Natureza favorável para a cana integral

08/02/2021 Artigos Técnicos POR: José Alencar Magro - Engenheiro Agrônomo

Com o atraso no início da estação chuvosa do final do ano de 2020 no Centro-Sul do Brasil, os reservatórios de água das hidrelétricas estarão em nível abaixo do necessário por um longo período, portanto, deverá faltar água por muitos meses para gerar energia elétrica na quantidade necessária.

Devido à seca prolongada e aos incêndios que ocorreram nos canaviais, também terá uma diminuição significativa na produção de cana nesta mesma região. Sendo assim, haverá espaço para gerar energia elétrica do bagaço da palha e do ponteiro da cana, na modalidade de processamento de Cana Integral. Desta forma, será possível ter mais caldo de cana para produzir açúcar e etanol e com o bagaço adicional gerar energia elétrica.

Com a menor produção das hidrelétricas e de cana, ocorrerá um significativo aumento nos preços de venda da energia elétrica para a rede pública, do açúcar e do etanol, favorecendo ainda mais a rentabilidade da cana integral.

Vale lembrar que ocorreu um atraso no plantio de grãos devido à seca prolongada, então haverá uma significativa diminuição da produção de milho das safras normal e da safrinha. Sendo assim, o preço do milho será elevado, inviabilizando o seu uso na produção do etanol, pois há controle no preço do etanol e não do preço do grão para alimentação animal.

Com os estudos que tenho realizado sobre o processamento industrial de cana integral, cheguei aos dados de custo/benefício somando da agrícola e da indústria, correspondente a aproximadamente 50% do lucro do açúcar e etanol na média de 10 anos. São vários os benefícios, mas os maiores deles são o aproveitamento dos açúcares contidos na palha seca e no ponteiro, mesmo que verde (sim, nestas partes há sacarose e outros açúcares), além da própria produção de energia elétrica obtida com a queima do bagaço adicional da cana integral. Também será zero a perda de cana na colheita que atualmente é de 5% a 10%.

Chamo a atenção que esta modalidade de produção industrial somente é válida se não houver colheita de cana com terra. Com os trabalhos de campo que tenho realizado é possível afirmar que não há necessidade de colher cana com terra e é fácil colher cana limpa.

Acidentalmente por obra da natureza, será o laboratório para o setor canavieiro para o projeto de Cana Integral, como modalidade contínua de exploração da cana-de-açúcar. Enquanto o mundo todo está desejando e falando em diminuir a produção de energia elétrica obtida de matéria-prima poluente, e também na redução do consumo de combustíveis poluentes, sendo substituídos por energia elétrica, nós estamos jogando fora uma quantidade infindável de matéria-prima renovável produzida continuamente, além de não ser poluente. Será a forma mais eficiente de aproveitar a energia solar independentemente de estar havendo o calor da luz do sol. A produção da cana acontece de dia, mas a de energia elétrica do bagaço ocorre nas 24 horas dos 365 dias do ano. A cana produzida fica armazenada no campo por um longo período e o bagaço é produzido ao longo da safra e uma parte fica ao lado da caldeira para o período da entre as safras. Vale lembrar que havendo bons manejos das variedades da cana e do solo seguindo nossa recomendação, no Centro-Sul do Brasil o processamento industrial da cana pode ocorrer de 15 de março até 15 de novembro. Para o período 15 de novembro a 15 de março, o bagaço a ser consumido na caldeira estará armazenado ao lado dela. Será um grande passo em busca da sustentabilidade da atividade canavieira.

Chamo a atenção para o fato que não teremos energia elétrica disponível para os veículos elétricos e para o consumo público ao haver a recuperação da economia nacional, em função da dificuldade criada pelas questões ambientais para a construção de novas hidroelétricas.