Do canavial direto para a caixinha

04/05/2016 Cana-de-Açúcar POR: Andréia Vital – Revista Canavieiros – Edição 118
Com uma história ligada ao setor canavieiro há décadas, as irmãs Ana Carolina Salles Leite Viseu e Ana Maria Leite decidiram inovar e oferecer ao mercado, de um modo prático, um produto muito apreciado, mas disponível somente em feiras livres ou locais específicos. Apaixonadas pela garapa e inconformadas de só poder bebê-la de vez em quando, investiram mais de três anos em pesquisas e no aprimoramento da qualidade da cana até chegar a uma forma de envasar a bebida para que todo mundo pudesse tomá-la sempre.
Assim nasceu a Acana, uma marca de bebida, que é feita com a cana-de-açúcar produzida na fazenda da família, a Santa Lourdes, localizada em São Carlos-SP, onde também fica a fábrica. 
Lançado em setembro de 2015, o caldo de cana na caixinha Tetra Pak vem ganhando as prateleiras internacionais, como as do Japão e também as nacionais, principalmente na capital paulista, sendo que as irmãs estimam faturar R$ 5 milhões, em 2016.
Revista Canavieiros - Caldo de cana-de-açúcar na caixinha. Como surgiu essa ideia?
Ana Carolina Salles Leite Viseu - Durante uma reunião familiar surgiu a ideia de envasarmos o caldo de cana para que pudéssemos tomar a todo momento.
A embalagem Tetra Pak surgiu como viabilidade de produção durante o processo de pesquisa, já que mantém a bebida protegida da luz, evitando sua oxidação e também permite abrir mão dos conservadores, uma vez que o envase é asséptico, logo após a pasteurização. Ou seja, não há risco de contaminação.
Revista Canavieiros - O setor sucroenergético vem há anos sofrendo crises. Quais foram os principais desafios e obstáculos enfrentados por vocês ao empreender neste segmento e em algo novo no mercado?
Ana Maria Leite - Enxergamos na bebida industrializada algo promissor justamente por agregar valor à cana-de-açúcar. Nosso principal desafio foi desenvolver um produto que não contivesse preservativos ou aditivos químicos, que ficasse o mais próximo do natural. Além disso, o fato de ser uma categoria de bebida completamente inovadora, temos também o desafio de educar nosso consumidor tanto em relação aos benefícios nutricionais, quanto ao próprio momento de consumo. Afinal, até agora, o caldo de cana só era possível nas feiras livres ou em alguns pontos de venda específicos.
Revista Canavieiros - Quanto foi investido no negócio?
Ana Carolina - Até agora, contando toda a parte da linha de produção e o desenvolvimento do produto foram cerca de R$ 2 milhões
Revista Canavieiros - Quais os impactos sociais desse empreendimento na região onde é produzido o produto? (Foram gerados quantos empregos? Ocorreu a capacitação de profissionais? Etc).
Ana Maria - A fábrica hoje trabalha em apenas um turno, empregando diretamente 6 pessoas e indiretamente (na lavoura), mais 10. A fazenda Santa Lourdes, localizada em São Carlos-SP, cultiva a cana-de-açúcar há mais de seis décadas, portanto, desenvolveu, ao logo dos anos processos e tecnologias próprias de plantio, colheita, seleção da cana e processamento.
Na fábrica, entretanto, houve sim capacitação de vários funcionários para trabalhar na moagem, na linha de produção e no controle de qualidade.
Revista Canavieiros - As exigências em relação à preservação do meio ambiente são cada vez maiores. A sustentabilidade está presente na produção dos seus produtos?
Ana Carolina - A fazenda Santa Lourdes conta com uma PCH (pequena central hidrelétrica) própria que gera energia limpa para a fábrica. Além disso, usa água de mina para a lavagem de toda a tubulação e limpeza geral das instalações. Essa água é tratada (com certificação) e reutilizada nas plantações. O bagaço da cana que sobra da sala de moagem é todo destinado à plantação da cana em forma de adubo e é também direcionado para alimentar o gado da propriedade.
Por fim, a palha da cana, descartada na colheita, segue para secagem e prensa na fábrica local de briquetes, as chamadas lenhas verdes, usadas em caldeiras e fornos. Sabemos o quão importante é devolver para a natureza o que dela tiramos e ter um uso consciente de todos esses recursos.
Revista Canavieiros - Vocês têm a expectativa de faturar R$ 5 milhões em 2016. Quais são as estratégias para conquistar esta margem?
Ana Maria - Estamos muito focadas no mercado internacional, agora que obtivemos as licenças para exportação e o registro no FDA (Food and Drug Administration - Estados Unidos). O mercado externo é muito receptivo para os produtos genuinamente brasileiros e, por isso, acreditamos que teremos sucesso nessa empreitada.
No mercado nacional, apesar da crise econômica pela qual passa o Brasil, conseguimos entrar na maioria dos grandes supermercados da Capital paulista e estamos planejando nossa ida para outras capitais e grandes cidades brasileiras. Estamos bastante otimistas por sermos pioneiros no caldo de cana envasado em caixinha.
Revista Canavieiros - Embora a participação das mulheres vem crescendo, ainda predomina no setor sucroenergético a ala masculina. Vocês sofreram preconceito nesse mercado por conta de serem profissionais mulheres?
Ana Carolina - Nosso terceiro sócio é um homem (nosso pai) e responsável pela plantação, portanto, nossa atuação tem sido mais nas áreas comercial, financeira, de marketing, exportação e produção. Nos setores mencionados não sentimos dificuldade pela questão do gênero. Temos uma equipe com muitas mulheres na fábrica, no escritório e de colaboradores externos, mas nossa escolha é pelo talento e pelas habilidades individuais, não por ser homem ou mulher.
Revista Canavieiros - A atuação da mulher é um exercício de conciliação profissional e pessoal. Como vocês lidam com isso?
Ana Maria - Claro que é bastante difícil essa conciliação. Temos filhos, somos casadas e temos uma vida profissional que exige muita energia, tem po e dedicação. Tudo isso sobrecarrega muito a rotina, mas, acreditamos que esse equilíbrio é uma conquista diária, em que vamos medindo de onde vem as maiores demandas para dedicar a atenção necessária. Nem sempre é possível atender a tudo e a todos, mas, o que realmente importa é não se cobrar a perfeição, pois isso não constrói nada.
Revista Canavieiros - Na sua opinião, o que faz as mulheres boas empreendedoras?
Ana Carolina - Difícil generalizar. Mais do que uma questão de gênero, o que interfere no bom desempenho é muito mais a competência, o perfil individual de uma pessoa e seu grau de comprometimento do que o fato de ser homem ou mulher. Entretanto, acho que as mulheres tendem a ser mais detalhistas e analíticas e isso pode trazer uma clareza benéfica dos cenários apresentados.
Revista Canavieiros - Quais são os planos para o futuro?
Ana Maria - Estamos muito focadas em exportar e expandir para o território nacional. Acabamos de colocar os pés no mercado, temos uma enorme lição de casa para fazer e muito trabalho pela frente ainda. O desafio de colocar no mercado algo totalmente inovador é bastante motivante e estamos muito felizes de termos chegado até aqui!
Revista Canavieiros - Deixem uma mensagem para as mulheres que desejam ser empreendedoras. 
Ana Maria - O mais importante é acreditar no seu produto e em si mesmas! Se isso acontece, a determinação e a força para empreender vêm quase que automaticamente!
Com uma história ligada ao setor canavieiro há décadas, as irmãs Ana Carolina Salles Leite Viseu e Ana Maria Leite decidiram inovar e oferecer ao mercado, de um modo prático, um produto muito apreciado, mas disponível somente em feiras livres ou locais específicos. Apaixonadas pela garapa e inconformadas de só poder bebê-la de vez em quando, investiram mais de três anos em pesquisas e no aprimoramento da qualidade da cana até chegar a uma forma de envasar a bebida para que todo mundo pudesse tomá-la sempre.
 
Assim nasceu a Acana, uma marca de bebida, que é feita com a cana-de-açúcar produzida na fazenda da família, a Santa Lourdes, localizada em São Carlos-SP, onde também fica a fábrica. 
 
Lançado em setembro de 2015, o caldo de cana na caixinha Tetra Pak vem ganhando as prateleiras internacionais, como as do Japão e também as nacionais, principalmente na capital paulista, sendo que as irmãs estimam faturar R$ 5 milhões, em 2016.
 
Revista Canavieiros - Caldo de cana-de-açúcar na caixinha. Como surgiu essa ideia?
 
Ana Carolina Salles Leite Viseu - Durante uma reunião familiar surgiu a ideia de envasarmos o caldo de cana para que pudéssemos tomar a todo momento.
 
A embalagem Tetra Pak surgiu como viabilidade de produção durante o processo de pesquisa, já que mantém a bebida protegida da luz, evitando sua oxidação e também permite abrir mão dos conservadores, uma vez que o envase é asséptico, logo após a pasteurização. Ou seja, não há risco de contaminação.
 
Revista Canavieiros - O setor sucroenergético vem há anos sofrendo crises. Quais foram os principais desafios e obstáculos enfrentados por vocês ao empreender neste segmento e em algo novo no mercado?
 
Ana Maria Leite - Enxergamos na bebida industrializada algo promissor justamente por agregar valor à cana-de-açúcar. Nosso principal desafio foi desenvolver um produto que não contivesse preservativos ou aditivos químicos, que ficasse o mais próximo do natural. Além disso, o fato de ser uma categoria de bebida completamente inovadora, temos também o desafio de educar nosso consumidor tanto em relação aos benefícios nutricionais, quanto ao próprio momento de consumo. Afinal, até agora, o caldo de cana só era possível nas feiras livres ou em alguns pontos de venda específicos.
 
 
Revista Canavieiros - Quanto foi investido no negócio?
 
Ana Carolina - Até agora, contando toda a parte da linha de produção e o desenvolvimento do produto foram cerca de R$ 2 milhões.
Revista Canavieiros - Quais os impactos sociais desse empreendimento na região onde é produzido o produto? (Foram gerados quantos empregos? Ocorreu a capacitação de profissionais? Etc).
 
Ana Maria - A fábrica hoje trabalha em apenas um turno, empregando diretamente 6 pessoas e indiretamente (na lavoura), mais 10. A fazenda Santa Lourdes, localizada em São Carlos-SP, cultiva a cana-de-açúcar há mais de seis décadas, portanto, desenvolveu, ao logo dos anos processos e tecnologias próprias de plantio, colheita, seleção da cana e processamento.

 
Na fábrica, entretanto, houve sim capacitação de vários funcionários para trabalhar na moagem, na linha de produção e no controle de qualidade.
 
Revista Canavieiros - As exigências em relação à preservação do meio ambiente são cada vez maiores. A sustentabilidade está presente na produção dos seus produtos?
 
Ana Carolina - A fazenda Santa Lourdes conta com uma PCH (pequena central hidrelétrica) própria que gera energia limpa para a fábrica. Além disso, usa água de mina para a lavagem de toda a tubulação e limpeza geral das instalações. Essa água é tratada (com certificação) e reutilizada nas plantações. O bagaço da cana que sobra da sala de moagem é todo destinado à plantação da cana em forma de adubo e é também direcionado para alimentar o gado da propriedade.

 
Por fim, a palha da cana, descartada na colheita, segue para secagem e prensa na fábrica local de briquetes, as chamadas lenhas verdes, usadas em caldeiras e fornos. Sabemos o quão importante é devolver para a natureza o que dela tiramos e ter um uso consciente de todos esses recursos.
 
 
Revista Canavieiros - Vocês têm a expectativa de faturar R$ 5 milhões em 2016. Quais são as estratégias para conquistar esta margem?
Ana Maria - Estamos muito focadas no mercado internacional, agora que obtivemos as licenças para exportação e o registro no FDA (Food and Drug Administration - Estados Unidos). O mercado externo é muito receptivo para os produtos genuinamente brasileiros e, por isso, acreditamos que teremos sucesso nessa empreitada.
 
 
No mercado nacional, apesar da crise econômica pela qual passa o Brasil, conseguimos entrar na maioria dos grandes supermercados da Capital paulista e estamos planejando nossa ida para outras capitais e grandes cidades brasileiras. Estamos bastante otimistas por sermos pioneiros no caldo de cana envasado em caixinha.
 
Revista Canavieiros - Embora a participação das mulheres vem crescendo, ainda predomina no setor sucroenergético a ala masculina. Vocês sofreram preconceito nesse mercado por conta de serem profissionais mulheres?
 
Ana Carolina - Nosso terceiro sócio é um homem (nosso pai) e responsável pela plantação, portanto, nossa atuação tem sido mais nas áreas comercial, financeira, de marketing, exportação e produção. Nos setores mencionados não sentimos dificuldade pela questão do gênero. Temos uma equipe com muitas mulheres na fábrica, no escritório e de colaboradores externos, mas nossa escolha é pelo talento e pelas habilidades individuais, não por ser homem ou mulher.
 
 
Revista Canavieiros - A atuação da mulher é um exercício de conciliação profissional e pessoal. Como vocês lidam com isso?
 
Ana Maria - Claro que é bastante difícil essa conciliação. Temos filhos, somos casadas e temos uma vida profissional que exige muita energia, tem po e dedicação. Tudo isso sobrecarrega muito a rotina, mas, acreditamos que esse equilíbrio é uma conquista diária, em que vamos medindo de onde vem as maiores demandas para dedicar a atenção necessária. Nem sempre é possível atender a tudo e a todos, mas, o que realmente importa é não se cobrar a perfeição, pois isso não constrói nada.
 
 
Revista Canavieiros - Na sua opinião, o que faz as mulheres boas empreendedoras?
 
Ana Carolina - Difícil generalizar. Mais do que uma questão de gênero, o que interfere no bom desempenho é muito mais a competência, o perfil individual de uma pessoa e seu grau de comprometimento do que o fato de ser homem ou mulher. Entretanto, acho que as mulheres tendem a ser mais detalhistas e analíticas e isso pode trazer uma clareza benéfica dos cenários apresentados.
 
Revista Canavieiros - Quais são os planos para o futuro?
 
Ana Maria - Estamos muito focadas em exportar e expandir para o território nacional. Acabamos de colocar os pés no mercado, temos uma enorme lição de casa para fazer e muito trabalho pela frente ainda. O desafio de colocar no mercado algo totalmente inovador é bastante motivante e estamos muito felizes de termos chegado até aqui!
 
Revista Canavieiros - Deixem uma mensagem para as mulheres que desejam ser empreendedoras. 

 
Ana Maria - O mais importante é acreditar no seu produto e em si mesmas! Se isso acontece, a determinação e a força para empreender vêm quase que automaticamente!