http://site.orplana.com.br/pages/caminhos-da-cana-2017/
http://www.fmcagricola.com.br/index.aspx
http://icminc.com/corporate/contact-us-corporate.html
http://www.ideaonline.com.br/conteudo/21-seminario-de-mecanizacao-e-producao-de-cana-de-acucar.html
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Muita pesquisa acompanhada de um bom suco de laranja

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Agronegócio

15/03/2019
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Por: Marino Guerra


Saber da visão do novo diretor geral do IAC (Instituto Agronômico de Campinas) sobre como deve se encaixar na agricultura contemporânea e futura uma instituição de pesquisa com seu peso histórico é um dos assuntos que qualquer jornalista ligado ao agro entraria em uma entrevista.

Conhecer o que ele pensa sobre os programas do instituto ligados à cana-de-açúcar e ao amendoim também é obrigação para quem escreve em uma publicação voltada aos cooperados da Copercana.

Talvez o assunto que a priori menos interessaria seria sobre citrus, porém esquecendo o cargo atual do doutor Marcos Antonio Machado, e olhando o seu currículo profissional (quase 40 anos dedicados à citricultura dentro do IAC) não fazia o menor sentido ignorar esse fato.

Resultado: As páginas que se seguem trarão uma rica conversa sobre diversos momentos importantes da citricultura, o surgimento de uma nova maneira de se plantar citrus, que pode ser uma oportunidade até para o público canavieiro (atenção quando o assunto são as frutas de mesa) e entender o que pensa a pesquisa pública sobre o lugar dela em diversas cadeias produtivas hoje e no futuro.

Revista Canavieiros: Para o público da Canavieiros, diga um pouco sobre quem é o novo diretor-geral do IAC, por favor.
Marcos Antonio Machado: Sou agrônomo, com mestrado na universidade de Viçosa e doutorado na Alemanha. Trabalhei em uma empresa de desenvolvimento por quatro anos e depois fui para antiga estação experimental de Limeira, que mais tarde se tornou Centro de Citricultura.
Cheguei lá em 1991 e participei da estruturação do centro, transformando-o num dos principais centros de pesquisa agrícola do Brasil.
Nesse período a citricultura brasileira e, em especial, a paulista cresceu muito por causa do trabalho realizado no centro, principalmente no sentido do desenvolvimento de variedades copa e porta-enxerto. Hoje 94% dessas variedades plantadas no estado de São Paulo e 91% das plantadas no Brasil são variedades que foram trabalhadas no Instituto Agronômico.
 
Revista Canavieiros: Como nosso leitor conhece mais sobre cana, explique um pouco sobre o que são as variedades copa e porta-enxerto, por favor.
Machado: Variedade porta-enxerto é o limão-cravo e tangerina sunki e as variedades copa são a laranja-pera, valência e bahia, enfim são cultivares que fazem parte de um banco de geoplasma e à medida que a citricultura crescia, em decorrência de fatores naquele momento ligados ao mercado externo, eram atendidos a partir desse banco, não foi preciso reinventar a roda.
 
Revista Canavieiros: Além do desenvolvimento genético, quais os outros trabalhos realizados no Centro de Citricultura?
Machado: Desenvolvemos todo o sistema de produção de borbulhas e sementes em ambiente protegido, isso porque a citricultura é muito suscetível a pragas. Esse trabalho consiste em fornecer ao viveirista borbulhas com certificação genética, fitossanitárias. Esse profissional, por sua vez, vai multiplicar isso 100, 200, 300 vezes fazendo muda que será vendida para o produtor.
Resumindo: nossa função foi trazer para a borbulha a tecnologia representada pela qualidade genética e qualidade fitossanitária. Para se ter ideia, a média de produção de mudas de citrus no estado gira em torno de 12, 13 e 14 milhões sendo destinadas para novas áreas ou reformas.
 
Revista Canavieiros: O IAC também tem importantes trabalhos no sentido de auditorias, quais são eles?
Machado: Desenvolvemos todo o sistema de gestão da qualidade para diagnóstico de doenças nos citrus. Ele se trata de uma metodologia certificada no Inmetro, que atende às exigências do Ministério da Agricultura e também de organizações internacionais, então para exportar uma fruta de laranja ou limão, só é possível através dessa certificação, porque o IAC é o único credenciado no Brasil para emitir laudos para a exportação.
Evidentemente que o Brasil ainda exporta muito pouco se comparado com a quantidade que produzimos para a indústria.
Conseguimos isso por ter todo o conhecimento de rastreabilidade que garante a autenticidade do laudo.
Tem também o sistema de acompanhamento de doenças de toda a produção de mudas do estado, onde são coletadas amostragens dos viveiros para determinadas doenças e no instante que as mudas vão para o produtor, é recolhida uma taxa de amostragem comprovando que elas estão realmente livres daquelas doenças.
 
Revista Canavieiros: Falando em doença, o senhor  viveu o olho do furacão greening. Conte como foi, por favor.
Machado: Nós fomos os primeiros a identificar a bactéria. No dia 18 de julho de 2004, comprovamos internamente que havíamos encontrado a bactéria do greening ou HLB no Brasil. A partir daí fizemos um comunicado no ministério e simultaneamente um grupo de pesquisa do Fundecitrus também anunciou ter encontrado a bactéria.
Um fato do nosso trabalho é que em 2005 ele entrou na Flórida, e lá causou um desastre muito maior em relação ao Brasil, pois aqui conseguimos manter a produtividade por hectare e conseguimos conviver com essa doença. Isso se deve graças a uma força tarefa que envolveu todos os atores da cadeia.
Revista Canavieiros: Mas foi necessário erradicar muitos pomares, como era o critério para isso?
Machado: O ministério editou uma legislação que obrigava o estado a erradicar a planta, e para isso era preciso ter o laudo dela, ou seja, tinha que provar que ela estava doente.
Para conseguir fazer esse trabalho foi criada uma força-tarefa ao lado do setor produtivo onde em três anos foram emitidos mais de 500 mil laudos. Com isso foi possível erradicar grandes focos da doença. A laranja, na região de Araraquara, foi praticamente eliminada.
Diante disso, foi possível reduzir bastante a doença e também a aprender a lidar com ela, através do desenvolvimento de técnicas de manejo regionalizadas e controle de vetores.
 
Revista Canavieiros: É certo afirmar que o greening foi quem retirou o pequeno e médio produtor de laranja do mercado?
Machado: O fato é que o greening aliado ao preço e depois ao cancro cítrico, que também entrou para valer, fez com que os pequenos produtores perdessem muito a competitividade, tanto que nossa citricultura envolvia 20 mil agricultores e caiu para 6 mil.
Para manter a produtividade ficou caro produzir laranja, permanecendo somente os grandes.
Na safra 16/17 foi batido recorde, chegando a 350 milhões de caixas de laranjas (40,8 quilos). O fato é que a produtividade brasileira, apesar de termos cerca de 25% de plantas doentes, se manteve. Se pegarmos a Flórida, por exemplo, depois do greening, saiu de uma produção anual de 180 milhões de caixas para 45 milhões.
 
Revista Canavieiros: Fale mais sobre os fatores responsáveis por manter essa produtividade, por favor.
Machado: Isso se deve ao trabalho de toda a cadeia, desde nós, a Fundecitrus, as indústrias, dos consultores e de toda a comunidade envolvidos, principalmente, para estabelecer uma sistemática de manejo da doença, porque se mantivesse somente o trabalho de erradicação, perceberia-se que daqui a pouco não havia mais nenhum pé.
O pensamento foi o de tentar produzir com essa nova realidade, e trabalhar para reduzir a taxa de infecção. Com isso estamos conseguindo manter a produtividade.
Não podemos afirmar que temos o controle sobre ela, mas mostramos que é possível conviver com ela. Nosso trabalho é muito baseado na questão do manejo de vetores, é reduzir a população do inseto que a carrega. E a única maneira de fazer isso é pulverizar inseticida, porém é preciso controlar regionalmente, pois se você fizer o trabalho e o seu vizinho não, não vai adiantar nada.
Então foi criado o conceito de manejo regional, quando a orientação é trabalhar na maior extensão possível. Existe também o conceito de plantas iscas nas bordaduras dos pomares, que atraem o greening e com isso concentram o ataque. É um sistema caro, que pode demandar, às  vezes, até 24 aplicações por ano. Isso eliminou o pequeno produtor, além de gerar impacto ambiental. Não existem variedades resistentes.
 
Revista Canavieiros: Ainda no segmento de laranja, como o senhor  vê o surgimento de novas marcas de suco de laranja regionais?
Machado: Esse é o indício de que o brasileiro toma suco de laranja. A indústria brasileira de suco sempre foi uma indústria de exportação, então até pouco tempo atrás você não encontrava no mercado o suco de laranja.
O que tinha era a fruta e também o suco concentrado e congelado, o que fazia com que o público consumidor optasse por fazer o suco em casa, através da compra da fruta.
Outro fator que precisa ser observado é que os hábitos de consumo também mudaram, por exemplo, o número de pessoas que hoje descasca laranja para comer caiu muito.
E por fim empreendedores observaram a oportunidade de inserção de um novo tipo de suco. Antigamente era apenas o suco concentrado congelado, cujo o brix é 65, se pegar a fruta é entre 14 a 16. Era praticamente um xarope.
E então veio o suco tipo NFC, que é esse de hoje, pasteurizado. Ele é suco, água e fruta. Se pensar no sentido de exportação, é inviável envolver todos os custos de uma complexa cadeia logística para transportar água.
 
Revista Canavieiros: Então se por um lado o suco tipo exportação ganhou diversos concorrentes, por outro a laranja também conseguiu abrir um mercado?
Machado: Exato, o mercado mudou. Se for pensar nos últimos anos, a competição do suco de laranja sofreu o aumento rigoroso no número de concorrentes. Hoje há opções para o consumidor que vão desde águas com sabor e uma infinidade de sucos.
Por outro lado, o brasileiro começou a consumir suco de laranja e até bem pouco tempo atrás a única opção de suco industrializado que havia era o de envelope.
 
Revista Canavieiros: Diante de tudo isso, que tamanho ficou o pomar?
Machado: Os pomares diminuíram na era greening, pois foram perdidos mais de 200 mil hectares de área.
Porém é preciso observar o crescimento da citricultura de mesa, a fruta fresca, que vem a um processo de aos poucos se desvincular da citricultura industrial, aonde o antigo conceito se baseava no repasse da laranja que sobrava da indústria.
Hoje observamos a disseminação de laranjas e tangerinas feitas somente para vender em mercados, ou seja, elas têm sabores, texturas e visual diferenciados. Esse é um mercado que tem crescido bastante, o de fruta de qualidade.
 
Revista Canavieiros: Mas quem são esses produtores de fruta de mesa? Esse mercado também está com os grandes citricultores?
Machado: Pelo contrário, é preciso ter um pomar menor, um sistema de tratamento mais intensivo. Esse é um segmento que está crescendo bastante. Para se ter ideia, temos um dia de campo no Centro de Limeira somente com esse tema e recebemos por dia cerca de 500 produtores.
 
Revista Canavieiros: Então é uma redemocratização da citricultura?
Machado: Sim. Dá para afirmar que é uma forma do pequeno produtor voltar para a citricultura, porém é preciso ressaltar que essa prática pede muita tecnificação de quem se aventura nela.
O produtor não sobrevive se produzir as variedades mais comuns como Pera, Valência, essas são para os grandes. Ele precisa trabalhar para oferecer produtos diferenciados de mesa, oferecer novidade e opção ao mercado.
Quando a citricultura de mesa era o resto da indústria, nós tínhamos dados que apontavam que ela representava 25% da produção. Lógico que isso era afetado por diversas variáveis como mercado internacional, clima e preço.
Agora com a diversificação, são produtores menores para um público menor, que é o de alto poder aquisitivo. Por isso é complicado mensurar áreas, porque produto de mesa não é quantidade, mas sim qualidade, até porque se você conseguir produzir uma fruta excelente e inundar o mercado com ela, o seu valor vai lá para baixo.
 
Revista Canavieiros: É possível definir qual região se concentram esses produtores?
Machado: Dos cadastrados no IAC eles pegam mais ou menos o cinturão de Mogi Guaçu, Mogi Mirim, Casa Branca, São Carlos e desce até o sul do estado.
Para produzir uma fruta de grande qualidade o clima influencia e lembre-se que laranja, citrus em geral, são plantas que precisam de noites frias e dias quentes, são de clima mediterrâneo. Por essa razão, quando você vai na Europa ou até mesmo na Argentina, vê frutas maravilhosas, então, até de forma natural, os produtores se localizam em áreas que registram clima parecido.
Revista Canavieiros: Vamos mudar um pouco o rumo da prosa e falar sobre o conceito de centros de pesquisa. Qual é o conceito na visão do diretor -geral de um dos mais importantes do país?
Machado: Em primeiro lugar temos que estar sempre gerando tecnologia. Nós não somos uma universidade que gera recursos humanos, nós geramos produtos, processos e informação.
Para se tornar um centro relevante é preciso estar inserido em uma cadeia, porque isso será a força motriz que manterá aquele centro crescendo, porque a demanda sempre tem que ser gerada pelo produtor.
A estrutura do agronômico é montada pelos centros de produtos, que chamamos de verticais, ou seja, focados em uma determinada cadeia.  E os centros que não são ligados a um único produto, os horizontais, esses atendem a todos os centros verticais.
Para ilustrar isso é preciso pensar que cada cultura precisa de conhecimentos ligados à nutrição, fitossanidade e irrigação, mas é impossível ter uma unidade de conhecimento somente para cana ou laranja, então aí que são criados os centros horizontais.
O segundo ponto é a importância em alocar o pesquisador certo no centro correto. Não adianta trabalhar com um produto extremamente importante e não ter uma equipe boa, ou alocar uma equipe muito forte em um produto que não tenha tanta importância.
 
Revista Canavieiros: Analisando essa estrutura, o senhor considera o IAC completo?
Machado: Embora o instituto já tenha seus 130 anos sendo chave para o desenvolvimento da agricultura brasileira, fatores relacionados à administração pública fizeram com que ele perdesse muita competitividade em algumas áreas.
Pensando hoje nas grandes produtoras de sementes de soja e milho mundiais, elas não estão por acaso nessas culturas, mas porque sabem que  vão gerar melhores resultados. Imagina um comparativo de tamanho de mercado entre citrus ou amendoim com a soja, por exemplo. É  quase impossível fechar o investimento em pesquisa nessas culturas menores.
Diante desse cenário, o IAC se direcionou para nichos específicos. No caso do milho, por exemplo, há uma infinidade de marcas de sementes para safrinha, mas no caso de um milho para pequenos produtores que fazem silagem, ou até mesmo o milho verde, e que não vão comprar sementes a R$ 120,00 o quilo, não há esse portfólio.
 
Revista Canavieiros: Então o IAC tem seu público-alvo definido?
Machado: Sim. As culturas em que a indústria não vai chegar como o citrus, amendoim, mandioca, batata e cana são o foco onde  devemos continuar.
O propósito é manter os programas que já são fortes hoje e fortalecer outros. E de que forma isso? Aumentando a massa crítica, a nossa infraestrutura para trabalhar e nos organizarmos.
 
Revista Canavieiros: Esse foco em mercado, em cadeia produtiva, não é antagônico se pegar a ilha que a produção científica ainda está quando analisados os resultados práticos de sua produção?
Machado: Isso não pode mais acontecer, o pesquisador entra hoje e faz o que ele quer. Não tem mais sentido isso, ele tem que trabalhar naquilo que a instituição precisa, que a agricultura e que os agricultores precisam.
Nós somos uma instituição tecnológica, e para fazer sentido tem que ser usada.  Nós não vamos ser usuários de nossas tecnologias, não vamos plantar laranja, cana, amendoim. Quem irá  plantar é o agricultor.
Desse ponto de vista essa parceria é muito promissora, porque com ela você estará recebendo sempre a demanda do campo, não é o produtor que acorda um dia e fala que acha que daqui dez anos a planta x vai ser a mais importante do mundo e então decide trabalhar com aquilo.
Na verdade, toda a pesquisa hoje vive um grande dilema: ou você produz para o produtor ou produz para você mesmo.
Infelizmente a segunda opção é estimulada pelo próprio sistema de educação brasileira. Como você é avaliado no CNPQ, Fapesp ou CAPS? É pela produtividade científica e não pelo resultado prático dela no mercado.
 
Revista Canavieiros: Então como trabalhar para atender os dois públicos, o universitário e o mercado?
Machado: Aqui no IAC nós estamos fazemos o serviço dobrado., Quando é só um acadêmico precisa do CNPQ, CAPS e Fapesp. Quando faz parte de uma área mais tecnológica (como o IAC), é focado no mercado, mas para ter o recurso de sua pesquisa liberado precisa fazer o jogo deles.
Então eu tenho que pensar na produção de publicação para poder receber recurso dessas instituições, porque elas estão estruturadas em cima desse modelo. E quem manda nessas agências são as universidades, sendo assim ou você se ajusta e faz da forma como elas querem, ou você não acessa o seu recurso, que é público, o qual teoricamente deveria ser distribuído para todo mundo.
Se chegar lá e mostrar que produziu 50 variedades que de certa maneira estão sendo utilizadas pelo setor produtivo, de nada vai valer.
Então em cima desse sistema acadêmico atual eu digo que nós trabalhamos dobrado, porque temos que seguir esse sistema e também trabalhar observando o mercado.
 
Revista Canavieiros: Como o senhor  enxerga a aproximação das startups com os centros de pesquisa? Onde será o posicionamento delas?
Machado: Eu as vejo como uma oportunidade, porque uma das grandes dificuldades da pesquisa é criar um relacionamento com o setor produtivo, acho que será o papel desse novo tipo de negócio.
Eles serão facilitadores da tecnologia desenvolvida por nós em ambiente produtivo.
São empreendedores que estão empenhados em destravar esse mecanismo, porque o pesquisador precisa trabalhar em desenvolvimento, não é administrador, não é gestor, não tem que trabalhar para a transferência, marketing e ainda atender o governo.
Enfim, as startups são a oportunidade para aumentar a transferência que consequentemente fortalecerá nosso trabalho, porque a pesquisa só ganha força quando passa a ser usada.
 
Revista Canavieiros:  Como o senhor enxerga os setores de cana e amendoim dentro do agronômico?
Machado: Embora não tenha construído minha carreira nessas duas áreas, eu conheço os problemas que enfrentam as duas culturas, sei da importância dos centros e do potencial que os dois programas têm para sobreviver.
Acho o programa de cana extremamente desafiante. Pela natureza da planta, ela exige uma coisa que o grupo tem que é conhecimento genético. O grupo entende de melhoramento da planta, entende de cultura, então cada vez mais acredito que a participação do Instituto será maior dentro do segmento.
Outro ponto é que se trata de um setor muito pulverizado, com centenas de usinas e milhares de produtores, enquanto no setor de citrus têm três indústrias e somente grandes produtores. São perfis completamente diferentes. Com isso temos a chance de fazer ensaios diferentes, em diferentes circunstâncias.
Tem também o fato que o programa foi pensado em trabalhar com as mudanças que a cultura passa. Antes havia uma maneira de colher e agora é outra, e o programa tem a dinâmica de se antecipar às mudanças.
O amendoim é o único programa que temos, uma cultura de extrema importância em algumas regiões do estado. É um programa que precisa ser ampliado. Além disso, é uma área que não tem muito competidor.  Tomara que outros entrem, pois quanto maior a diversidade melhor, dada a sua importância para o produtor. É diferente, por exemplo, de pegar o programa de hortaliças, onde há várias empresas desenvolvendo tecnologia para o setor, que suprem suas necessidades de novos cultivares. No amendoim não tem mais ninguém.
 
Revista Canavieiros: Como o senhor enxerga o IAC daqui a 20 anos?
Machado: Eu assumi a gestão agora, meu antecessor fez um trabalho excelente. Se deixassem nós trabalharmos do jeito que gostaríamos, acho que estaríamos muito lá na frente.
Quero dizer que estamos vendo uma estrutura, a de administração pública, que está muito complicada para se caminhar. Sendo assim, não adianta fazermos grandes planejamentos que dependem de aprovações superiores.
Eu, como diretor, tenho que estar ciente da visão do governo sobre o instituto para determinar o que é possível ser feito. Uma coisa que já sabemos é que não adianta planejarmos aqui e não combinarmos com o chefe.
Então estaremos empenhados nessa nova gestão em apresentar um plano de curto, médio e longo prazo, e mostrar aos superiores se eles querem fazer isso. Se sim, então é só dar  condição que iremos fazer.
O agronômico é uma instituição pública, pertence a Secretaria de Agricultura e Abastecimento, e sua sobrevivência e continuidade dependem do estado.  Claro que há o caminho das parcerias com as empresas, mas nós temos que ter diretrizes do estado.
Então imaginando daqui a 20 anos, acho que estaremos muito próximos desses centros estratégicos importantes, naqueles que o setor privado não atuará, e imagino que seja a mandioca, amendoim, milho varietal, trigo, cana, entre outros.
Vejo a instituição menor, porém muito mais eficiente. Imagino que teremos muita parceria externa, tem a questão do crescimento da relevância com as startups, que têm que crescer e assim conseguiremos nos mostrar mais para o nosso governo e para a sociedade.

Fonte: Revista Canavieiros

Muita pesquisa acompanhada de um bom suco de laranja

15/03/2019

Por: Marino Guerra


Saber da visão do novo diretor geral do IAC (Instituto Agronômico de Campinas) sobre como deve se encaixar na agricultura contemporânea e futura uma instituição de pesquisa com seu peso histórico é um dos assuntos que qualquer jornalista ligado ao agro entraria em uma entrevista.

Conhecer o que ele pensa sobre os programas do instituto ligados à cana-de-açúcar e ao amendoim também é obrigação para quem escreve em uma publicação voltada aos cooperados da Copercana.

Talvez o assunto que a priori menos interessaria seria sobre citrus, porém esquecendo o cargo atual do doutor Marcos Antonio Machado, e olhando o seu currículo profissional (quase 40 anos dedicados à citricultura dentro do IAC) não fazia o menor sentido ignorar esse fato.

Resultado: As páginas que se seguem trarão uma rica conversa sobre diversos momentos importantes da citricultura, o surgimento de uma nova maneira de se plantar citrus, que pode ser uma oportunidade até para o público canavieiro (atenção quando o assunto são as frutas de mesa) e entender o que pensa a pesquisa pública sobre o lugar dela em diversas cadeias produtivas hoje e no futuro.

Revista Canavieiros: Para o público da Canavieiros, diga um pouco sobre quem é o novo diretor-geral do IAC, por favor.
Marcos Antonio Machado: Sou agrônomo, com mestrado na universidade de Viçosa e doutorado na Alemanha. Trabalhei em uma empresa de desenvolvimento por quatro anos e depois fui para antiga estação experimental de Limeira, que mais tarde se tornou Centro de Citricultura.
Cheguei lá em 1991 e participei da estruturação do centro, transformando-o num dos principais centros de pesquisa agrícola do Brasil.
Nesse período a citricultura brasileira e, em especial, a paulista cresceu muito por causa do trabalho realizado no centro, principalmente no sentido do desenvolvimento de variedades copa e porta-enxerto. Hoje 94% dessas variedades plantadas no estado de São Paulo e 91% das plantadas no Brasil são variedades que foram trabalhadas no Instituto Agronômico.
 
Revista Canavieiros: Como nosso leitor conhece mais sobre cana, explique um pouco sobre o que são as variedades copa e porta-enxerto, por favor.
Machado: Variedade porta-enxerto é o limão-cravo e tangerina sunki e as variedades copa são a laranja-pera, valência e bahia, enfim são cultivares que fazem parte de um banco de geoplasma e à medida que a citricultura crescia, em decorrência de fatores naquele momento ligados ao mercado externo, eram atendidos a partir desse banco, não foi preciso reinventar a roda.
 
Revista Canavieiros: Além do desenvolvimento genético, quais os outros trabalhos realizados no Centro de Citricultura?
Machado: Desenvolvemos todo o sistema de produção de borbulhas e sementes em ambiente protegido, isso porque a citricultura é muito suscetível a pragas. Esse trabalho consiste em fornecer ao viveirista borbulhas com certificação genética, fitossanitárias. Esse profissional, por sua vez, vai multiplicar isso 100, 200, 300 vezes fazendo muda que será vendida para o produtor.
Resumindo: nossa função foi trazer para a borbulha a tecnologia representada pela qualidade genética e qualidade fitossanitária. Para se ter ideia, a média de produção de mudas de citrus no estado gira em torno de 12, 13 e 14 milhões sendo destinadas para novas áreas ou reformas.
 
Revista Canavieiros: O IAC também tem importantes trabalhos no sentido de auditorias, quais são eles?
Machado: Desenvolvemos todo o sistema de gestão da qualidade para diagnóstico de doenças nos citrus. Ele se trata de uma metodologia certificada no Inmetro, que atende às exigências do Ministério da Agricultura e também de organizações internacionais, então para exportar uma fruta de laranja ou limão, só é possível através dessa certificação, porque o IAC é o único credenciado no Brasil para emitir laudos para a exportação.
Evidentemente que o Brasil ainda exporta muito pouco se comparado com a quantidade que produzimos para a indústria.
Conseguimos isso por ter todo o conhecimento de rastreabilidade que garante a autenticidade do laudo.
Tem também o sistema de acompanhamento de doenças de toda a produção de mudas do estado, onde são coletadas amostragens dos viveiros para determinadas doenças e no instante que as mudas vão para o produtor, é recolhida uma taxa de amostragem comprovando que elas estão realmente livres daquelas doenças.
 
Revista Canavieiros: Falando em doença, o senhor  viveu o olho do furacão greening. Conte como foi, por favor.
Machado: Nós fomos os primeiros a identificar a bactéria. No dia 18 de julho de 2004, comprovamos internamente que havíamos encontrado a bactéria do greening ou HLB no Brasil. A partir daí fizemos um comunicado no ministério e simultaneamente um grupo de pesquisa do Fundecitrus também anunciou ter encontrado a bactéria.
Um fato do nosso trabalho é que em 2005 ele entrou na Flórida, e lá causou um desastre muito maior em relação ao Brasil, pois aqui conseguimos manter a produtividade por hectare e conseguimos conviver com essa doença. Isso se deve graças a uma força tarefa que envolveu todos os atores da cadeia.
Revista Canavieiros: Mas foi necessário erradicar muitos pomares, como era o critério para isso?
Machado: O ministério editou uma legislação que obrigava o estado a erradicar a planta, e para isso era preciso ter o laudo dela, ou seja, tinha que provar que ela estava doente.
Para conseguir fazer esse trabalho foi criada uma força-tarefa ao lado do setor produtivo onde em três anos foram emitidos mais de 500 mil laudos. Com isso foi possível erradicar grandes focos da doença. A laranja, na região de Araraquara, foi praticamente eliminada.
Diante disso, foi possível reduzir bastante a doença e também a aprender a lidar com ela, através do desenvolvimento de técnicas de manejo regionalizadas e controle de vetores.
 
Revista Canavieiros: É certo afirmar que o greening foi quem retirou o pequeno e médio produtor de laranja do mercado?
Machado: O fato é que o greening aliado ao preço e depois ao cancro cítrico, que também entrou para valer, fez com que os pequenos produtores perdessem muito a competitividade, tanto que nossa citricultura envolvia 20 mil agricultores e caiu para 6 mil.
Para manter a produtividade ficou caro produzir laranja, permanecendo somente os grandes.
Na safra 16/17 foi batido recorde, chegando a 350 milhões de caixas de laranjas (40,8 quilos). O fato é que a produtividade brasileira, apesar de termos cerca de 25% de plantas doentes, se manteve. Se pegarmos a Flórida, por exemplo, depois do greening, saiu de uma produção anual de 180 milhões de caixas para 45 milhões.
 
Revista Canavieiros: Fale mais sobre os fatores responsáveis por manter essa produtividade, por favor.
Machado: Isso se deve ao trabalho de toda a cadeia, desde nós, a Fundecitrus, as indústrias, dos consultores e de toda a comunidade envolvidos, principalmente, para estabelecer uma sistemática de manejo da doença, porque se mantivesse somente o trabalho de erradicação, perceberia-se que daqui a pouco não havia mais nenhum pé.
O pensamento foi o de tentar produzir com essa nova realidade, e trabalhar para reduzir a taxa de infecção. Com isso estamos conseguindo manter a produtividade.
Não podemos afirmar que temos o controle sobre ela, mas mostramos que é possível conviver com ela. Nosso trabalho é muito baseado na questão do manejo de vetores, é reduzir a população do inseto que a carrega. E a única maneira de fazer isso é pulverizar inseticida, porém é preciso controlar regionalmente, pois se você fizer o trabalho e o seu vizinho não, não vai adiantar nada.
Então foi criado o conceito de manejo regional, quando a orientação é trabalhar na maior extensão possível. Existe também o conceito de plantas iscas nas bordaduras dos pomares, que atraem o greening e com isso concentram o ataque. É um sistema caro, que pode demandar, às  vezes, até 24 aplicações por ano. Isso eliminou o pequeno produtor, além de gerar impacto ambiental. Não existem variedades resistentes.
 
Revista Canavieiros: Ainda no segmento de laranja, como o senhor  vê o surgimento de novas marcas de suco de laranja regionais?
Machado: Esse é o indício de que o brasileiro toma suco de laranja. A indústria brasileira de suco sempre foi uma indústria de exportação, então até pouco tempo atrás você não encontrava no mercado o suco de laranja.
O que tinha era a fruta e também o suco concentrado e congelado, o que fazia com que o público consumidor optasse por fazer o suco em casa, através da compra da fruta.
Outro fator que precisa ser observado é que os hábitos de consumo também mudaram, por exemplo, o número de pessoas que hoje descasca laranja para comer caiu muito.
E por fim empreendedores observaram a oportunidade de inserção de um novo tipo de suco. Antigamente era apenas o suco concentrado congelado, cujo o brix é 65, se pegar a fruta é entre 14 a 16. Era praticamente um xarope.
E então veio o suco tipo NFC, que é esse de hoje, pasteurizado. Ele é suco, água e fruta. Se pensar no sentido de exportação, é inviável envolver todos os custos de uma complexa cadeia logística para transportar água.
 
Revista Canavieiros: Então se por um lado o suco tipo exportação ganhou diversos concorrentes, por outro a laranja também conseguiu abrir um mercado?
Machado: Exato, o mercado mudou. Se for pensar nos últimos anos, a competição do suco de laranja sofreu o aumento rigoroso no número de concorrentes. Hoje há opções para o consumidor que vão desde águas com sabor e uma infinidade de sucos.
Por outro lado, o brasileiro começou a consumir suco de laranja e até bem pouco tempo atrás a única opção de suco industrializado que havia era o de envelope.
 
Revista Canavieiros: Diante de tudo isso, que tamanho ficou o pomar?
Machado: Os pomares diminuíram na era greening, pois foram perdidos mais de 200 mil hectares de área.
Porém é preciso observar o crescimento da citricultura de mesa, a fruta fresca, que vem a um processo de aos poucos se desvincular da citricultura industrial, aonde o antigo conceito se baseava no repasse da laranja que sobrava da indústria.
Hoje observamos a disseminação de laranjas e tangerinas feitas somente para vender em mercados, ou seja, elas têm sabores, texturas e visual diferenciados. Esse é um mercado que tem crescido bastante, o de fruta de qualidade.
 
Revista Canavieiros: Mas quem são esses produtores de fruta de mesa? Esse mercado também está com os grandes citricultores?
Machado: Pelo contrário, é preciso ter um pomar menor, um sistema de tratamento mais intensivo. Esse é um segmento que está crescendo bastante. Para se ter ideia, temos um dia de campo no Centro de Limeira somente com esse tema e recebemos por dia cerca de 500 produtores.
 
Revista Canavieiros: Então é uma redemocratização da citricultura?
Machado: Sim. Dá para afirmar que é uma forma do pequeno produtor voltar para a citricultura, porém é preciso ressaltar que essa prática pede muita tecnificação de quem se aventura nela.
O produtor não sobrevive se produzir as variedades mais comuns como Pera, Valência, essas são para os grandes. Ele precisa trabalhar para oferecer produtos diferenciados de mesa, oferecer novidade e opção ao mercado.
Quando a citricultura de mesa era o resto da indústria, nós tínhamos dados que apontavam que ela representava 25% da produção. Lógico que isso era afetado por diversas variáveis como mercado internacional, clima e preço.
Agora com a diversificação, são produtores menores para um público menor, que é o de alto poder aquisitivo. Por isso é complicado mensurar áreas, porque produto de mesa não é quantidade, mas sim qualidade, até porque se você conseguir produzir uma fruta excelente e inundar o mercado com ela, o seu valor vai lá para baixo.
 
Revista Canavieiros: É possível definir qual região se concentram esses produtores?
Machado: Dos cadastrados no IAC eles pegam mais ou menos o cinturão de Mogi Guaçu, Mogi Mirim, Casa Branca, São Carlos e desce até o sul do estado.
Para produzir uma fruta de grande qualidade o clima influencia e lembre-se que laranja, citrus em geral, são plantas que precisam de noites frias e dias quentes, são de clima mediterrâneo. Por essa razão, quando você vai na Europa ou até mesmo na Argentina, vê frutas maravilhosas, então, até de forma natural, os produtores se localizam em áreas que registram clima parecido.
Revista Canavieiros: Vamos mudar um pouco o rumo da prosa e falar sobre o conceito de centros de pesquisa. Qual é o conceito na visão do diretor -geral de um dos mais importantes do país?
Machado: Em primeiro lugar temos que estar sempre gerando tecnologia. Nós não somos uma universidade que gera recursos humanos, nós geramos produtos, processos e informação.
Para se tornar um centro relevante é preciso estar inserido em uma cadeia, porque isso será a força motriz que manterá aquele centro crescendo, porque a demanda sempre tem que ser gerada pelo produtor.
A estrutura do agronômico é montada pelos centros de produtos, que chamamos de verticais, ou seja, focados em uma determinada cadeia.  E os centros que não são ligados a um único produto, os horizontais, esses atendem a todos os centros verticais.
Para ilustrar isso é preciso pensar que cada cultura precisa de conhecimentos ligados à nutrição, fitossanidade e irrigação, mas é impossível ter uma unidade de conhecimento somente para cana ou laranja, então aí que são criados os centros horizontais.
O segundo ponto é a importância em alocar o pesquisador certo no centro correto. Não adianta trabalhar com um produto extremamente importante e não ter uma equipe boa, ou alocar uma equipe muito forte em um produto que não tenha tanta importância.
 
Revista Canavieiros: Analisando essa estrutura, o senhor considera o IAC completo?
Machado: Embora o instituto já tenha seus 130 anos sendo chave para o desenvolvimento da agricultura brasileira, fatores relacionados à administração pública fizeram com que ele perdesse muita competitividade em algumas áreas.
Pensando hoje nas grandes produtoras de sementes de soja e milho mundiais, elas não estão por acaso nessas culturas, mas porque sabem que  vão gerar melhores resultados. Imagina um comparativo de tamanho de mercado entre citrus ou amendoim com a soja, por exemplo. É  quase impossível fechar o investimento em pesquisa nessas culturas menores.
Diante desse cenário, o IAC se direcionou para nichos específicos. No caso do milho, por exemplo, há uma infinidade de marcas de sementes para safrinha, mas no caso de um milho para pequenos produtores que fazem silagem, ou até mesmo o milho verde, e que não vão comprar sementes a R$ 120,00 o quilo, não há esse portfólio.
 
Revista Canavieiros: Então o IAC tem seu público-alvo definido?
Machado: Sim. As culturas em que a indústria não vai chegar como o citrus, amendoim, mandioca, batata e cana são o foco onde  devemos continuar.
O propósito é manter os programas que já são fortes hoje e fortalecer outros. E de que forma isso? Aumentando a massa crítica, a nossa infraestrutura para trabalhar e nos organizarmos.
 
Revista Canavieiros: Esse foco em mercado, em cadeia produtiva, não é antagônico se pegar a ilha que a produção científica ainda está quando analisados os resultados práticos de sua produção?
Machado: Isso não pode mais acontecer, o pesquisador entra hoje e faz o que ele quer. Não tem mais sentido isso, ele tem que trabalhar naquilo que a instituição precisa, que a agricultura e que os agricultores precisam.
Nós somos uma instituição tecnológica, e para fazer sentido tem que ser usada.  Nós não vamos ser usuários de nossas tecnologias, não vamos plantar laranja, cana, amendoim. Quem irá  plantar é o agricultor.
Desse ponto de vista essa parceria é muito promissora, porque com ela você estará recebendo sempre a demanda do campo, não é o produtor que acorda um dia e fala que acha que daqui dez anos a planta x vai ser a mais importante do mundo e então decide trabalhar com aquilo.
Na verdade, toda a pesquisa hoje vive um grande dilema: ou você produz para o produtor ou produz para você mesmo.
Infelizmente a segunda opção é estimulada pelo próprio sistema de educação brasileira. Como você é avaliado no CNPQ, Fapesp ou CAPS? É pela produtividade científica e não pelo resultado prático dela no mercado.
 
Revista Canavieiros: Então como trabalhar para atender os dois públicos, o universitário e o mercado?
Machado: Aqui no IAC nós estamos fazemos o serviço dobrado., Quando é só um acadêmico precisa do CNPQ, CAPS e Fapesp. Quando faz parte de uma área mais tecnológica (como o IAC), é focado no mercado, mas para ter o recurso de sua pesquisa liberado precisa fazer o jogo deles.
Então eu tenho que pensar na produção de publicação para poder receber recurso dessas instituições, porque elas estão estruturadas em cima desse modelo. E quem manda nessas agências são as universidades, sendo assim ou você se ajusta e faz da forma como elas querem, ou você não acessa o seu recurso, que é público, o qual teoricamente deveria ser distribuído para todo mundo.
Se chegar lá e mostrar que produziu 50 variedades que de certa maneira estão sendo utilizadas pelo setor produtivo, de nada vai valer.
Então em cima desse sistema acadêmico atual eu digo que nós trabalhamos dobrado, porque temos que seguir esse sistema e também trabalhar observando o mercado.
 
Revista Canavieiros: Como o senhor  enxerga a aproximação das startups com os centros de pesquisa? Onde será o posicionamento delas?
Machado: Eu as vejo como uma oportunidade, porque uma das grandes dificuldades da pesquisa é criar um relacionamento com o setor produtivo, acho que será o papel desse novo tipo de negócio.
Eles serão facilitadores da tecnologia desenvolvida por nós em ambiente produtivo.
São empreendedores que estão empenhados em destravar esse mecanismo, porque o pesquisador precisa trabalhar em desenvolvimento, não é administrador, não é gestor, não tem que trabalhar para a transferência, marketing e ainda atender o governo.
Enfim, as startups são a oportunidade para aumentar a transferência que consequentemente fortalecerá nosso trabalho, porque a pesquisa só ganha força quando passa a ser usada.
 
Revista Canavieiros:  Como o senhor enxerga os setores de cana e amendoim dentro do agronômico?
Machado: Embora não tenha construído minha carreira nessas duas áreas, eu conheço os problemas que enfrentam as duas culturas, sei da importância dos centros e do potencial que os dois programas têm para sobreviver.
Acho o programa de cana extremamente desafiante. Pela natureza da planta, ela exige uma coisa que o grupo tem que é conhecimento genético. O grupo entende de melhoramento da planta, entende de cultura, então cada vez mais acredito que a participação do Instituto será maior dentro do segmento.
Outro ponto é que se trata de um setor muito pulverizado, com centenas de usinas e milhares de produtores, enquanto no setor de citrus têm três indústrias e somente grandes produtores. São perfis completamente diferentes. Com isso temos a chance de fazer ensaios diferentes, em diferentes circunstâncias.
Tem também o fato que o programa foi pensado em trabalhar com as mudanças que a cultura passa. Antes havia uma maneira de colher e agora é outra, e o programa tem a dinâmica de se antecipar às mudanças.
O amendoim é o único programa que temos, uma cultura de extrema importância em algumas regiões do estado. É um programa que precisa ser ampliado. Além disso, é uma área que não tem muito competidor.  Tomara que outros entrem, pois quanto maior a diversidade melhor, dada a sua importância para o produtor. É diferente, por exemplo, de pegar o programa de hortaliças, onde há várias empresas desenvolvendo tecnologia para o setor, que suprem suas necessidades de novos cultivares. No amendoim não tem mais ninguém.
 
Revista Canavieiros: Como o senhor enxerga o IAC daqui a 20 anos?
Machado: Eu assumi a gestão agora, meu antecessor fez um trabalho excelente. Se deixassem nós trabalharmos do jeito que gostaríamos, acho que estaríamos muito lá na frente.
Quero dizer que estamos vendo uma estrutura, a de administração pública, que está muito complicada para se caminhar. Sendo assim, não adianta fazermos grandes planejamentos que dependem de aprovações superiores.
Eu, como diretor, tenho que estar ciente da visão do governo sobre o instituto para determinar o que é possível ser feito. Uma coisa que já sabemos é que não adianta planejarmos aqui e não combinarmos com o chefe.
Então estaremos empenhados nessa nova gestão em apresentar um plano de curto, médio e longo prazo, e mostrar aos superiores se eles querem fazer isso. Se sim, então é só dar  condição que iremos fazer.
O agronômico é uma instituição pública, pertence a Secretaria de Agricultura e Abastecimento, e sua sobrevivência e continuidade dependem do estado.  Claro que há o caminho das parcerias com as empresas, mas nós temos que ter diretrizes do estado.
Então imaginando daqui a 20 anos, acho que estaremos muito próximos desses centros estratégicos importantes, naqueles que o setor privado não atuará, e imagino que seja a mandioca, amendoim, milho varietal, trigo, cana, entre outros.
Vejo a instituição menor, porém muito mais eficiente. Imagino que teremos muita parceria externa, tem a questão do crescimento da relevância com as startups, que têm que crescer e assim conseguiremos nos mostrar mais para o nosso governo e para a sociedade.