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O não paradoxo entre tradição e futuro

28/05/2020 Noticias do Sistema POR: Marino Guerra

Entrevista: Francisco César Urenha - Diretor presidente executivo da Copercana

Num mundo onde tudo é polarizado, seria impossível evitar o rompimento entre o pensamento mais tradicional e os que enxergam as coisas de modo mais futurista.

A entrevista realizada com o presidente executivo da Copercana, Francisco César Urenha, deixa evidente um dos motivos que faz a cooperativa ser próspera até em momentos de recessão, conseguir manter uma gestão séria não fechando seus olhos para o novo.

Nela o também produtor de cana-de-açúcar deixa claro esse traço na personalidade da organização quando diz sobre a política “pés no chão” que norteiam a administração de recursos e as tendências extremamente progressistas como a implementação do SAP e a busca por certificação envolvendo suas ações ligadas à sustentabilidade.

Nesse sentido, o presidente explicou um pouco de como funciona a engrenagem da cooperativa formada por diversos negócios, os quais além de buscar sua rentabilidade natural também têm um motivo de existir como uma peça importante para o todo girar.

E como o assunto é a mistura do tradicional com o moderno, não poderia faltar sua visão sobre a 16ª edição do Agronegócios Copercana, que em decorrência da “coronacrise”, ocorre pela primeira vez no formato digital.

Revista Canavieiros: A safra 2020/2021, ao contrário do que todas as tendências apontavam, ganhou traços dramáticos com a chegada do novo coronavírus ao Brasil e, assim, “caiu um balde de água gelada na cabeça do produtor” acabando com sua animação de que este seria o ano da retomada. O produtor tem motivos para manter sua empolgação? Qual cenário você prospecta num médio e longo prazo?

Francisco César Urenha: Foi um ano de surpresas. O setor sucroenergético vinha com a tendência de retomada, o mercado estava otimista com relação ao preço de açúcar e uma demanda crescente em relação ao etanol. A safra 2020/2021 era para ser uma safra de alento, comparada as últimas safras. O preço do etanol foi impactado a priori pela crise do petróleo (Arábia e Rússia), seguido a isso a queda na demanda por combustíveis (consequência do isolamento em relação a pandemia pelo novo coronavírus).

Em momento de incertezas como este, não um, mas dois fatores que impactam diretamente a nossa atividade, é natural que o instinto de sobrevivência entre em ação. As decisões mais ponderadas, dentro de um planejamento financeiro responsável e conservador faz mais sentido. Será muito difícil vermos decisões audaciosas, não só na produção de cana, mas em todas as atividades econômicas do mundo durante esse período. O produtor que estiver estruturado, continuará investindo no canavial da forma que sempre fez. A recuperação econômica pós-pandemia poderá ser satisfatória, logo os preços deverão acompanhar, o mercado já sinaliza algo nesse sentido.

Revista Canavieiros: E o produtor com problemas de caixa?

Urenha: Talvez tenha alguns casos pontuais. As cooperativas, sejam as agropecuárias bem como as de crédito, poderão ser suporte importante nesse momento. Toda crise vem com uma data para terminar, uma solução e um aprendizado. Nunca ficou tão claro a importância da economia colaborativa e a cooperação entre os agentes da cadeia para se fazer mais com menos. Se a primeira questão é financeira, adequar fluxo de caixa, prazo e etc., outro desafio é encontrar insumos necessários, já que atualmente a produção está reduzida. E nesse sentido a Copercana estará como sempre, envolvida para entregar a melhor solução para o cooperado.

Revista Canavieiros: Sobre a questão de abastecimento, a Copercana conseguiu manter por um bom período o valor de seus insumos fixados num dólar pré-pandemia e, recentemente, anuncia que vai executar a edição deste ano do Agronegócios Copercana, que já é um evento consagrado pela oferta de produtos a preço e prazo diferenciados. Qual é a estratégia da cooperativa para conseguir atender de maneira tão eficaz?

Urenha: A estratégia é trabalhar com os “pés no chão”, aliado a investimentos necessários com o foco de desenvolver e potencializar o resultado de nossa atividade, como a ampliação da capacidade de armazenamento, ajustes em nossas filiais, bem como a inauguração de novos centros de distribuição. Embora não sejamos imunes a crise, aliás ninguém é, essas ações nos dão anticorpos para superarmos as eventuais dificuldades que inevitavelmente aparecem no mercado.

Em relação a preço e prazo, o esforço como disse é trabalhar para a melhor solução, e uma solução que seja atrativa. Mesmo com cenário econômico atual, câmbio em tendência de alta aliado a escassez de recurso na praça, torna o desafio de trazer uma estratégia cooperativa entre os agentes da cadeia, unir os pontos, aliar com os parceiros e fornecedores para entregar a melhor solução para os nossos cooperados.

Revista Canavieiros: Podemos afirmar que capacidade de estocagem aliada a uma administração correta é a chave para o sucesso?

Urenha: Esse é só o começo de uma complexa estrutura multidisciplinar para formar uma engrenagem que realmente funciona. Entregar tecnologia para o produtor de cana é o nosso negócio principal, foi para isso que a cooperativa nasceu há 57 anos.

Com o desenvolvimento econômico da atividade, outros núcleos de negócios extremamente eficientes foram criados, o Projeto Amendoim, por exemplo, é um deles, e se destaca nos mercados mais exigentes em termos de qualidade de produto no mundo. Temos o recebimento e comercialização de soja e milho, estamos crescendo ano a ano.

As operações de varejo (supermercados, ferragens, magazines, postos e automotivos) evoluem de maneira a trazer fluxo de caixa, para gerar prazo aos cooperados ou oportunidades de compra de insumos a preços diferenciados.

Sem contar negócios como corretora de seguros, a distribuidora de combustíveis, entre outros, cada qual com sua razão estratégica para existir.

Revista Canavieiros: E para manter essa dinâmica funcionando é que foi decidido pelo investimento num sistema de gestão tão robusto como o SAP?

Urenha: O investimento em relação à implantação do SAP na Copercana é sustentado por três pilares. O primeiro é o intercâmbio de processos como é feito em grandes corporações. O segundo é a velocidade com que produz relatórios estratégicos para a melhor tomada de decisão.

O terceiro e principal é a credibilidade que ele entrega a quem se relaciona com a cooperativa. Vivemos num mundo corporativo onde se consegue bons negócios pautados em informações confiáveis e de qualidade. O SAP é a referência nesse sentido. Todos ganharão com isso, inclusive o cooperado com a possiblidade de agilizar processos que poderão ser feitos de forma digital, do próprio smartphone.

Revista Canavieiros: Tempo e mobilidade são assuntos que ficaram em evidência depois da chegada da “coronacrise”. O senhor acredita numa mudança na forma de relacionar com o cooperado quando a vida voltar ao normal?

Urenha: A palavra-chave é confiança. O relacionamento vem de uma confiança construída ao longo dos anos, seja com o agrônomo, veterinário, vendedor da loja de ferragem e etc. Nesse sentido, a Copercana continuará sendo a referência e entregando essa confiança, seja para aqueles que ainda preferem o contato presencial, sendo o ponto de referência quando o produtor estiver na cidade, ou de forma digital para aqueles que preferirem a opção tecnológica.

Com certeza a pandemia antecipou um desenvolvimento tecnológico e de costumes que teríamos nos próximos 5 anos. Isso foi possível por meio de uma consulta agronômica através de uma foto ou vídeo enviados pelo celular ou a solicitação de uma compra na qual o vendedor da loja já deixará as coisas separadas e ele vai passar somente para buscar.

A quarentena fará com que o profissional do campo enxergue onde estava jogando fora o seu tempo, para deixar seu dia a dia mais produtivo. As ferramentas de robótica e automação disponibilizadas poderão otimizar processos e recursos para a tomada de decisão, mas o produtor no campo, fazendo parte de todo esse processo, continuará sendo essencial.

Revista Canavieiros: Falando em mudança, como o senhor vê a edição online do Agronegócios Copercana 2020?

Urenha: Como a grande maioria das decisões a partir de março, essa feira digital também não estava em nossos planos. Tivemos que nos adaptar de maneira rápida para viabilizar essa mudança que só foi possível graças à união da experiência do nosso time com a confiança que os fornecedores e, no caso da feira, expositores, têm na instituição Copercana.

Este ano vamos para a décima sexta edição do evento e embora muitas marcas tenham se fundido, e outras surgidos, eles sabem da nossa competência em fechar negócio.

Mesmo a distância, com todos separados na sua unidade, sem aquela sinergia próspera que se sente no Centro de Eventos ao longo dos dias da feira, vamos fazer mais um evento maravilhoso e que com certeza vai ficar para a história da cooperativa.

Revista Canavieiros: Para finalizar, gostaria que o senhor falasse sobre os objetivos da marca “Copercana Sustentável” que começa a surgir?

Urenha: A Copercana já tem consolidados projetos nas áreas ambiental e social, para citar um de cada, eu destaco a Biocoop, projeto premiado que recentemente completou 15 anos deixando de despejar de maneira errônea 5 milhões de toneladas de lixo; e o show em prol de Hospital de Amor que infelizmente não foi possível acontecer este ano, mas tanto por sua importância social como tradição já faz parte do nosso DNA.

Esses dois trabalhos são o abre-alas de uma grande lista de atividades que comprova a atuação sustentável da cooperativa.

Criar um selo que reúna tudo que é executado nesse sentido surgiu da necessidade de externalizarmos de modo organizado essas ações para outros atores que em decorrência das atividades que executam, passaram a solicitar essas informações, dentre eles há desde instituições financeiras que nos relacionamos até empresas sucroenergéticas cooperadas que precisam dessa informação para conquistar selos e consequentemente ter acesso a novos mercados.

Além do que já fazemos com maestria, criamos um comitê multidisciplinar para trabalhar a viabilização de novos projetos, o que fará com que a sustentabilidade seja um tema ainda mais ativo dentro da organização.