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Impactos da Covid-19 no setor sucroenergético e os desafios no manejo de plantas daninhas na época seca

29/07/2020 Colunista POR: *Roberto Toledo / **Bárbara Copetti / ***Diego Alonso / ****Edson Mattos

A safra 2020/21 de cana começou com um sentimento de grande otimismo por parte das usinas e produtores de açúcar, etanol e energia. No entanto, a pandemia que assola o mundo está fazendo que os números não sejam tão promissores quanto o esperado. As restrições e o isolamento social derrubaram a demanda por combustíveis e, associados à maior queda da história no preço do petróleo, devido à política externa, provocaram uma elevada desvalorização do preço do etanol nas usinas.

O impacto da Covid-19 nas operações das usinas é significativo, devendo resultar em redução da produção de etanol para 25 bilhões de litros, ou seja, - 24% em relação aos níveis da safra 2019/2020, segundo informações do Pecege (Programa de Educação Continuada em Economia e Gestão de Empresas) da Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz) da USP. Embora o setor sucroenergético possa alterar o mix de produção para mais açúcar (espera-se o aumento de 35% para 45% desse mix), a redução na oferta de etanol pode não ser a solução, pois a crise econômica e a queda na renda da população poderão impactar também na demanda pelo açúcar. Ainda, o setor pode sofrer com problemas logísticos na exportação do açúcar. Nesse cenário, é comum que se inicie uma pressão para a redução dos custos de produção, iniciando, dessa forma, o corte dos custos de operações, dentre elas as de tratos culturais, principalmente a aplicação de herbicida na soca seca, momento em que estamos agora. No entanto, optar por esse corte, ou mesmo pela redução de doses de herbicida no canavial, não é a melhor saída, uma vez que a interferência de plantas daninhas na cultura poderá causar queda de até 80% na produtividade, afetar a qualidade da matéria-prima e diminuir a longevidade do canavial (3 a 5 cortes viáveis em média). Além disso, tal decisão pode aumentar os custos de produção em aproximadamente 30% para cana-soca e entre 15 a 20% para cana-planta. Dessa forma, para superar os impactos negativos da pandemia, o primeiro passo é definir e executar um bom planejamento estratégico para reduzir as perdas da cultura, adotando práticas inteligentes de gestão de custos e que otimizem processos e operações agrícolas. Nesse sentido, é necessário trabalhar com herbicidas específicos, com bom custo-benefício e longo período residual de controle. Em função da redução inicial de algumas plantas daninhas após a colheita da cana-de-açúcar – quando a quantidade de palha sobre o solo atinge o nível máximo e há limitação de água – , pode haver uma falsa impressão de que, em áreas de cana crua, o manejo poderá ser mais simples ou até mesmo suprimido somente com o uso de herbicidas pós-emergentes.

Contudo, nas épocas secas, a manipulação é muito mais complexa, sendo necessário definir programas com excelente dinâmica, alta tolerância e longo residual para o controle de plantas daninhas. A aplicação de herbicidas pré-emergentes no período deve ser criteriosamente estudada e planejada, para não haver perda de eficácia e para que, na transição para a época úmida, não haja a lixiviação dos produtos para fora da região de germinação do banco de sementes.

A interceptação dos herbicidas pela palha de cana-de-açúcar na superfície do solo tem sido motivo de grande preocupação dos supervisores e técnicos das usinas e de grandes fornecedores. A retenção expõe o herbicida a condições extremas de temperatura e luz e favorece os processos de perdas como fotodegradação (fotólises e fotodecomposição) e volatilização (no caso dos voláteis). Isso acontece até que ocorram chuvas com intensidade e duração suficientes para que parte deste herbicida seja lixiviado e atinja o solo para, posteriormente, ficar disponível para exercer a sua ação de controle.

Alguns herbicidas presentes no mercado apresentam alta solubilidade em água, baixa retenção (sorção) no solo e boa facilidade de transpor a palha (relacionada ao Kow), podendo ser recomendados para aplicação em época seca em cana crua. Dentre esses herbicidas, sulfentrazone, amicarbazone, imazapic, isoxaflutole e tebuthiurom são moléculas bastante utilizadas na prática. Porém, a eficácia do manejo será influenciada fortemente por fatores como quantidade de palha de cana presente na superfície do solo, capacidade de tolerância do herbicida em longos períodos de seca e habilidade dele em transpor a palha com quantidades mínimas de chuva.

Dessa forma, a melhor opção é optar por herbicidas com formulações inovadoras e próprias para a agricultura brasileira, que permitam maior uniformidade e deposição dos produtos durante a aplicação, a fim de reduzir as perdas significativas de herbicidas em palha. Com essas estratégias, o produtor poderá atingir todo o potencial produtivo do canavial, proteger os investimentos devidamente planejados e realizados na implantação e otimizar processos e operações agrícolas, garantindo a longevidade do canavial e a competividade do setor, superando os impactos da Covid-19 na economia global.

* Roberto Toledo, gerente de Produtos Herbicidas, Gestão de Projetos, Inovação e Prospecção da Ourofino Agrociência

** Bárbara Copetti, especialista de Desenvolvimento de Produto e Mercado Cana-de-açúcar da Ourofino Agrociência

*** Diego Alonso, especialista de Desenvolvimento de Produto e Mercado Paraná da Ourofino Agrociência

**** Edson Mattos, gerente de Pesquisa em Herbicidas da Ourofino Agrociência.