O poder da pesquisa que transforma o campo

12/01/2026 Noticias POR: Fernanda Clariano

Hermann Paulo Hoffmann - Coordenador-geral da Ridesa - Rede Interuniversitária para o Desenvolvimento do Setor Sucroenergético

Por trás de cada variedade de cana que brota nos canaviais brasileiros, há anos de pesquisa, cruzamentos e observações cuidadosas conduzidas por profissionais comprometidos com o futuro sustentável do agronegócio. A Ridesa - Rede Interuniversitária para o Desenvolvimento do Setor Sucroenergético, que reúne dez universidades federais acaba de lançar 18 novas variedades de cana-de-açúcar, um avanço que promete ampliar a produtividade, a adaptação climática e o potencial energético do setor. Em entrevista à Revista Canavieiros, o coordenador-geral Herrmann Paulo Hoffmann fala sobre a importância da pesquisa pública, o envolvimento dos produtores e o papel da inovação genética na construção de uma agricultura mais eficiente e sustentável. Confira!

Revista Canavieiro: O lançamento de 18 novas variedades de cana-de-açúcar pela Ridesa representa um marco importante para o setor. Quais foram os principais critérios e desafios no desenvolvimento dessas cultivares?

 Hermann Paulo Hoffmann: A Ridesa é formada por equipes de dez Universidades Federais, cada uma desenvolvendo um programa de melhoramento voltado para o seu Estado ou região de abrangência. A área de cultivo de cana-de-açúcar no Brasil é bastante heterogênea, de maneira que cada região tenha seus desafios, sejam eles relacionados ao ambiente de produção ou ao sistema de manejo. Nesse sentido, com o desenvolvimento de programas de melhoramento direcionados para cada Estado ou região, aumentam-se as chances de se obter variedades mais adaptadas e, consequentemente, mais produtivas.

Revista Canavieiro: O senhor poderia destacar as características que tornam essas novas variedades superiores às anteriores em termos de produtividade e sustentabilidade?

Hoffmann: Como destacado anteriormente, a condução de programas de melhoramento no Estado ou região de abrangência de cada Universidade possibilita, desde as fases iniciais, a seleção de genótipos mais adaptados ao ambiente e ao sistema de manejo, bem como a comparação do desempenho dos novos genótipos em relação às variedades mais cultivadas daquele Estado ou região.

Revista Canavieiro: A RB075322, desenvolvida pela UFSCar, tem se mostrado destaque entre os lançamentos. O que diferencia essa variedade das demais e em quais regiões ela apresenta melhor desempenho?

Hoffmann: A RB075322 foi desenvolvida a partir de um cruzamento envolvendo a variedade RB867515 e, assim como a “mãe”, destaca-se pelo seu desempenho em ambientes restritivos. Além disso, a RB075322 apresenta alta produtividade, excelente perfilhamento e ótima brotação de soqueira, proporcionando maior longevidade de cortes em comparação às variedades comerciais cultivadas atualmente em condições mais desafiadoras. A adoção da RB075322 tem ocorrido de forma generalizada, porém, em regiões com predominância de solos arenosos e de maior déficit hídrico, isso tem acontecido mais rapidamente.

Revista Canavieiro: Como essas novas cultivares contribuem para reduzir os impactos das mudanças climáticas e fortalecer a segurança energética do País?

Hoffmann: O processo de seleção de uma nova variedade é longo e, por isso, os genótipos são submetidos não somente a anos agrícolas com boas condições de cultivo, mas também a anos desafiadores, além disso, os experimentos são conduzidos em diferentes regiões, com características de solo e de clima bastante distintas. É claro que uma parte dessas novas variedades são mais adaptadas a ambientes de produção mais favoráveis, mas aquelas consideradas rústicas apresentaram desempenho superior às variedades comerciais atualmente indicadas para ambientes restritivos, mesmo nos experimentos colhidos durante anos de maior estresse hídrico. Com este “leque” de opções, contemplando diversos ambientes de produção e diferentes épocas de colheita, o setor terá mais opções para buscar maiores produtividades, fortalecendo a segurança energética do País.

Revista Canavieiro: O novo Censo Varietal Nacional revelou que 54% da cana colhida na safra 2024/25 são de variedades desenvolvidas pela Ridesa. O que esse dado representa em termos de reconhecimento e confiança do setor produtivo nas tecnologias da Rede?

Hoffmann: Esse dado nos mostra que o setor produtivo reconhece e confia no trabalho da Ridesa, o que nos motiva ainda mais na busca por novas variedades que atendam às demandas dos produtores. Esse trabalho é realizado em parceria com o setor produtivo, buscando envolvê-lo no processo de seleção e procurando entender quais as características mais buscadas numa nova variedade. Da parte do produtor, a sensação de ter participado desse longo caminho, que é a obtenção de uma nova variedade, certamente é uma das explicações para esse número tão significativo.

Revista Canavieiro: A Ridesa atua há mais de 35 anos e reúne universidades de diferentes regiões do Brasil. De que forma essa integração acadêmica fortalece a inovação e acelera o desenvolvimento de novas tecnologias para o setor sucroenergético?

Hoffmann: Após a extinção do IAA/Planalsucar em 1990, os pesquisadores em melhoramento genético de cana-de-açúcar que permaneceram nas Universidades da Ridesa se organizaram e iniciaram a formatação dos primeiros projetos para captação de recursos financeiros, especialmente junto às usinas e destilarias das diversas regiões do Brasil. Para tanto, houve a necessidade de divisão em áreas de atuação, de modo que os recursos financeiros da iniciativa privada fossem distribuídos e investidos nas Universidades, visando a fomentar as pesquisas e dar continuidade ao programa. Com isso, foi estabelecido um modelo de pesquisa em rede, no qual as atividades de pesquisa da Ridesa são desenvolvidas e partilhadas entre todas as Universidades, estimulando-se o intercâmbio de informações, de conhecimento e de resultados, aumentando a capacidade e a abrangência nacional dos resultados da pesquisa e inovação.

Revista Canavieiro: Além do desenvolvimento de variedades, a Ridesa também tem papel fundamental na formação de pesquisadores e profissionais. Como essa rede contribui para preparar novas gerações de cientistas e especialistas para o futuro do agronegócio?

 Hoffmann: A infraestrutura existente nas Universidades tem proporcionado apoio para treinamento aos estudantes em nível de Graduação e Pós-Graduação com essa cultura, gerando centenas de profissionais que estão atuando na iniciativa privada e em instituições públicas. Anualmente são concedidos estágios e/ou bolsas para alunos dos cursos de Graduação das Universidades que integram a Ridesa, com ênfase nas bolsas de iniciação científica com pesquisas em cana-de-açúcar. Nos programas de Pós-Graduação também são formados especialistas, mestres, doutores e pós-doutores em pesquisas relacionadas ao melhoramento da cana-de-açúcar. Vale destacar também o programa de Residência em Agronomia com Especialização em Cana-de-açúcar, coordenado pela UFRRJ em parceria com a UFPR, que já treinou mais de uma centena de agrônomos recém-graduados, dentro das próprias usinas, sob a supervisão de professores das Universidades coordenadoras.

Revista Canavieiro: A cana-de-açúcar é uma das bases da matriz energética limpa do Brasil. Como a Ridesa enxerga o papel das novas variedades na consolidação do país como referência mundial em bioenergia e descarbonização?

Hoffmann: Enxergamos o papel das novas variedades como um dos pilares na consolidação do País como referência mundial em bioenergia e descarbonização. Porém, é necessário entender que o potencial de retorno das novas variedades está intimamente relacionado ao manejo da cultura e à adoção de boas práticas agronômicas, caso contrário, apesar da disponibilidade de variedades mais produtivas, os ganhos em produtividade não serão observados no campo.

Revista Canavieiro: A Ridesa tem algum projeto voltado à integração com outras culturas ou à diversificação de produtos derivados da cana, como biogás, bioplástico ou biofertilizantes?

Hoffmann: Atualmente, a força de trabalho da rede está mais direcionada aos programas de melhoramento, buscando novas variedades e/ou métodos que tornem essa busca mais eficiente.

Revista Canavieiro: Como tem sido o diálogo da Ridesa com produtores e usinas no processo de validação e adoção dessas novas variedades?

Hoffmann: Tratamos esse diálogo como essencial para o nosso sucesso. Buscamos envolver o setor produtivo durante a experimentação e a validação das novas variedades, e estamos sempre atentos às suas principais demandas, para que possamos incorporá-las o quanto antes no processo de seleção.

Revista Canavieiro: O senhor acredita que os produtores brasileiros estão preparados para adotar tecnologias cada vez mais sofisticadas em seus canaviais? O que ainda precisa avançar nesse sentido?

Hoffmann: Temos acompanhado um grande avanço no desenvolvimento de novas tecnologias, bem como da sua adoção nos canaviais. Estas tecnologias, quando utilizadas criteriosamente, tendem a impulsionar os ganhos proporcionados pelas novas variedades, o que é muito positivo para o setor. O ponto central é que, diante de tantas opções, o produtor deve buscar o conhecimento de quais as tecnologias fazem mais sentido para a sua realidade. Além disso, não podemos esquecer que nada substitui o “arroz com feijão” bem feito, ou seja, novas tecnologias têm muito a contribuir, desde que a base esteja bem construída. Não basta uma excelente variedade: alocação correta e manejo são fundamentais; fazer o certo, na hora certa.

Revista Canavieiro: Que mensagem o senhor deixa aos produtores, pesquisadores e à sociedade sobre o papel da Ridesa no fortalecimento da agricultura sustentável e inovadora do Brasil?

Hoffmann: A Ridesa segue ciente da sua importância para o setor sucroenergético, buscando variedades produtivas, adaptadas às exigências ambientais atuais e às mudanças climáticas. O uso das variedades RB é resultado positivo da interação Ridesa e produtores.