Em dezembro começa em todo o estado de São Paulo a entressafra da colheita da cana-de-açúcar que vai até o início de março. Durante este período, principalmente com a chegada do verão, começam também as chuvas, e é muito importante que as usinas não deixem resíduos no campo como torta de filtro e vinhaça, pois as larvas das moscas-dos-estábulos estão por ali e basta voltar a umidade para que elas renasçam, causando os surtos. Então é preciso estar atento. É hora também dos pecuaristas, principalmente de gado leiteiro, fazerem o dever de casa com a limpeza das áreas, dos confinamentos, não deixando matéria orgânica em decomposição, evitando os resíduos e o esterco, locais ideais para a proliferação das moscas dos estábulos. A reportagem da Revista Canavieiros conversou com a bióloga mestre em meio ambiente, especializada em controle e monitoramento da mosca-dos-estábulos, Taciany Ferreira de Souza, que falou como tem sido feito os trabalhos e os avanços junto as usinas e pecuaristas no sentido em relação a essa praga que causa grandes prejuízos econômicos.
Revista Canavieiros: Os primeiros relatos de ocorrência da mosca-dos-estábulos foram em 2008. Desde então, o que tem sido feito para mitigar os casos?
Taciany: Com o passar dos anos, pesquisas foram realizadas e significativos avanços no conhecimento técnico
estão sendo adquiridos para solucionar o surto da moscados- estábulos no país. A divulgação das informações de manejo preventivo e monitoramento do inseto passaram a ser mais frequentes, possibilitando assim que produtores pecuários e indústrias sucroenergéticas adotem novas medidas de controle em suas áreas, inclusive em estreitar o diálogo entre os grupos afetados com o intuito de alertar sobre os riscos e desenvolver ações em parcerias. Além disso, os sindicatos rurais, associações representativas do setor de bioenergia, instituições de pesquisas, órgãos competentes e profissionais especializados na área passaram a atuar de forma mais efetiva na orientação para mitigar a proliferação da mosca-dos-estábulos.
Revista Canavieiros: O que a mosca-dos-estábulos pode representar para a usina e para os pecuaristas?
Taciany: A mosca-dos-estábulos representa um risco de prejuízo potencial tanto para os pecuaristas quanto para usinas, pois é uma praga de alta capacidade de adaptação ao meio ambiente e que permanecerá por anos. Entretanto, através do trabalho que desenvolvemos com as usinas e os pecuaristas adjacentes, hoje sabemos claramente que é possível atingir um nível de convivência com essa praga, mas para que isso ocorra, é fundamental a realização do monitoramento populacional para estabelecer um plano de ação eficiente e de menor custo.
Revista Canavieiros: Quais são os manejos equivocados ou ações que o pecuarista ou usinas tomam dentro da propriedade que podem contribuir para a presença da mosca?
Taciany: A convivência com a mosca-dos-estábulos é possível quando um conjunto de ações são realizadas de forma simultânea e recorrente, tanto nas áreas de aplicação dos subprodutos orgânicos (vinhaça e torta de filtro) da usina quanto nas instalações pecuárias dos estabelecimentos do entorno. Embora o manejo recomendado seja simples, requer qualidade operacional e tempo adequado para sua execução. Dentre os principais equívocos observados no meu dia a dia de atendimento aos pecuaristas, destacam-se a aplicação de produtos inseticidas nos animais indiscriminadamente, o que pode contribuir para a resistência da praga e demais insetos, dificultando ainda mais o controle, além do risco de intoxicação dos animais e contaminação dos seus derivados. Cabe ressaltar que devido o comportamento biológico da mosca-dos-estábulos, o controle nos animais se torna mais difícil, sendo mais eficiente o manejo adequado dos resíduos orgânicos (restos alimentares e dejetos), pois não basta realizar a remoção e deixar amontoado a céu aberto. O material orgânico deve ser removido semanalmente das instalações pecuárias e depositado em local que possa ser mantido coberto por lona ou devidamente compostado para ser utilizado como adubo em pastagens, hortas, entre outros. Em relação as usinas, é comum que haja uma mobilização quanto as ações de manejo dos subprodutos apenas quando há ocorrência de surtos e reclamações dos pecuaristas adjacentes. Outro equívoco está relacionado ao tempo e a qualidade operacional das ações que influenciam diretamente no sucesso do controle da mosca-dos-estábulos, caso contrário, a usina tem elevados custos sem controle efetivo.
Revista Canavieiros: Por favor, poderia falar sobre o mapa de calor para monitoramento da mosca-dos-estábulos?
Taciany: O mapa de calor é uma ferramenta que permite identificar os locais de maior incidência da mosca-dos-estábulos para que haja direcionamento estratégico das ações de prevenção de surtos. Ele é elaborado a partir dos dados de captura da praga através das armadilhas de monitoramento instaladas em pontos estratégicos nos ambientes de maior potencial de atratividade e reprodução. O objetivo de ter desenvolvido essa tecnologia de monitoramento foi de permitir um maior conhecimento e acompanhamento periódico da flutuação populacional da mosca-dos-estábulos para elaboração de um plano de ação compatível a realidade de cada usina. Além disso, o acompanhamento remoto da nossa equipe junto aos nossos clientes proporciona um constante alinhamento técnico que gera resultados satisfatórios no campo com menor custo. Os gestores das usinas dizem se sentir confortáveis pelo acompanhamento periódico dos alertas enviados pela equipe devido a previsibilidade de aumento populacional nas áreas de maior vulnerabilidade e, assim, poderem agir de forma rápida e pontual.
Revista Canavieiros: Até que ponto a seca e a geada impactaram sobre a larva e sobre os ovos da mosca-dos-estábulos? O que você espera para depois desse período de seca e quais os cuidados que as usinas e produtores devem ter para que não ocorra grande infestação?
Taciany: O período seco e a ocorrência de geada são fatores ambientais que podem ocasionar a mortalidade da mosca-dos-estábulos. Pesquisas sobre o impacto da geada na biologia dessa praga ainda são escassas no país, porém os dados do monitoramento populacional de algumas usinas que atuamos nos permitiu evidenciar uma redução superior a 80% da captura da mosca-dos-estábulos na fase adulta nas cinco semanas subsequentes ao episódio de geada. Analisando o comportamento biológico dos imaturos (ovos, larvas e pupas), acredito que as fases de ovo e pupa são mais afetadas por ficar na parte mais superficial do substrato, enquanto a larva, por apresentar mobilidade, pode se aprofundar e ficar mais protegida do efeito da geada. Deste modo, acredito que o impacto da geada poderá variar em virtude do tempo de permanência e densidade da palhada. Cabe salientar que o desenvolvimento favorável das larvas depende da temperatura entre 15ºC e 30ºC e da presença de umidade elevada. Ao considerar as áreas de aplicação de vinhaça por aspersão em cana soca como ambiente de reprodução, a vinhaça aplicada em maior volume favorece a umidade da palhada por maior tempo, e consequentemente, um substrato propício para a mosca-dos-estábulos, corroborando com os registros de surtos mesmo em período de seca em algumas usinas da região Centro-Oeste do país. De modo geral, a condição atípica de geada e seca no decorrer desse ano favoreceu, em algumas regiões a manutenção das populações da praga em nível aceitável, principalmente nas usinas e propriedades pecuárias que realizaram um melhor manejo dos materiais orgânicos gerados nos respectivos sistemas de produção. Apesar disso, no período chuvoso a atenção quanto a realização das boas práticas de manejo deve ser redobrada, por ser um período mais favorável a biologia da praga.
Revista Canavieiros: No campo, como deve ser feita a distribuição da vinhaça no sentido de evitar a multiplicação da mosca-dos-estábulos?
Taciany: As áreas de aplicação de vinhaça por aspersão em cana soca apresentam maior potencial de atratividade e formação de ambiente propício a reprodução da mosca-dosestábulos. Deste modo, as usinas devem ficar atentas quanto a uniformidade na aplicação da vinhaça nas lavouras, principalmente quando há necessidade de aplicação de lâmina de maior volume para atendimento ao PAV (Plano de Aplicação da Vinhaça). Dentre as boas práticas de manejo para reduzir os riscos de proliferação da mosca nas lavouras destacam-se:
Para auxiliar nossos clientes no melhor manejo da vinhaça, além dos mapas de calor gerados pelo sistema de monitoramento populacional, utilizamos outras ferramentas tecnológicas que nos permite diagnosticar as principais falhas que podem acarretar na formação de focos potenciais de reprodução da praga. Deste modo, a equipe da usina atua diretamente nas principais causas que compromete a qualidade do manejo da vinhaça, tornando o trabalho preventivo mais eficiente, além de favorecer no aumento de produtividade do canavial.
Revista Canavieiros: Qual o prejuízo anual causado pela mosca-dos-estábulos, pode chegar a quanto?
Taciany: Para os produtores pecuários no Brasil o prejuízo é estimado em US$335 milhões de dólares, representado por danos de 20-30% na perda de ganho de peso e até 60% na perda de produção de leite. Dentre os impactos causados aos rebanhos bovinos, destacam-se as alterações comportamentais dos animais que levam à diminuição da ingestão de alimentos, emagrecimento e queda da imunidade, proporcionando maior exposição à transmissão de doenças como tripanossomose. Os valores estimados não consideraram os efeitos diretos e indiretos decorrentes dos surtos ocorridos nos últimos anos. Para as usinas, os maiores prejuízos estão atrelados a falta de conhecimento técnico para realização de boas práticas de manejo preventiva, deixando para atuar em condições de surtos em que a gestão se torna mais difícil e onerosa. Os custos são inerentes ao tamanho da área, aos recursos disponíveis para realização das boas práticas de manejo e comprometimento da equipe. Quando iniciamos o trabalho de consultoria e assessoria, desenvolvemos um planejamento estratégico que passa por adequações no decorrer dos anos e que permite atingir um nível de convivência com a mosca-dos-estábulos.
Revista Canavieiros: A união entre pesquisa, defesa e extensão tem permitido um trabalho mais amplo em relação a mosca-dos-estábulos?
Taciany: No estado de São Paulo como exemplo, onde houve a formação de um grupo composto por pesquisadores, especialistas e técnicos da defesa e extensão que subsidiaram a elaboração da Resolução SAA 38, de 03 de julho de 2017, o agrupamento destas classes propiciou importantes avanços junto aos setores envolvidos. A atuação da defesa e extensão permitiu uma disseminação do conhecimento e reforçou as principais necessidades do constante manejo para mitigar surtos e danos aos animais. Os avanços obtidos ao longo dos anos permitiram a efetivação do trabalho de forma mais ampla e assertiva, porém novos estudos relacionados aos métodos de controle, produtos químicos e biológicos, são fundamentais para trazer novas alternativas para o Manejo Integrado da mosca-dos-estábulos.
Revista Canavieiros: Atualmente você atende mais de 30 usinas, poderia falar sobre o trabalho que desenvolve?
Taciany: A tuo e m u sinas localizadas e m M S, G O, MG e SP, estes são considerados os principais estados onde há registros de surtos da mosca-dos-estábulos no país. O escopo de atendimento que realizamos envolveprincipalmente palestras de orientação aos pecuaristas, treinamentos das equipes de campo e gestores, visitas técnicas, sistema de monitoramento populacional, ferramentas tecnológicas para avaliação da qualidade de manejo da vinhaça e elaboração de laudos e relatórios técnicos. Atuamos constantemente em pesquisase testes a campo que fomentam novas alternativas de controle e inovação tecnológica para melhores resultados aos nossos clientes. Nosso escopo de atendimento além de gerar resultados em nível de convivência com a praga, também tem promovido mudança de conceito de manejo da vinhaça e oportunidades de melhorias operacionais que impactam em importantes benefícios ambientais e agrícolas.
*Taciany Ferreira de Souza* é Bióloga. Mestre em Meio Ambiente. Doutora em Ciência Animal pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul em parceria com a Embrapa Gado de Corte, dando ênfase no monitoramento populacional de moscados-estábulos em usina e propriedades pecuárias adjacentes. Atualmente, proprietária e responsável técnica pela empresa Volare Consultoria Ambiental Ltda, especializada em controle e monitoramento da moscados estábulos.