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Crise deixa produtores de alcool apreensivos

31/03/2014 Cana-de-Açúcar POR: Zulmira Furbino e Marinella Castro | Jornal Estado de Minas - Belo Horizonte/MG
Nos 20 mil hectares de terra que formam a Associação dos Produtores de Cana-de-açúcar do Vale do São Simão, localizada em Santa Vitória, na ponta do Triângulo Mineiro, são plantadas anualmente 1,4 milhão de toneladas de cana. Ali, 42 produtores que atuam como fornecedores das usinas de produção de álcool e açúcar esperam pelo pagamento de uma dívida de cerca de R$ 10 milhões referente à produção das safras 2012 e 2013. Eles trabalham para o Grupo Energético do Vale do São Simão, pertencente ao Grupo Andrade. Outros 30 agricultores que atuam na região aguardam receber aproximadamente R$ 12 milhões pelo trabalho desenvolvido no mesmo período para a mesma usina. Com a inadimplência, a colheita da safra de 2014, que deveria começar em maio, está ameaçada. É que os produtores se recusam a entrar em campo sem o dinheiro no bolso. O clima é tenso.
 
O drama vivido pelos produtores de cana de Santa Vitória vem se repetindo Minas e Brasil afora. Segundo a Associação das Indústrias Sucroenergéticas de Minas Gerais (Siamig), só no estado, entre 2009 e 2013, seis usinas foram fechadas: Planalto (Araxá), Fronteira (Fronteira), Cepar (São Sebastião do Paraíso), Alcana (Nanuque), Santo Hipólito (Santo Hipólito) e Alpha (Cláudio). Juntas, essas usinas somavam 5 mil empregados e eram responsáveis por uma moagem de 3 milhões de toneladas de cana. Outras quatro usinas estão enfrentando sérias dificuldades em Minas. No Triângulo Mineiro, duas passam por recuperação judicial. Outras duas, uma no Sul de Minas e uma também no Triângulo, tentam refinanciamento junto aos bancos. As quatro correm o risco de não moer cana nessa safra, o que significa uma perda de 6 milhões de toneladas de cana. Entre elas, está o Grupo Energético do Vale do São Simão.
 
No Brasil, no mesmo período, 44 usinas foram fechadas e, neste ano, outras 12 não terão condição de moer cana. De acordo com a presidente da União da Indústria de Cana-de açúcar (Unica), Elizabeth Farina, a crise que se abateu sobre o setor foi iniciada em 2008, com o tsunami financeiro que começou nos Estados Unidos e, de lá para cá, apesar do avanço na produção de cana no país, a situação nunca mais voltou ao normal e as empresas passaram a registrar um endividamento crescente.
 
Endividadas Estudo do Banco Itaú BBA mostra que o endividamento do setor não para de crescer e atingiu a média de R$ 104 por tonelada de cana moída em 2012 e 2013, sendo o maior nível da história do setor. O autor do estudo, Alexandre Figliolino, diretor comercial para o agronegócio da instituição financeira, diz que a situação do setor é crítica. Além do impacto da estiagem, Figliolino aponta que a política de segurar os preços da gasolina, agravaram a crise do setor. "Os preços estão praticamente estáveis desde 2005." Entre 2006 e 2007, o etanol voltou a se tornar grande promessa brasileira, recebendo fortes aportes de investimentos, mas muitos não se concretizaram na medida do esperado.
 
Dividindo o setor pelo endividamento, Figliolino diz que um terço do segmento, formado por empresas de pequeno e grande portes, está em situação complicada de endividamento. "Em acelerado processo de deterioração."
 
Em Santa Vitória, município de 19,6 mil habitantes, o prefeito Genésio Franco Neto conta que desde a paralisação das atividades da Usina São Simão, no ano passado, a cidade amargou a demissão de 1.350 funcionários, quase 7% de sua população. "O maior passivo tem sido o social", diz o prefeito, que também ressalta a queda da arrecadação do ISS. Segundo ele, as contas públicas com a saúde municipal dobraram, uma vez que foram despejados no sistema grande contingente que antes fazia uso dos planos de saúde. "A usina está tentando um empréstimo. Nossa expectativa é de que ela volte a operar."
 
PREÇOS Mário Campos, presidente executivo da Siamig, lembra que os efeitos da crise de 2008 no setor foram agravados pela política do governo federal de manutenção dos preços da gasolina nas bombas. "Em 2011, a Cide (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico) era de R$ 0,28 por litro de gasolina. E hoje é zero. O governo deu aumento de gasolina na Petrobras e desonerou a Cide para que não houvesse elevação dos preços na bomba. Isso foi até 2012, quando a Cide foi efetivamente zerada", lembra. Por isso, segundo ele, o real impacto de preço da gasolina no setor sucroalcooleiro só ocorreu em janeiro de 2013 e depois em dezembro do ano passado. Segundo ele, como o preço da gasolina é estável, o do etanol acabou sendo fixado por tabela.
 
A reportagem do Estado de Minas tentou contato com o Grupo Andrade, mas não obteve retorno.