O agro de mãos dadas com a educação

16/08/2021 Noticias POR: Eddie Nascimento

Mônika Bergamaschi - presidente do Conselho da ABAG/RP, Mônika Bergamaschi.

 

Capacitar professores, apresentar os conceitos fundamentais do agronegócio e mostrar na prática a relação campo-cidade são alguns dos objetivos do programa educacional “Agronegócio na Escola” promovido pela ABAG/RP - Associação Brasileira do Agronegócio da Região de Ribeirão Preto. Criado em 2001, o programa chega este ano a sua 21ª edição trazendo, pela segunda vez, uma versão on line.

Nesta entrevista iremos conhecer um pouco mais sobre o projeto que já teve a participação de quase 3.500 professores e criou raízes através da ação desses docentes juntamente com seus alunos. O bate-papo é com a presidente do Conselho da ABAG/RP, Mônika Bergamaschi.

Revista Canavieiros: Mônika, gostaria que você nos falasse como que surgiu essa ideia? Por que é importante esse engajamento dos profissionais de educação?

Mônika Bergamaschi:  A ABAG/RP, que acabou de completar 20 anos, foi criada com a missão de comunicar a realidade do agronegócio e contribuir para que a sociedade compreenda melhor a importância desse setor na produção sustentável de alimentos, fibras, energia limpa e renovável; na geração de empregos e renda; na conservação dos recursos naturais e na preservação ambiental. Desde o início já havia entre os fundadores a certeza de que seria necessário desenvolver ações robustas, de longo prazo, para combater falhas históricas do setor na área de comunicação mostrar adequadamente as inter-relações campo e cidade para todos os públicos internamente: profissionais liberais, formadores de opinião, donas de casa, autoridades, jovens e crianças.  Assim, todos os programas foram criados no diapasão: realidade, desafios e as expectativas futuras. Na pauta da ABAG/RP, a busca por caminhos mais efetivos para comunicar o agro para um público já adulto; e a oportunidade de desenvolver programas de educação estruturantes, por meio dos quais, no decorrer do tempo, ações amplas de comunicação direcionada seriam cada vez menos necessárias. Um desses é o Programa Educacional “Agronegócio na Escola”, criado em 2001, e que encontrou grande ressonância junto à educação formal, em escolas da rede pública de ensino fundamental, médio e profissionalizante de 106 municípios da região de Ribeirão Preto.

Revista Canavieiros: Há quanto tempo esse programa é realizado e seria possível mensurar quantos profissionais já participaram dele?

Mônika: Esse será o 21º ano. Nesse período 3.397 professores já participaram. A ABAG/RP desenvolveu uma metodologia voltada para a capacitação dos docentes. Não existe nenhuma interferência ou participação direta de profissionais da ABAG/RP ou de seus associados nas escolas, a menos que sejam solicitados. O que acontece é que os professores se inscrevem, voluntariamente, e são convidados a conhecer o setor por meio de palestras, visitas monitoradas, materiais audiovisuais, livros, cartilhas, artigos; e podem até participar de concursos.

Revista Canavieiros: Por que capacitar os professores e não os alunos?

Mônika: Em primeiro lugar porque os professores podem tecer mais facilmente os pontos de interligação entre os conteúdos teóricos que ensinam, e os exemplos que veem na prática, estabelecendo conexões que tornam o aprendizado mais atraente e aplicável. Quem nunca se perguntou a real necessidade de aprender algum fundamento da física, da química, da matemática, ou de qualquer outra disciplina? Em segundo lugar porque os professores se tornam multiplicadores. Einstein foi muito feliz ao mencionar que “Uma mente que se abre a uma nova ideia nunca mais voltará ao tamanho original”, e eles continuam ano após ano passando para os alunos as informações que fizeram sentido para eles. A ABAG/RP não teria essa quantidade de profissionais, tampouco a oportunidade de acessar os alunos, que inclusive já possuem uma relação de confiança com os professores, o que torna as coisas mais naturais. Ainda existe a vantagem de que os professores percebem, por si próprios, que alguns conteúdos presentes nos livros didáticos estão ultrapassados ou enviesados. Com os conhecimentos que adquiriram, eles passam a incorporar informações consonantes com a realidade, e ponderam ideologias ou informações fora de contexto, a tempo e hora. Os estudantes, então, ganham a oportunidade de questionar e debater a informação fria que chega pelo material didático.  Em tempos normais os professores podem, depois do trabalho em sala de aula, levar os alunos para as mesmas experiências práticas que tiveram, e também verem na prática o que foi estudado, o que deixa mais lúdica a educação, e consolida o aprendizado.

Revista Canavieiros: Sabemos que após essa capacitação, os professores colocam em prática em sala de aula, aquilo que aprenderam. Poderia nos contar qual o feedback que vocês já receberam dessa interação deles com os alunos?

Mônika: Isso é muito sensível nos concursos que a ABAG/RP promove. Os professores inscrevem anualmente milhares de redações, desenhos, frases, maquetes, vídeos, e até jogos eletrônicos elaborados pelos estudantes. São trabalhos surpreendentes executados por alunos a partir de 9 anos de idade, com o envolvimento de toda

a escola, da comunidade do entorno, dos pais e até de autoridades municipais. Prova inequívoca da interação com os alunos, do desenvolvimento da cidadania e da ampliação da consciência sobre as oportunidades que o conhecimento oferece.

Nos encontros presenciais algumas escolas também levam apresentações artísticas dos alunos retratando o agro, como peças de teatro, danças, paródias e músicas.

Revista Canavieiros: Surgiram projetos ou ações das próprias escolas através desses professores que tiveram como base aquilo que eles absorveram durante o programa “Agronegócio na Escola”?

Mônika: Surgiram muitos. Vale mencionar um exemplo muito interessante que aconteceu em 2016, quando alunos da E.E. Maria Falconi de Felício, de Pitangueiras, elaboraram um trabalho sobre a água “Um olhar sobre as nascentes, que envolvia a questão da preservação. Quando entenderam a importância disso, pediram reunião com o secretário de Meio Ambiente do município e com o prefeito para cobrar ações mais efetivas quanto ao tratamento do rio que abastece a cidade. Para dar o exemplo eles se voluntariaram, convidaram outras pessoas, montaram mutirões e retiraram todo o lixo depositado nas margens. Outro exemplo interessante aconteceu em 2016, quando alunos da EMEB Gino Bellodi, de Guariba, estudaram a importância do agro para o desenvolvimento de medicamentos e vacinas. Esse tema ganhou destaque em virtude do desenvolvimento da vacina brasileira contra a Covid 19, pelo Instituto Butantan, com a utilização da técnica de vetor viral, incubada em ovos de galinha embrionados. Os alunos de Guariba visitaram o Instituto à época e apresentaram a técnica na Feira do Conhecimento. A formação de cooperativas de mel, a construção de hortas, estufas, reutilização de água de bebedouros para irrigação de jardins, e reciclagem de embalagens são outros exemplos muito interessantes. Há centenas deles.

Revista Canavieiros: Vemos que o projeto tem a participação do ministro Roberto Rodrigues, um dos mais respeitados líderes do agronegócio brasileiro e mundial. Gostaria que nos falasse sobre esse poço de conhecimento que ele é e o quanto ele agrega valor ao “Agronegócio na Escola”?

Mônika: O ministro Roberto Rodrigues é um entusiasta do Programa Educacional da ABAG/RP, uma vez que revela a forte interdependência entre campo e cidade, aproximando o urbano e o rural. O prof. Roberto Rodrigues sempre pregou a necessidade de valorização da imagem do agro, de maior engajamento de jovens e de mulheres, e da formação de novos líderes. Como grande incentivador da Educação que é, foi convidado para ser o palestrante do projeto piloto do “Agronegócio na Escola”. Além de levar toda sua bagagem de conhecimento sobre o setor para os professores, e mostrar a eles a presença e a importância do agro nos aspectos do econômico, social e ambiental ele ainda provocou profundo encantamento e motivou a totalidade dos professores ali presentes. O resultado é que ele vem participando de todas as edições do Programa desde então, e é muito admirado pela forma direta e simples como fala desse importante setor.

Revista Canavieiros: Diante da pandemia da Covid-19 várias atividades que antes eram presenciais tiveram que ser interrompidas, e o Programa “Agronegócio na Escola” não foi diferente. Como vocês lidaram com esse cenário?

Mônika: Com a impossibilidade de realizar visitas nas instituições de pesquisa, fazendas, cooperativas e unidades industriais associadas à ABAG/RP, foi necessário criar um novo modelo, em ambiente virtual, para que as atividades do Programa não fossem interrompidas. Com o Programa Educacional “Agronegócio na Escola”- Etapa Digital foi possível dar continuidade à capacitação de professores, apresentando conceitos e temas relacionados ao agronegócio por meio de textos, ilustrações, vídeos, e atividades virtuais interativas, via internet, sem que ninguém precisasse sair de casa.

Para estimular ainda mais, foram criados novos concursos para professores e desafios para serem repassados aos alunos. A premiação para a escola com maior engajamento também foi mantida.

Revista Canavieiros: Esse formato que foi colocado em prática diante de uma necessidade, a forma digital, ela ainda se mantém mesmo após o fim da pandemia?

Mônika: Neste ano, o programa ainda será aplicado apenas de forma digital. Mas o projeto piloto, realizado em 2020, trouxe a certeza da viabilidade do modelo, inclusive para o pós-pandemia, ainda que muitos professores ainda não tenham equipamentos ou acesso à internet em suas residências. O modo virtual facilitou a inclusão de municípios e escolas que sempre desejaram participar, mas que se viam impossibilitados pelas dificuldades em solucionar problemas relacionados ao deslocamento e/ou substituição de professores para que eles pudessem viajar para participar de palestras e visitas técnicas realizadas em outros municípios. O modo virtual permitirá, já a partir deste ano, que o Programa seja levado para outras regiões mais distantes e até mesmo para outros estados.

Revista Canavieiros: O que mudou em relação ao presencial, quais são as novas formas de abordagem dos temas?

Mônika: É importante que se diga que por melhores que sejam os recursos tecnológicos, nada se compara à oportunidade de participar de uma palestra presencialmente, olho no olho, ou à experiência de uma visita na prática, onde os cinco sentidos ajudam a perceber melhor toda a ambiência. Mas a abordagem digital, por outro lado, permite a ampliação do alcance do Programa, e a continuidade na introdução e discussão de novos temas, pois o agro é muito dinâmico. Foram reunidos e adaptados novos materiais, e estão sendo elaborados outros. Será para um processo dinâmico e contínuo.

História da agricultura, conceitos, origem dos produtos, uso da terra, evolução tecnológica, cadeias produtivas, matriz energética, água, mercado internacional, cooperativismo, sustentabilidade, biotecnologia, nanotecnologia, geração de energia limpa e renovável, logística reversa, e tantos outros temas estão contidos nos módulos de aprendizagem, de forma simples, fácil e direta. Assuntos que podem enriquecer os conteúdos das mais diversas disciplinas, e complementar o material didático convencional.

A ideia é disponibilizar, em futuro próximo, algumas visitas virtuais, para que as pessoas possam simular uma caminhada em uma área de preservação permanente, assistir à colheita de café, entrar em uma usina de açúcar, por exemplo, ou seja, um contato inicial para que sejam estimuladas para conhecer tudo isso, in loco, quando a pandemia for debelada.

Revista Canavieiros: Os participantes aprovaram esse novo método? Como foi para vocês e qual o feedback deles?

Mônika: O Piloto da Etapa Digital de 2020 foi muito satisfatório pelo interesse demonstrado pelos professores e por eles terem levado até seus alunos o #Desafio de reconhecer o agro presente dentro de suas casas. Os professores ainda estudaram os capítulos, participaram de um superquizz ao vivo, on line, contra o relógio, e elaboraram planos de aula, que servirão de estímulo para outros educadores. Os alunos também surpreenderam pelo empenho, imaginação, criatividade e originalidade. De forma livre mostraram o que descobriram em suas pesquisas caseiras. Uma aluna contou, em vídeo, sobre o trabalho da família, e mostrou como fazer um creme com abacate para o tratamento de cabelos. Outro falou das propriedades do seu alimento preferido, o leite. E ainda temas como a produção do lápis de cor, a sustentabilidade na produção de laranja, e a tecnologia para produzir o leite condensado foram explorados pelos jovens. Todos os trabalhos estão à disposição no site da ABAG/RP:  https://www.abagrp.org.br/2020

Revista Canavieiros: Para finalizarmos, gostaria que você nos explicasse porque é tão importante que os professores procurem participar desse programa?

Mônika: É uma forma atraente de entender melhor a história e a economia da região e do país. Também de conhecer o leque de oportunidades disponíveis para orientar melhor os alunos e agregar exemplos práticos no processo de aprendizagem, que torna tudo muito mais prazeroso. É isso que o “Agronegócio na Escola” possibilita, tanto no formato presencial quanto no virtual. Não apenas os professores e alunos de outras localidades conhecerão melhor o agronegócio paulista, como também serão adicionadas informações sobre cadeias produtivas importantes que predominam em outros estados.

No futuro deverá prevalecer um modelo híbrido, conciliando atividades presenciais e virtuais.  Foi necessário fazer uma adaptação rápida, forçada por esse novo tempo, mas que trouxe aprendizados e a certeza de que é possível chegar ainda mais longe com a missão de valorizar o agro.

Podem aderir ao Programa escolas do ensino Fundamental, Médio e Profissionalizante. As parcerias com escolas e municípios estão sendo celebradas. Os interessados devem entrar em contato pelo e-mail

abagrp2@abagrp.org.br, ou pelos telefones (16) 3623-2326 e (16) 99733-3754 (WhatsApp).  Professores de municípios que não celebrarem a parceria também poderão participar, e são todos muito bem vindos.

Revista Canavieiros: Além do “Agronegócio na Escola” cite outros programas que a ABAG/RP promove para aproximar o cidadão urbano das diversas áreas do conhecimento do campo?

Mônika: Outra importante ação da ABAG/RP para valorizar o agro é o Prêmio ABAG/RP de Jornalismo “José Hamilton Ribeiro”, que assim como o Programa Educacional está lastreado na educação, e tem como premissa apresentar a vastidão do agronegócio brasileiro aos estudantes de jornalismo.  

O Ciclo de Palestras e Visitas é o grande diferencial dessa iniciativa, pois aproxima os futuros jornalistas da realidade setor e de importantes lideranças, que são fontes e referências de muitos veículos de comunicação. Esse formato tem sido exitoso no intuito de fornecer elementos para que esses estudantes formem suas opiniões a partir das experiências que viveram, do que viram, sentiram e conheceram e não de uma manchete sensacionalista, ou de boatos infundados. Em 2020 o Ciclo de Palestras também foi online, e teve como tema: “Agro brasileiro: desafios e oportunidades”. A 14ª edição do Prêmio ABAGRP de Jornalismo “José Hamilton Ribeiro” será lançada no segundo semestre, e seguirá no formato digital. As próximas edições, com a normalização da situação sanitária, e em virtude dos excelentes resultados colhidos, serão híbridos, com palestras presenciais, virtuais e visitas monitoradas.