já há uma meta para reduzir 50% das emissões de CO2 até 2050 em navios. A mensagem aqui é a de prestar atenção nestes movimentos e seguir buscando vender produtos com menor volume e maior valor, onde o peso do frete seja mais diluído.

Concluo com um sentimento recente de satisfação com os novos rumos do Brasil. O Presidente Bolsonaro vem indicando quadros de perfil técnico e sinto nas pessoas uma sensação maior de civismo e vontade de fazer a diferença. Isto é uma grande mudança em relação à sensação anterior de não ver futuro pela frente. Este otimismo pode ajudar na aceleração da economia, do consumo criando mais oportunidades e aumentando a sensação de bem-estar.
 
Reflexões dos Fatos e Números da Cana

Segundo a Unica (União da Indústria do Açúcar), já processamos, até o dia 1º de novembro, 508 milhões de toneladas de cana (4,35% abaixo do ciclo anterior). O mix está em 64,13% para etanol, sendo que na última quinzena chegou a quase 70%. Em açúcar foram produzidas 24,35 milhões de toneladas (26,7% a menos) e de etanol 27,26 bilhões de litros (20,29% a mais), sendo 46% a mais a produção de hidratado. Na segunda quinzena de outubro processamos quase 18% a menos, fruto já de pouca cana disponível neste final de safra e das chuvas. Devemos fechar a safra com 560 milhões de toneladas processadas, queda de 6,4% em relação as 596 da safra anterior. Muitas unidades encerrando as atividades a partir de agora. Entressafra mais longa!

Pelo levantamento do CTC, o ATR/tonelada no mês de outubro foi de 133,96 kg/ton, e o acumulado está em 140,13 (1,73% maior). O rendimento apurado pelo CTC foi de apenas 60,22 t/ha em setembro, contra 66,5 t/ha na safra anterior. Na safra temos 74,45 t/ha contra 77,62 t/ha da anterior, uma queda de 4,1%, esperada pela seca que castigou os canaviais no começo deste ciclo.

A Datagro espera para 2018/19 uma safra no Centro-Sul de 558,78 milhões de toneladas, com produção de 30,4 bilhões de litros de etanol vindos de cana e milho e 26,4 milhões de toneladas de açúcar.

Nas notícias de empresas, destaque para a Atvos, que moeu 25 m.t. de cana em 2017/18 e deve fechar 2018/19 com crescimento de pelo menos 10%, chegando a 28 m.t..

A São Martinho anunciou lucro líquido 10,4% maior, de R$ 58,5 milhões no segundo trimestre desta safra, graças a redução do endividamento e melhoria do perfil da dívida e operações de câmbio. A receita líquida caiu 12,6% e o Ebitda também recuou em 19,1%, para R$ 316,2 milhões com margem Ebitda de 49,1%. Parte destes números é explicado pela política de estocagem de produtos que no trimestre, aumentou o endividamento, mas deve melhorar bem no quarto trimestre com a venda de estoques.

De acordo com o Itaú BBA, na safra 2017/18 a dívida média foi de R$ 117/tonelada de cana, contra R$ 120 na safra anterior. O endividamento médio é de 2,8 vezes na relação dívida líquida sobre o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda). Grande trabalho de corte de custos tem sido feito. Investimentos devem ser mais fortes na recuperação de canaviais e em cogeração nesta próxima safra.

Em relação ao médio prazo, a EPE (Empresa de Pesquisa Energética) estima que em 2027 produziremos 45 bilhões de litros de etanol (32 bilhões de hidratado, 12 bilhões de anidro e o restante de importações, sendo que deste total produzido no Brasil, 2 bilhões seriam de milho), quase 50% a mais que o atual. Os investimentos necessários para esta expansão seriam de R$ 25 bilhões, sendo R$ 16 bilhões para novas unidades e R$ 9 bilhões em expansão das atuais. Em produção e área agrícola, a EPE estima que teremos 837 milhões de toneladas (31,6% a mais) sendo produzidas em 9,9 milhões de hectares (14% a mais que os 8,7 milhões de hectares no último ano) com produtividade de 85 t/ha bem acima das atuais 72,5 t/ha. No açúcar a estimativa é de crescimento de 16%, para 44 m. t.. Caso o RenovaBio não seja implementado, os números são bem mais modestos: iríamos para 33 bilhões de litros advindos de 729 m. t. de cana no Brasil.

Finalizando a parte de cana, os meses de outubro e novembro chuvosos estão dando bom tratamento aos canaviais e melhorando as estimativas para 2019/2020. Se continuar bem distribuída e em bom volume até março, pode ser um alento. Segundo a Unica a idade média dos canaviais do Centro-Sul é de 3,6 anos. O ideal seria de 3,2 anos.
 
Reflexões dos Fatos e Números do Açúcar

No açúcar nossa recuperação de preços perdeu força e estes recuaram novamente. Chegou a 14,20 cents/libra peso no final de outubro e mergulhou outra vez para 12,60 cents. É intrigante esta queda, pois foram notícias boas vindas da relação oferta e demanda. A Archer justifica principalmente como movimento dos fundos, além da queda dos preços do petróleo (20% em um mês) e a valorização do real.

A OIA (Organização Internacional do Açúcar) em sua nova estimativa derrubou o superávit esperado para a safra 2018/19 de 6,75 m.t. para 2,2 m.t.. A produção total deve ser de 180,488 m.t.. Tanto Brasil (31,8 m.t.) quanto Índia (32 m.t.), União Europeia (17,9 m.t.) e Paquistão tiveram quedas nas estimativas. O consumo global deve crescer 1,65% (a média de dez anos foi de 1,67%) chegando a 178,316 m.t.. Os estoques serão de 93,363 m.t., e a relação estoque/consumo cai para 52%. O superávit da safra 2017/18 também caiu praticamente 1,32 m.t. agora em 7,28 m.t. Números começam a melhorar para nós.

Há sinais de queda na safra indiana devido à menor produtividade por seca e presença de larvas brancas. Novas estimativas trazem a safra de 32,5 m.t. para 30 m.t. Lembremos que chegou a ser estimada em 35,5 m.t.

Nova estimativa da Datagro para 2018/19 ampliou o déficit de 715 mil toneladas para 1,58 milhão de toneladas. E na safra seguinte (2019/20) um déficit de 7,52 m.t..

Exportações de açúcar em outubro foram de 1,934 m.t. (bruto e refinado), quase 33% a menos que outubro de 2017 e 25% a menos que o mês de setembro deste ano. Já em valores, vendeu-se US$ 828,8 milhões (15% a mais que setembro mas 20% a menos que outubro de 2017). Desde janeiro as exportações são de 18,679 m.t., 24% a menos que em 2017 com receita de US$ 5,80 bilhões, um tombo de 41,5% sobre as exportações de US$ 9,910 bilhões realizadas até este momento em 2017.

Segundo a Archer, com dados de 30 de setembro de 2018, cerca de 4,16 m.t. de açúcar da safra 2019/20 já estavam fixados a um valor médio de 12.94 centavos de dólar por libra-peso (sem prêmio de polarização), ou R$ 1,159.54 por tonelada equivalente FOB Santos (já com o prêmio de pol). A empresa estima que os custos de produção da saca de açúcar (50 kg) posto usina das melhores do Brasil está entre R$ 40,89 e R$ 45,39. Isto se situa num intervalo entre 11,50 e 12,55 cents por libra-peso FOB Santos. Mas no Brasil para boa parte do setor e no mundo, os preços do açúcar são prejuízo puro, e se este fosse um mercado livre e sem proteções, teria ajuste de oferta em breve.

Pelo Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada - Esalq/USP) a saca de 50 kg do açúcar cristal teve queda de 0,02%, indo para R$ 66,32.

Ou seja, neste mês onde apostei em subida de preços, acertei até o final de outubro, mas desceram novamente, mesmo com a maioria de boas notícias. Meu viés ainda é de alta.
 
Reflexões dos Fatos e Números do Etanol e Energia

Em setembro, o consumo de combustíveis voltou a cair em 2,5% na comparação com o ano anterior, pela ANP. No ano a queda é de 0,5%. O diesel caiu 1,6% no mês, mas no ano tem alta de 1,2%. A gasolina caiu 17,3% no mês e teve seu menor consumo desde julho de 2011. No ano caiu 13,5%, já o hidratado cresceu 37,2% em setembro e 41,3% no acumulado de 2018. Na segunda quinzena de outubro usinas do Centro-Sul venderam 1,07 bilhão de litros de hidratado, 26,5% a mais que a mesma quinzena de 2017. E no mês de outubro as vendas foram 33,6% maiores, chegando a 2,02 bilhões de litros, estimulada pela paridade média de 63%.

Surpreenderam as exportações de etanol, que cresceram 82,3% em outubro, atingindo 278,7 milhões de litros, quando comparadas a outubro de 2017 e foram também 58% maiores que setembro. Estas trouxeram US$ 139,6 milhões em outubro (58% a mais que outubro de 2017 e 65% maiores que setembro). Desde janeiro já vendemos 1,444 bilhão de litros (18,5% a mais), com valor de US$ 769,5 milhões (11,1% maiores que 2017).

Segundo o Mapa (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento), o estoque de etanol (dados de 30/09) era de quase 11 bilhões de litros, 29% a mais que em 2017. Grandes grupos foram os que apresentaram maiores crescimentos nos estoques, chegando em alguns casos a quase 80% a mais de produto nos tanques.

O risco agora é o preço da gasolina cair e prejudicar o consumo de hidratado. Já houve queda de quase 16% nos últimos 30 dias nas refinarias. Mesmo assim, para a maioria dos grupos, os preços médios de venda de etanol estão entre 5 a 10% maiores que na safra anterior. Mas ainda existe margem para queda das gasolina pois em muitos locais a paridade está em 60%.

Temos algumas outras boas notícias, a saber: mais pessoas se acostumaram a usar o hidratado nesta fase de paridade favorável; teremos neste ano mais 2,4 milhões de carros vendidos no Brasil, sendo mais de 85% flex e; as distribuidoras de combustíveis já esperam melhoras de consumo para o último trimestre do ano.
 
Finalizando... qual seria a minha estratégia com base nos fatos?

Onde eu arriscaria agora em novembro/dezembro: O consumo do hidratado nos próximos quatro  a cinco meses é a uma das principais variáveis a serem observadas, bem como o volume de estoques, uma vez que teremos uma entressafra mais longa. Vai interferir neste consumo uma possível retomada da economia bem como a paridade, trazida pelos preços da gasolina. Resta saber se a queda do preço do petróleo continua, pois isto afetaria o consumo de hidratado e o mix da próxima safra, sendo impactos negativos aos preços. Aparentemente desde o dia 14/11 parou de cair e iniciou recuperação, a se observar.
 
Quem é o homenageado do mês?

Todos os meses temos um grande homenageado aqui neste espaço e desta vez nossa singela homenagem vai ao amigo e engenheiro agrônomo Samuel Ribeiro Giordano, um dos responsáveis pelo Pensa (Programa de Agronegócios da USP) e grande militante das causas do agronegócio, sempre contribuindo com suas análises do setor.
 

Haja Limão


No Brasil acontece o seguinte, explicando numa simples analogia com um condomínio: 
"A turma que paga o condomínio cansou um pouco da turma que não paga o condomínio, da turma que rouba o condomínio e da turma empregada no condomínio. E a estratégia bem simples é esta: assumir a gestão do condomínio, reduzir o grande grupo empregado no condomínio, vender algumas partes do condomínio, diminuir ao máximo o roubo ao condomínio e criar oportunidades para aqueles que não pagam, passarem a pagar o condomínio. Mais adiante, pelos ganhos de eficiência, reduzir a taxa do condomínio." Prof. Dr. Marcos Fava Neves
 
*Marcos Fava Neves é Professor Titular (em tempo parcial) das Faculdades de Administração da USP em Ribeirão Preto e da FGV em São Paulo, especialista em planejamento estratégico do agronegócio.