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Estoques de Etanol Caem Rapidamente

04/04/2019 Colunista POR: Revista Canavieiros
*Marcos Fava Neves

Reflexões dos Fatos e Números do Agro

A nova estimativa (março) da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) é de 233,3 milhões de toneladas, acima da safra 2017/18 (227,7 milhões de toneladas), mas praticamente 1 milhão de toneladas abaixo da estimativa de fevereiro. O tombo principal foi na soja, onde eram esperados 120 milhões e devemos ter 113,5 milhões (safra passada foi de 119,3 milhões). Na soja, pela Abiove (Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais), produziremos em 2018/19 116,9 milhões de toneladas, 1 milhão a menos que o estimado em janeiro. A exportação se mantém em 70,1 milhões de toneladas.

O agro exportou em fevereiro US$ 7,2 bilhões, crescimento de 15,6% comparado com o mesmo mês de 2018. As importações também cresceram quase 10,5% e chegaram a US$ 1,2 bilhão. O superávit do agro cresceu 16,5% em fevereiro, atingindo US$ 6 bilhões. Só de soja foram US$ 2,21 bilhões, o dobro em relação ao ano passado. Pelos dados do Mapa (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento) , as carnes atingiram US$ 1,1 bilhão, quase 5% a mais. O café também cresceu 10,4%, atingindo US$ 452,3 milhões. Quem caiu foi o complexo sucroalcooleiro (açúcar e etanol), um total de 22,8% trazendo US$ 425,7 milhões.

Desde o início de 2019, exportamos 10,6 milhões de toneladas somando soja, farelo e óleo, quase 50% a mais que o mesmo período de 2018, trazendo US$ 3,9 bilhões, que representam 44,4% a mais. Os preços estão cerca de 3% menores. A China comprou quase 33% de tudo o que foi exportado, um total de US$ 2,3 bilhões, 77,2% a mais que fevereiro de 2018. Mesmo comprando 18% a menos de soja em fevereiro do Brasil, a China comprou mais de 5 milhões de toneladas, 134% a mais que fevereiro de 2018. Nos dois primeiros meses do ano vendemos 7 milhões de toneladas, o dobro das quase 3,5 milhões de 2018. Com isto entraram no Brasil US$ 2,5 bilhões, quase o dobro também do US$ 1,3 bilhão de 2018.

Seguimos receosos com o que pode significar um acordo entre EUA e China e os impactos na área agrícola. Em artigo, Marcos S. Jank estima que a China pode aumentar as compras de produtos agro dos EUA em mais US$ 30 bilhões anuais, podendo atingir com o que já era importado, quase US$ 50 milhões. Entre os produtos que a China poderia oferecer mais acesso aos EUA estão milho e algodão, além do etanol de milho e o DDG (subproduto). Nestes produtos, Jank estima US$ 10 bilhões adicionais por ano. Aí viriam as carnes, aves, suínos e bovinos. Temos que acompanhar. Minha hipótese é a de que haveria, num primeiro momento, trocas de canais, pois a produção americana que iria para a China seria redirecionada em parte de outros mercados compradores.

O milho teve ligeira alta no período com boas surpresas nas demandas do mercado interno e externo puxados principalmente pelas carnes. Desde janeiro subiu já 12% no porto. Em fevereiro, exportamos 1,7 milhão de toneladas, contra 1,2 no mesmo mês de 2018, ajudando a diminuir os estoques. Precisamos realmente que o clima ajude para que a segunda safra estimada em 12,5 milhões de hectares possa abastecer bem todas as demandas. Por enquanto vem sendo muito bom, e que assim continue. Segundo o Imea (Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária), o plantio no MS foi concluído com quase 96% plantados na melhor janela. Já no MS, o milho para entrega em julho está sendo vendido a R$ 20/saca, 9% abaixo de janeiro.

Nos preços mundiais das commodities (índice de preços da FAO), o indicador subiu 1,7% em relação a janeiro, mas está 2,3% abaixo de fevereiro de 2018. Neste mês quem ajudou a subida foram os lácteos. Nas principais commodities exportadas pelo Brasil houve pouca variação.

Nossa produção de grãos, quando se analisa o período de 1975 até 2017 pulou de pouco mais de 40 milhões de toneladas para quase 240 milhões. A produtividade cresceu 3,43% ao ano, graças à abertura comercial, tecnologia, mecanização, educação, profissionalização, crédito, pesquisa, empreendedorismo, diversificação da produção e integração de lavouras. Neste mesmo período, as carnes tiveram incrível salto: frango foi de 370 mil para 13,5 milhões de toneladas, suínos de 500 mil para quase 4 milhões, e bovina de 1,8 para 7,7 milhões de toneladas.

Os preços da soja nos portos ao redor de R$ 79/saca e R$ 72 nas cooperativas.

Ainda sem sabermos, mas devem ser muito positivos ao Brasil os impactos da peste suína africana na produção chinesa. Houve já vigoroso crescimento dos preços de exportação. A oferta chinesa em janeiro foi 12% menor, com queda de venda de rações.  Com o final do embargo russo, a expectativa é boa para o setor, com preços por tonelada passando de US$ 2.500 e podendo chegar a US$ 3.000/t. O crescimento também foi observado em outras carnes e, pela primeira vez, a China foi o maior comprador de frango do Brasil, segundo a ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal).
 
Reflexões dos Fatos e Números da Cana
 
  • De acordo com a Sucden, a próxima safra deverá ter 564,55 milhões de toneladas de cana e serão produzidas  27,16 milhões de toneladas de açúcar e 28,55 bilhões de litros de etanol. A atual, segundo a empresa, deve fechar em 572,69 milhões de toneladas e produção de 26,57 milhões de toneladas de açúcar e 30,1 bilhões de litros de etanol. Acredita em déficit mundial de 4 milhões de toneladas no açúcar.
  • A Agroconsult estima a moagem 2019/20 em 575 milhões de toneladas (0,8% a mais), com 63% destinados a etanol. Com isto, produziremos 28,7 bilhão de litros (6% a menos) e 28,8 milhões de toneladas de açúcar (9% a mais).
  • Pela Datagro serão moídas 583 milhões de toneladas no Centro-Sul na safra 2019/20, e comparando-se com a atual safra (570 milhões) é 2,3% a mais. A produtividade deve crescer 2% e 38,8% desta cana destinada a açúcar produzindo 29,7 milhões de toneladas (3 milhões acima da atual). No etanol estimam 30,2 bilhões de litros (1,15 bilhão vindos do milho). Com isto perderíamos 2,7 bilhões de litros em relação à safra atual.
 
Reflexões dos Fatos e Números do Açúcar
  • Continua o Brasil solicitando à China abertura no mercado do açúcar em 3 milhões de toneladas para evitar que entremos na OMC contra a mesma. A salvaguarda vem desde o início de 2017, onde 15% é cobrado numa cota de 1,95 milhão de toneladas, mas o que passar disto foi para 95%. Perdemos muito mercado na China, onde chegamos a ter mais de 50% do total importado, e esta perda foi de mais de 2 milhões de toneladas/ano graças a isto.
  • Tivemos um mês de pouca novidade neste mercado, andou de lado.
Reflexões dos Fatos e Números do Etanol e Energia
  • Já reagindo à melhoria do cenário econômico no Brasil, em janeiro as vendas de combustíveis para carros cresceram 1,5%, com o hidratado (dados da ANP) crescendo mais de 34% (total de 1,85 bilhão de litros) quando comparado a janeiro do ano passado, chegando a 1,85 bilhão de litros e com isto derrubando o consumo de gasolina em quase 8%. Em 2018 o hidratado cresceu 42%. Segundo o Cepea, em fevereiro as vendas de etanol hidratado foram 62% maiores ao preço médio de 1,7345/litro, 8,6% maior que janeiro. Já o anidro teve média de R$ 1,8061/litro (1,27% maior).
  • Nos dados da Unica (União da Indústria de Cana-de-açúcar), em fevereiro as usinas venderam 1,7 bilhão de litros de etanol hidratado (quase 47% acima de janeiro). É um recorde para o mês. Na atual safra que termina agora em março, as usinas venderam 36% a mais, totalizando 19,2 bilhões de litros. Interessante, pois este consumo está abaixando rapidamente os elevados estoques e podemos ter atraso para iniciar a safra devido às chuvas.
  • Recente pesquisa do BCG (Boston Consulting Group) feito para a Plural aponta serem necessários investimentos de R$ 82 bilhões tanto na produção como na infraestrutura para atender à demanda de combustíveis em 10 anos. Destes, cerca de R$ 38,5 bilhões para a produção de biocombustíveis. O estudo considerou um crescimento de 2,5% ao ano para o Brasil. Aponta também a necessidade de simplificação tributária e combate à sonegação, estimada em cerca de R$ 5 bilhões. Desta, a Plural acredita que R$ 3,8 bilhões são em etanol e 80% em São Paulo e ainda que de 5 a 20% do combustível é adulterado. Além da uniformização do ICMS e simplificação, recomenda-se menor concentração na produção e refino de combustíveis.
  • A Unem (União Nacional do Etanol de Milho) acredita que o etanol de milho do Centro-Oeste pode abastecer as necessidades do Nordeste com melhorias na logística, competindo com o etanol americano. O investimento seria na estrada que liga a região produtora ao porto fluvial de Miritituba, no Pará. Entraram no Brasil, vindos dos EUA, quase 500 milhões de galões em 2018. Devemos produzir 1,4 bilhão de litros de etanol de milho em 2019, contra os 840 milhões produzidos em 2018. Devemos ter boa segunda safra de milho neste ano, que ajudará a produção de etanol.
  • Acredita-se que algo entre 60 a 70% das metas de redução de emissão de gases do efeito estufa do RenovaBio que começam em 2020 serão feitas por BR (Petrobras), Raízen (Cosan e Shell) e Ipiranga (Grupo Ultra), que terão os créditos gerados pelos produtores (dados da consultoria Green Domus ao Valor).
 
 
Finalizando... qual seria a minha estratégia com base nos fatos?
 
  • O que observar agora em março/abril: Torcer para continuar um consumo grande de etanol hidratado para derrubar os estoques e começar a safra com perspectivas melhores. Com a ligeira subida do petróleo e da gasolina, podemos arrancar a safra com bons preços do etanol e mix indo para o combustível e, com isto, ajudar a tirar mais açúcar do mercado e contribuir para empurrar os preços para cima. Estou acreditando em alta.
 
?         Quem é o homenageado do mês?
 
?         Desta vez nossa singela homenagem vai ao amigo Jaime Stupiello, com quem jogava bola na rua Pedro Chiarini em Piracicaba, nos anos 80, e que depois de quase 30 anos de uma belíssima carreira em uma única empresa, decide tomar novos passos. Jaiminho cumpriu missão vitoriosa na cana!
 
Haja Limão
?         Mais um ex-presidente do Brasil foi para a cadeia. Que triste para nossa sociedade.
 
*Marcos Fava Neves é Professor Titular (em tempo parcial) das Faculdades de Administração da USP em Ribeirão Preto e da FGV em São Paulo, especialista em planejamento estratégico do agronegócio. Confira textos, vídeos e outros materiais no site doutoragro.com