atendimento@revistacanavieiros.com.br (16) 3946-3300

O que você deve considerar ao comprar um agente de controle biológico

13/04/2020 Artigos Técnicos POR: Ariadne Felicio Lopo de Sá

Beauveria bassiana usada no controle de Sphenophorus levis, bicudo da cana-de-açúcar

Atualmente, o controle biológico de pragas é executado em mais de 10 milhões de hectares no Brasil, principalmente de cana-de-açúcar, o que torna o nosso país líder mundial no uso de agentes biológicos. Mas, o controle biológico ainda é considerado discreto na agricultura brasileira, uma vez que representa apenas 2% do mercado nacional de defensivos agrícolas. O desconhecimento parcial ou total da prática por parte dos agricultores ainda representa um dos fatores mais limitantes para a sua ampliação.

O controle biológico de pragas consiste no uso de inimigos naturais para controlar as pragas alvos. Predação, parasitismo e capacidade patogênica são ações que podem ser desempenhadas por diferentes agentes biológicos causando prejuízo à sobrevivência, desenvolvimento ou reprodução das pragas.

Diversos macro-organismos (insetos, ácaros e nematoides) são usados no controle de pragas de importância econômica. Os insetos parasitoides Cotesia flavipes e Trichogramma galloi, por exemplo, são usados no controle da broca da cana. Contudo, os microrganismos, fungos e bactérias, mas também vírus, são empregados mais largamente nas lavouras por oferecerem maior facilidade de aplicação e maior tempo de prateleira que os macro-organismos.

Produtos biológicos à base dos fungos Beauveria bassiana, Metarhizium anisopliae, e diversas espécies de Bacillus e Trichoderma estão entre os mais ofertados comercialmente, e têm sido empregados no controle de uma variedade de pragas. As espécies de Trichoderma são usadas principalmente no controle de doenças fúngicas, mas recentemente foi comprovado que Trichoderma harzianum cepa 1306 possui também ação nematicida. Beauveria e Metarhizium, por sua vez,são capazes de se desenvolver na cutícula que recobre o corpo dos insetos, e posteriormente colonizar o corpo do hospedeiro, parasitando-o até a morte.

A maior parte dos microrganismos para o controle biológico é aplicada por meio de pulverização, de forma semelhante aos agroquímicos. Contudo, para que o controle biológico seja efetivo, é necessário que ocorra uma seleção correta da formulação biológica, cuidados na diluição no tanque e tecnologia de aplicação adequada.

As produções on farm de microrganismos para controle biológico, em que o próprio produtor realiza a multiplicação dos microrganismos em condições não controladas, tornam susceptível a ocorrência de contaminação por outros microrganismos patogênicos aos humanos, colocando em risco tanto a segurança alimentar,  como  também a viabilidade da formulação. Estima-se que a área agrícola tratada com microrganismos reproduzidos diretamente pelo produtor seja 15 vezes maior que a área pulverizada com aqueles colocados oficialmente no mercado.

Devido ao crescimento de quase 20% ao ano do mercado voltado para o controle biológico, muitas empresas estão sendo criadas para o fornecimento de formulações biológicas. Algumas novas empresas, apesar de ter poucos anos desde a fundação, possuem recursos humanos com elevado grau de conhecimento sobre controle biológico, seleção e multiplicação de microrganismos e desenvolvimento de formulações. Mas, no mercado, há também empresas que se “aventuram na produção” de agentes biológicos sem o devido know how. As principais diferenças entre os produtos comercializados por tais empresas geralmente dizem respeito aos microrganismos usados, aos métodos de multiplicação, ao controle das condições ambientais durante a produção e aos produtos químicos usados na obtenção da formulação.

Microrganismos de uma mesma espécie podem ser muito diferentes, portanto, na escolha do agente biológico deve ser considerada também a cepa, que se refere a um grupo de descendentes com um ancestral comum que compartilha semelhanças genéticas, morfológicas e fisiológicas. O desempenho das cepas difere não apenas em relação à praga alvo, mas também quanto a performance sobre estresse externo. Assim, algumas possuem maior eficiência no controle da praga e são mais resistentes que outras às condições ambientais.

A composição química da formulação comercial que os microrganismos estão incorporados é crítica para assegurar a estabilidade, compatibilidade da formulação e diluição adequada. A interação dos microrganismos com os surfactantes e os outros materiais presentes no tanque de aplicação também pode afetar a viabilidade dos microrganismos e, consequentemente, a eficácia no campo.

Em uma pesquisa de doutorado realizada na USP (Universidade de São Paulo) sob a orientação do prof. dr. Sérgio Batista Alves, Marco Tamai demonstrou que entre 93 produtos fitossanitários testados, apenas 22 eram compatíveis com Beauveria bassiana, o restante se subdividia em moderadamente tóxico (5), tóxico (6) e muito tóxico (60). A dra. Polyane dos Santos, sob orientação do prof. dr. Antônio Carlos Monteiro, em pesquisa desenvolvida na Unesp (Universidade Estadual Paulista), verificou que os surfactantes testados mesmo na concentração de 0,05% causavam inibição da germinação e crescimento de Beauveria bassiana. Os surfactantes menos tóxicos à Beauveria bassiana, nonilfenil 10 e álcool láurico reduziram em aproximadamente 20% a reprodução deste agente biológico. Esses dois surfactantes são comuns na composição de óleo emulsionável e adjuvantes respectivamente, ambos bastante usados no preparo de calda para aplicação de agroquímicos.

Os microrganismos ainda são susceptíveis a pH e luz UV, de modo que formulações que contêm agentes tamponantes para manutenção do pH e proteção UV tendem a serem viáveis por mais tempo.

Para finalizar, podemos dizer que apesar de parecer simples o uso de inimigos naturais para o controle biológico de pragas, são necessários cuidados desde a seleção e produção do agente biológico pelas empresas até a escolha da formulação, preparo de calda nos tanques e aplicação por parte dos produtores, para garantir uma elevada eficácia no controle de pragas no campo. Mas, também são necessárias mais pesquisas, desenvolvimento de novos produtos e novas tecnologias para garantir uma proteção adequada aos agentes de controle biológico e consequentemente uma maior viabilidade.

* Ariadne Felicio Lopo de Sá é doutora em Fisiologia e Bioquímica de Plantas, pós-doutorada em Biologia Molecular voltada para o Melhoramento Genético pela Esalq/USP, consultora e pesquisadora em Ciências Agronômicas. Atualmente trabalha no desenvolvimento de inseticidas naturais e novos produtos à base de promotores de crescimento, incluindo bioestimulantes para o aumento de produtividade de grandes culturas.