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Não dá para plantar farinha seca em todo lugar

22/11/2019 Meio Ambiente POR: Marino Guerra
Não dá para plantar farinha seca em todo lugar

É preciso fazer um diagnóstico preciso da área a fim de escolher as espécies realmente nativas

Um dos principais assuntos discutidos ao longo do Workshop sobre Recuperação de Vegetação Nativa foi o diagnóstico correto da mata. Tema que, para quem está longe da matéria parece fácil, contudo ganha relevância ao aumentar o zoom do mapa (no interior de São Paulo e Triângulo Mineiro) e perceber como os dois principais biomas (Mata Atlântica e Cerrado) têm transições complexas, podendo até um estar ao lado do outro na mesma fazenda.

Em cima desse assunto, o biólogo e doutor em botânica, Rodrigo Polisel, realizou uma importante palestra no primeiro dia do evento, relatando o quanto é complexa a identificação da vegetação no Estado de São Paulo com um mapa de 1900.

Nele, é evidenciado que a faixa das regiões litorâneas (Registro, Baixada Santista, Grande São Paulo e São José dos Campos) era dominada por Floresta Atlântica (a tradicional), mudando apenas na região central do Vale do Paraíba e no miolo da Capital, onde surgem pequenas concentrações de cerrado.

A partir das regiões de Campinas e Sorocaba, a paisagem muda para Atlântica Semicidual (conhecida como floresta caipira), Mata de Transição e Cerrado. Onde as duas últimas são predominantes numa faixa média que desce (sentido sul) desde a região de Franca, passando por Barretos, Ribeirão Preto, Central (Araraquara e São Carlos), Bauru e Sorocaba.

Outro exemplo dado pelo pesquisador foi através das características geomorfológicas do Estado. Ao olhar o seu perfil dá para entender que, no sentido litoral-interior, há um primeiro planalto após a Serra do Mar, dominado pela Mata Atlântica, numa altitude um pouco menor e, no centro, o domínio é do cerrado e das florestas cujas as fisionomias estão em transição, enquanto que no restante da demarcação e área com maior depressão, quem reinava era a Atlântica Caipira.

Em termos práticos, esse conhecimento é importante somente para um posicionamento prévio do que é possível encontrar em determinada área. Em uma área de Ribeirão Preto que será regenerada, por exemplo, é possível descartar de cara que lá era uma Floresta Atlântica tradicional (aquela encontrada somente na faixa do litoral).

Para executar um diagnóstico preciso, Polisel é taxativo em dizer que é necessário reconhecer as espécies indicadoras, sendo primordial elencar cada um dos biomas, que foram definidos da seguinte forma pelo professor:

 

Cerrado: Fisionomia savânica em que tanto a copa das árvores e arbustos não formam estratos (camadas) contínuos, projetando-se sobre cerca de metade da área que também é coberta, pelo menos parcialmente, por gramíneas.

Cerradão: Fisionomia florestal com cerca de duas mil árvores por hectare, considerando uma unidade apenas aquelas que tiverem o diâmetro do caule na altura do peito acima de cinco centímetros e raramente maiores que 40 cm. Nelas, também são raras as gramíneas no piso e também árvores de tamanho gigantesco.

Ecótono (Floresta em Transição): Se assemelha muito a um Cerradão, contudo com uma população menor e o tamanho maior das árvores (elas raramente atingem os 20 metros de altura).

Floresta Estacional Semidecidual (Mata Atlântica Caipira): Densidade com cerca de metade das árvores do Cerradão (um mil por hectare) considerando o mesmo diâmetro mínimo. Presença de árvores que podem ultrapassar 20 metros de altura e um metro de diâmetro. Um ponto de atenção é que na estação seca muitas árvores perdem totalmente as folhas, fazendo com que a vegetação possa se assemelhar muito com as relatadas anteriormente.

 

Junto ao reconhecimento do ambiente, é preciso saber de quais grupos aquelas espécies pertencem. Esses indicativos são muito importantes no trabalho porque a vegetação do grupo C, por exemplo, que são típicas do cerrado, não consegue sobreviver em ambientes sombreados.

No caso do grupo F (Mata Atlântica Caipira), as árvores não toleram déficit hídrico e a baixa umidade relativa, enquanto há o grupo G, indicado para as matas de transição, formado por espécies consideradas generalistas, capazes de sobreviver tanto em ambientes de floresta como savana.

Dito isso, em termos práticos é óbvio que se aparecerem espécies do grupo C, a possibilidade de Mata Atlântica é automaticamente descartada, sendo o inverso verdadeiro, ou seja, se for encontrada uma espécie do grupo F, as chances de ser um Cerrado são mais complicadas, só não são nulas porque é preciso levar em consideração o fato delas serem exóticas.

A confusão se intensifica onde aparece o predomínio das generalistas (Grupo G), que podem ser Cerradão ou área de transição. Nesse caso, o que vai decidir são as C e F, onde se não houver as típicas de floresta, são do primeiro bioma, enquanto se as duas forem encontradas, mesmo num número tímido, é um Ecótono.

Lógico que para saber de qual grupo é uma árvore é preciso uma “cola”, sendo indicada pelo palestrante o livro “Espécies Indicadoras de Fitofisionomias na Transição Cerrado-Mata Atlântica no Estado de São Paulo”, que contém as informações, inclusive com fotos, necessárias para o reconhecimento de uma espécie e sua respectiva classificação.

Identificado o bioma, é preciso realizar mais uma análise antes do plano de recuperação - o diagnóstico ambiental. Nele, é estudado o potencial de regeneração natural (sem intervenção humana), conhecida também como resiliência da área.

O primeiro ponto a ser assinalado são os distúrbios que degradaram aquele ecossistema, considerando três fatores de influência direta como frequência (contínuo ou não), duração (prolongado ou curto) e intensidade (devastador ou leve) para saber se a substituição tem condições de ser natural, lenta ou é permanente e precisará de intervenção humana no processo.

Polisel explicou os detalhes do processo para a execução desse trabalho, que consiste na avaliação do entorno da área a ser restaurada, a cobertura florestal nativa, bem como a conectividade da paisagem e as condições da área (se foi queimada ou derrubada, qual atividade econômica havia ali e níveis de compactação e erosão).

De posse dessas informações, chega-se à melhor metodologia de restauração que se baseia em três tipos de manejo: isolamento da área e espera da recuperação passiva que apenas conduz à regeneração natural, fazendo o favorecimento dos regenerantes; enriquecimento, se necessário, e execução do adensamento em casos mais graves e, para os locais com o nível máximo de degradação, o trabalho terá que ser total através da implantação completa da comunidade vegetal nativa.