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Onda de conversão de dívidas atinge usinas

05/01/2015 Cana-de-Açúcar POR: Valor Econômico
Sem crédito na praça e com dívidas a vencer no curto prazo, as usinas de cana-de-açúcar negociam com credores a conversão de parte das dívidas em participações acionárias. Na lista dos que tiveram que realizar esse tipo de operação, estão o grupo Baldin, em 2013, e mais recentemente, a Aralco. Neste momento, o Grupo Virgolino de Oliveira (GVO), um dos mais tradicionais do segmento, segue pelo mesmo caminho. Em muitos casos nessa linha, essas negociações podem culminar na tomada do controle do negócio pelos credores.
A conversão de dívida em ações vem se tornando uma saída praticamente compulsória às usinas muito alavancadas, agora que o mercado de captação por meio de emissão de dívida externa secou. Muito usado nos últimos três anos para alongar débitos, o mercado de dívida se fechou às empresas sucroalcooleiras com a entrada da Aralco em recuperação judicial menos de um ano após a emissão de bonds e com o risco elevado de "default" do GVO.
Especialistas em avaliação de risco da agência Fitch, que acompanha a situação financeira de uma dezena de empresas do agronegócio, não veem espaço para novas captações do gênero por usinas de cana no curto prazo - nem a taxas de juros mais elevadas.
Nas últimas semanas, ao menos duas grandes companhias com operações no agronegócio e consideradas de baixo risco de crédito (Cosan e JBS) tentaram emitir títulos de dívida no exterior, mas desistiram porque o mercado estava cobrando caro demais para absorver os papéis. "Para o setor de cana-de-açúcar, que tem risco elevado, praticamente não há neste momento 'preço' para emissões externas", diz o analista corporativo da Fitch, Mauro Storino.
As companhias sucroalcooleiras mais endividadas já há alguns anos não tinham mais limite de crédito no mercado bancário tradicional, que também não oferece linhas de longo prazo, mais adequadas à necessidade dessas empresas. No entanto, encontraram no mercado de bonds investidores com mais apetite por títulos de maior risco - e remuneração mais elevada.
Captações pontuais já haviam sido feitas antes pelo setor sucroalcooleiro, mas foi a partir de 2011 que elas passaram a ser mais frequentes. Desde então, ao menos quatro grupos de médio porte emitiram dívida externa. Somando-se GVO, Aralco, Tonon Bioenergia e grupo USJ, o montante captado chega a US$ 1,79 bilhão.
No primeiro bimestre de 2015, o GVO tem a pagar US$ 40,71 milhões somente dos juros dos cupons semestrais aos bondholders - US$ 23,09 milhões em janeiro e US$ 17,62 milhões no início de fevereiro. Neste momento, a empresa negocia com esses credores uma proposta de conversão de dívidas em participação acionária. Com US$ 735 milhões captados por meio de três emissões, o grupo tende, ao fim do acordo, a perder o controle do negócio, segundo fontes ouvidas pela reportagem.
Normalmente, a conversão de dívida em ações resulta também em "desconto" da dívida. "Não é incomum que isso aconteça, pois é preciso fazer a dívida 'caber' no equity da devedora", explica o advogado Joel Thomaz Bastos, do escritório Dias Carneiro Advogados. Mesmo quando os credores assumem a propriedade do negócio, ainda que consigam vendê-lo, a recuperação dos créditos acaba sendo parcial.
A pressão no caixa das empresas tende a acelerar mais as negociações de conversão de dívida. A partir de agora, quando começa a entressafra da cana-de-açúcar, as usinas endividadas têm pouco estoque (de açúcar e etanol) a vender, o que torna a já baixa geração de caixa ainda mais apertada para arcar, muitas vezes, com compromissos básicos, como o pagamento da folha salarial.
Na semana retrasada, por exemplo, funcionários da usina Catanduva, localizada em São Paulo e uma das principais unidades sucroalcooleiras do GVO, acamparam frente à empresa para reivindicar salários atrasados. Fornecedores de cana também têm parcelas em atraso a receber do grupo.
Pressão no caixa das empresas tende a acelerar mais as negociações de conversão de dívida
A conversão de dívida em ações foi a saída dos credores da Aralco para resolver a situação da companhia, com débitos estimados em R$ 1,2 bilhão. A empresa pediu recuperação judicial em abril de 2014, menos de um ano depois de emitir bonds de US$ 250 milhões para alongar dívidas. Em novembro passado, os credores aprovaram o plano de conversão de 60% da dívida em participação acionária. O prazo dessa conversão é de 15 anos, portanto, se antes disso as usinas do grupo (transformadas em Unidades Produtivas Independentes) forem vendidas, os credores podem usar os recursos para recuperar seus créditos.
Um dos primeiros casos do setor a adotar esse tipo de solução foi o do Grupo Baldin, que detinha duas usinas de cana-de-açúcar em São Paulo. No primeiro trimestre de 2013, os credores do grupo, já dentro de um processo de recuperação judicial, converteram dívidas de R$ 500 milhões em 80% do capital social da empresa. Com isso, os fundadores da empresa ficaram com uma participação minoritária no negócio. O plano, apesar de aprovado em assembleia de credores, foi contestado na Justiça e sofreu alguns ajustes, mas se manteve o formato da conversão de ações em equity.
As usinas que não conseguiram partir para essa modalidade estão apelando para outros recursos. O grupo Unialco, com operações em São Paulo e em Mato Grosso do Sul, há um ano costura um acordo com credores, e está prestes a fechar um acordo por meio do qual entregaria suas duas unidades aos credores, a maior parte bancos, que têm a receber R$ 600 milhões. Os atuais acionistas da empresa devem ficar com as terras onde estão plantadas cana-de-açúcar, cuja propriedade está no nome de membros da família (pessoas físicas). Mesmo esperando para vender as usinas no melhor momento do mercado, os credores, no entanto, devem receber menos do que lhes seria devido.
Com dívidas que superam seu faturamento, as usinas de cana-de-açúcar atravessam uma crise que se arrasta desde 2008 e que deriva de uma combinação de elevados investimentos em aumento de capacidade, contenção dos preços dos combustíveis no país e anos consecutivos de baixos preços do açúcar. Desde então, 80 usinas de cana fecharam as portas no Brasil e 67 entraram em recuperação judicial.
Outras nove unidades, em condições financeiras muito ruins, podem não conseguir retomar as operações na próxima safra, a 2015/16, que começa em abril. "São empresas endividadas e sem produto (etanol e açúcar) para vender a partir de agora até o início da próxima safra, em abril", afirma o diretor técnico da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), Antonio de Padua Rodrigues.
Agrava a situação desses grupos o fato de os bancos estarem relutantes em injetar dinheiro novo neste momento nas companhias alavancadas. "Renovações de crédito estão sendo feitas com novas garantias ou com taxas de juros mais salgadas", afirma o analista da Fitch, Cláudio Miori.
O maior caso de conversão de dívida em ações do setor foi o que sucedeu a compra da Santelisa Vale pela francesa Louis Dreyfus Commodities. Em 2009, quando a aquisição foi feita, a própria Dreyfus avaliou a nova companhia, na época batizada de LDC-SEV e hoje Biosev, em R$ 8 bilhões. Naquela época, os bancos credores da Santelisa converteram parte da dívida em 9% da nova empresa.
Sem crédito na praça e com dívidas a vencer no curto prazo, as usinas de cana-de-açúcar negociam com credores a conversão de parte das dívidas em participações acionárias. Na lista dos que tiveram que realizar esse tipo de operação, estão o grupo Baldin, em 2013, e mais recentemente, a Aralco. Neste momento, o Grupo Virgolino de Oliveira (GVO), um dos mais tradicionais do segmento, segue pelo mesmo caminho. Em muitos casos nessa linha, essas negociações podem culminar na tomada do controle do negócio pelos credores.
A conversão de dívida em ações vem se tornando uma saída praticamente compulsória às usinas muito alavancadas, agora que o mercado de captação por meio de emissão de dívida externa secou. Muito usado nos últimos três anos para alongar débitos, o mercado de dívida se fechou às empresas sucroalcooleiras com a entrada da Aralco em recuperação judicial menos de um ano após a emissão de bonds e com o risco elevado de "default" do GVO.
Especialistas em avaliação de risco da agência Fitch, que acompanha a situação financeira de uma dezena de empresas do agronegócio, não veem espaço para novas captações do gênero por usinas de cana no curto prazo - nem a taxas de juros mais elevadas.
Nas últimas semanas, ao menos duas grandes companhias com operações no agronegócio e consideradas de baixo risco de crédito (Cosan e JBS) tentaram emitir títulos de dívida no exterior, mas desistiram porque o mercado estava cobrando caro demais para absorver os papéis. "Para o setor de cana-de-açúcar, que tem risco elevado, praticamente não há neste momento 'preço' para emissões externas", diz o analista corporativo da Fitch, Mauro Storino.
As companhias sucroalcooleiras mais endividadas já há alguns anos não tinham mais limite de crédito no mercado bancário tradicional, que também não oferece linhas de longo prazo, mais adequadas à necessidade dessas empresas. No entanto, encontraram no mercado de bonds investidores com mais apetite por títulos de maior risco - e remuneração mais elevada.
Captações pontuais já haviam sido feitas antes pelo setor sucroalcooleiro, mas foi a partir de 2011 que elas passaram a ser mais frequentes. Desde então, ao menos quatro grupos de médio porte emitiram dívida externa. Somando-se GVO, Aralco, Tonon Bioenergia e grupo USJ, o montante captado chega a US$ 1,79 bilhão.
No primeiro bimestre de 2015, o GVO tem a pagar US$ 40,71 milhões somente dos juros dos cupons semestrais aos bondholders - US$ 23,09 milhões em janeiro e US$ 17,62 milhões no início de fevereiro. Neste momento, a empresa negocia com esses credores uma proposta de conversão de dívidas em participação acionária. Com US$ 735 milhões captados por meio de três emissões, o grupo tende, ao fim do acordo, a perder o controle do negócio, segundo fontes ouvidas pela reportagem.
Normalmente, a conversão de dívida em ações resulta também em "desconto" da dívida. "Não é incomum que isso aconteça, pois é preciso fazer a dívida 'caber' no equity da devedora", explica o advogado Joel Thomaz Bastos, do escritório Dias Carneiro Advogados. Mesmo quando os credores assumem a propriedade do negócio, ainda que consigam vendê-lo, a recuperação dos créditos acaba sendo parcial.
A pressão no caixa das empresas tende a acelerar mais as negociações de conversão de dívida. A partir de agora, quando começa a entressafra da cana-de-açúcar, as usinas endividadas têm pouco estoque (de açúcar e etanol) a vender, o que torna a já baixa geração de caixa ainda mais apertada para arcar, muitas vezes, com compromissos básicos, como o pagamento da folha salarial.
Na semana retrasada, por exemplo, funcionários da usina Catanduva, localizada em São Paulo e uma das principais unidades sucroalcooleiras do GVO, acamparam frente à empresa para reivindicar salários atrasados. Fornecedores de cana também têm parcelas em atraso a receber do grupo.
Pressão no caixa das empresas tende a acelerar mais as negociações de conversão de dívida
A conversão de dívida em ações foi a saída dos credores da Aralco para resolver a situação da companhia, com débitos estimados em R$ 1,2 bilhão. A empresa pediu recuperação judicial em abril de 2014, menos de um ano depois de emitir bonds de US$ 250 milhões para alongar dívidas. Em novembro passado, os credores aprovaram o plano de conversão de 60% da dívida em participação acionária. O prazo dessa conversão é de 15 anos, portanto, se antes disso as usinas do grupo (transformadas em Unidades Produtivas Independentes) forem vendidas, os credores podem usar os recursos para recuperar seus créditos.
Um dos primeiros casos do setor a adotar esse tipo de solução foi o do Grupo Baldin, que detinha duas usinas de cana-de-açúcar em São Paulo. No primeiro trimestre de 2013, os credores do grupo, já dentro de um processo de recuperação judicial, converteram dívidas de R$ 500 milhões em 80% do capital social da empresa. Com isso, os fundadores da empresa ficaram com uma participação minoritária no negócio. O plano, apesar de aprovado em assembleia de credores, foi contestado na Justiça e sofreu alguns ajustes, mas se manteve o formato da conversão de ações em equity.
As usinas que não conseguiram partir para essa modalidade estão apelando para outros recursos. O grupo Unialco, com operações em São Paulo e em Mato Grosso do Sul, há um ano costura um acordo com credores, e está prestes a fechar um acordo por meio do qual entregaria suas duas unidades aos credores, a maior parte bancos, que têm a receber R$ 600 milhões. Os atuais acionistas da empresa devem ficar com as terras onde estão plantadas cana-de-açúcar, cuja propriedade está no nome de membros da família (pessoas físicas). Mesmo esperando para vender as usinas no melhor momento do mercado, os credores, no entanto, devem receber menos do que lhes seria devido.
Com dívidas que superam seu faturamento, as usinas de cana-de-açúcar atravessam uma crise que se arrasta desde 2008 e que deriva de uma combinação de elevados investimentos em aumento de capacidade, contenção dos preços dos combustíveis no país e anos consecutivos de baixos preços do açúcar. Desde então, 80 usinas de cana fecharam as portas no Brasil e 67 entraram em recuperação judicial.
Outras nove unidades, em condições financeiras muito ruins, podem não conseguir retomar as operações na próxima safra, a 2015/16, que começa em abril. "São empresas endividadas e sem produto (etanol e açúcar) para vender a partir de agora até o início da próxima safra, em abril", afirma o diretor técnico da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), Antonio de Padua Rodrigues.
Agrava a situação desses grupos o fato de os bancos estarem relutantes em injetar dinheiro novo neste momento nas companhias alavancadas. "Renovações de crédito estão sendo feitas com novas garantias ou com taxas de juros mais salgadas", afirma o analista da Fitch, Cláudio Miori.
O maior caso de conversão de dívida em ações do setor foi o que sucedeu a compra da Santelisa Vale pela francesa Louis Dreyfus Commodities. Em 2009, quando a aquisição foi feita, a própria Dreyfus avaliou a nova companhia, na época batizada de LDC-SEV e hoje Biosev, em R$ 8 bilhões. Naquela época, os bancos credores da Santelisa converteram parte da dívida em 9% da nova empresa.