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Queda de Rendimento da Safra de Cana é Preocupante

30/07/2019 Colunista POR: Revista Canavieiros
Por: Marcos Fava Neves


Reflexões dos Fatos e Números do Agro


  • A elevação da temperatura nas relações comerciais entre China e EUA trouxe mais incertezas na manutenção do ritmo do crescimento global. O OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) agora estima este em 3,2% com as diminuições do fluxo de comércio. Poderia voltar a 3,4% em 2020, mas depende da não escalada tarifária, principalmente entre China e EUA. Os EUA deverão crescer 2,8% neste ano, a China 6,2%, o Japão 0,7% e a Zona do Euro 1,2%. Mas após a reunião do G20 em junho, no Japão, aparentemente um clima de mais otimismo voltou inclusive com chances da China comprar mais produtos agro dos EUA, num gesto de boa vontade ou “goodwill”.
  • A temperatura no comércio entre a Índia e os EUA também se elevou com a apresentação de tarifas pela Índia agora em 28 produtos dos EUA, atingindo maçãs, nozes e outros. O déficit americano com a Índia foi de US$ 21,3 bilhões em 2018. Para o nosso agronegócio, esta criação de conflitos até agora representou uma oportunidade.
  • Para o Brasil, houve redução de velocidade. O novo relatório Focus do Banco Central é mais conservador para o nosso crescimento. Derrubou de 1,13% para 1% o crescimento do PIB esperado para este ano e de 2,5% para 2,23% no próximo. A inflação também cai de 4,03% para 3,89% em 2019 e fica em 4% ano que vem. A Selic é esperada em 6,50% para o final de 2019 e 7% no final do ano que vem e, finalmente, o câmbio ficou em R$ 3,80 para dezembro deste ano e do próximo.
  • Dentre os estudos mundiais relevantes em julho, vale destacar o novo relatório da OCDE e da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) para a agricultura e alimentação, reforçando o papel das Américas na produção e exportação de alimentos.
  • O estudo coloca que a América Latina e o Caribe devem passar de 23% para 25% das crescentes exportações mundiais do agronegócio até 2028. Divididas pelas principais commodities, o açúcar cresce 7%, o arroz 24%, o trigo 23%, as oleaginosas 40,5%, a carne bovina 57%, o frango 27% e os suínos 33%. Boa parte disto será no Brasil. Liderada  por este aumento de exportações, a produção de cereais deste grupo de países crescerá 22%, puxando o aumento de produção mundial previsto em 15% (produção mundial atingirá 3,053 bilhões de t), com produtividades aumentando 1,1% ao ano. Nas carnes cresceremos 16%, também acima do crescimento mundial previsto em 13%.
  • O relatório fortalece nossa hipótese de que o abastecimento das crescentes importações da Ásia e África (apesar de que a taxa de crescimento do consumo de grãos cai de 2,1% a.a. para 1,2% a.a) será feito pela nossa produção. Mas o relatório também prevê que os preços em dólar cairão cerca de 1,2% ao ano em termos reais.
  • Para o milho esperam que em 2028 a produção aumente 183 milhões de t, assim distribuídas: China 47 m.t.; EUA 31 m.t.; Brasil 25 m.t.; Argentina 17 m.t. e Ucrânia 6 m.t.. O consumo em 2028 seria de quase 190 milhões de t a mais. Na última década, o consumo cresceu 265 milhões de t (comparando o que era consumido em 2008 com 2018). O mercado importador de milho crescerá 33 milhões de t, atingindo 193 milhões em 2028 que terão 90% exportados por cinco países (EUA, Brasil, Argentina, Ucrânia e Rússia). Os cinco maiores compradores serão México, União Europeia, Japão, Coreia do Sul e Egito, com quase 45% do total.
  • Nos próximos dez anos, o crescimento da produção de soja no Brasil deve superar 1,8% ao ano, e nos EUA, 1,2% ao ano. Por esta projeção, chegaremos a produzir 144 milhões de t de soja em 2028. A China deve importar cerca de 113 m.t. de soja em 2026, quase 65% do total. Quase 90% da soja exportada serão do Brasil, EUA e Argentina, sendo que o Brasil deve atingir sozinho mais de 42%.
  • Em relação aos grãos, a nova previsão da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) agora traz 238,9 milhões de t para a safra 2018/19, quase 5% acima da safra anterior. A área plantada encostou em 63 milhões de hectares, praticamente 2% acima da área anterior. Agregamos 672,8 mil hectares de soja, 795,3 mil hectares de segunda safra de milho e 425 mil hectares de algodão. O maior aumento de produção observado é no milho, que chegará a 97 milhões de t e a soja ficará bem próxima a 115 milhões. O milho vem em boa hora com a possível perda de produção na recentemente plantada safra americana e a necessidade de mais ração para carnes no Brasil com as maiores importações da China e outros países do Sudeste Asiático, pois segue o problema da peste suína africana na China, com impactos ainda não exatamente quantificados, mas que serão grandes.
  • O acordo entre Mercosul e União Europeia agitou o mês. Foram duas décadas de conversas, e não deixa de ser uma onda contrária aos movimentos protecionistas recentes. É uma ampla redução ou eliminação gradual de tarifas. A UE é o principal parceiro do bloco e representa 720 milhões de pessoas e 25% do PIB mundial. De início estima-se uma redução de tarifas de 4 bilhões de euros à UE. Para a UE vai interessar mais os mercados de produtos manufaturados, entre eles carros, vinhos, queijos, além de contratos públicos. Já para o Mercosul, abre-se mais o mercado para frutas, suco de laranja, café, carnes, açúcar e etanol. A redução das tarifas é gradual, reduzindo os impactos imediatos, e algumas levarão até dez anos e no caso de carros, 15 anos. Ainda é necessária a aprovação dos países, o que pode levar muito tempo. Será enfrentada muita resistência dos lobbies agrícolas europeus, bem como preocupações na área ambiental brasileira. A UE estabeleceu cotas em alguns produtos, mais sensíveis ao bloco, que serão distribuídas de alguma forma pelo governo brasileiro, na cota que o couber dentro do Mercosul.
  • Pela análise do Mapa (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento), quando em regime total, 82% dos produtos agro do Brasil terão acesso livre ao mercado europeu. 18% dos produtos passarão por cotas. Diversas frutas que pagavam tarifas ao redor de 10% irão a zero em 10 anos (melancia, maçã, limões, limas, abacates, uvas, entre outras). No caso do café processado, em 4 anos cai a zero a tarifa atual de 9% e no fumo também cai a zero de 4 a 7 anos, dependendo do estágio de processamento. Para peixes e outros pescados, de 7 a 10 anos para caírem todas as tarifas. Estes fazem parte dos 82% que não terão restrições tarifárias.
  • Dos que terão cotas (volumes), vale destacar a carne bovina (99 mil t peso carcaça com tarifa de 7,5%), e a tarifa de 20% da cota Hilton (10 mil t) cai a zero no início da vigência do acordo. Nas aves, a cota estabelecida foi de 180 mil t com tarifa zero. Na suína perdurou uma tarifa de 83 euros/t para 25 mil t, e no ovo 3 mil t sem tarifas. No açúcar são 180 mil t sem tarifa, no arroz 60 mil t e no milho 1 milhão de t. Estes volumes podem aumentar a partir do quinto ano de vigência. No caso dos biocombustíveis, o etanol ficou com 450.000 l de cota para tarifa zero. Abre-se mais o mercado para a cachaça também, cuja taxa cai de 9 para zero em 4 anos, de acordo com o Mapa. As tarifas para o suco de laranja também vão para zero em 10 anos.
 
Reflexões dos Fatos e Números da Cana
  • Ate o final de junho (no acumulado da safra), segundo a Unica (União da Indústria de Cana-de- Açúcar), 34,73% da cana foi para açúcar e 65,27% para o etanol. Processamos 216,9 milhões de t, 3% abaixo das 223,7 milhões da safra passada, produzindo 9% a menos de açúcar (8,9 contra 9,8 milhões de t), 1,73% a menos de anidro (total de 3,2 bilhões de l) e 5,4% a menos de hidratado (7,4 bilhões de l). O ATR por tonelada de cana está 3,8% menor. Estamos com qualidade pior e produtividade pior, refletindo em rendimentos abaixo do esperado. É muito preocupante esta queda de rendimento com 40% da safra colhida.
  • Em relação às empresas, três destaques: a Vale do Paraná já apresentou dados à consultoria SGS atendendo aos critérios de elegibilidade para emitir os CBios. A São Martinho espera moer 22 milhões de t na safra atual (2019/20), 8% acima do ano passado, principalmente devido ao melhor clima e produtividade. Esperam ATR médio de 139 kg/t, 2% menor. Na safra 2018/19 a empresa teve lucro líquido de R$ 461,4 milhões.
  • A Copersucar espera que a demanda de etanol nos EUA possa crescer até 50% com a mudança permitindo adição de 15% de etanol à gasolina em todo o ano. Seus resultados no ano 2018/19 (abril a março) foram positivos, com lucro líquido de R$ 178 milhões. O faturamento foi de R$ 28,7 bilhões. Refletindo o que foi a safra brasileira, o seu mix de comercialização foi de quase 68% de etanol. Foram 3,8 milhões de t de açúcar e 4,8 bilhões de l de etanol, sendo 700 milhões de l exportados.
 
Açúcar
  • A nova projeção da OIA (Organização Internacional do Açúcar) agora coloca o superávit global na safra atual (2018/19) em 1,8 milhão de t. Para (2019/20) é esperado déficit de 3 milhões de t, e ao final desta safra teremos estoques 2% maiores, de quase 95 milhões de t. Produziremos nesta safra 2018/2019 o total de 178,75 milhões de t para um consumo de 176,9 milhões de t. O USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos) estima em 180,7 milhões de t a produção global de açúcar na temporada 2019/20.
  • A nova estimativa da Índia trouxe a perspectiva de 28,2 milhões de t de açúcar na temporada 2019/20, quase 15% de quebra em relação à atual. Segundo a Associação Indiana de Usinas de Açúcar, os elevados estoques permitirão ao país continuar exportando em 2020.
  • As exportações de açúcar em junho foram de 1,538 milhão de t, 20% menores que o mesmo mês de 2018. Este número também é 12,1% menor que o de maio. Com isso, o valor foi de US$ 447 milhões, 17,2% a menos que o de maio (US$ 540 milhões) e 22% menor que junho de 2018 (US$ 573 milhões). Neste ano vendemos 7,969 milhões de t, 18% menor que o mesmo período do ano passado e valor de US$ 2,346 bilhões, 27% menor.
  • Finalmente Brasil, Austrália e Guatemala pediram na OMC (Organização Mundial do Comércio) um painel contra os subsídios da Índia no caso do açúcar. Levantamento apresentado pelo Itamaraty para a safra 2018/19 mostrou que a produção adicional da Índia deprimiu os preços em 25,5% e isto trouxe uma perda de US$ 1,3 bilhão nas exportações brasileiras. Estima-se que o preço mínimo pago à cana na Índia estipulado pelo governo tenha dobrado em sete anos, inundando o mercado mundial de açúcar. A Índia deveria fortalecer seu programa de etanol para manter a renda dos produtores e ajudar no mercado mundial de açúcar.
  • Foi um mês de pouca novidade em preços, ficando na casa de 12 a 13 cents/libra peso e cerca de R$ 63 a saca no mercado interno.
Etanol
  • Seguem as boas notícias de consumo, mesmo com a economia brasileira ainda sem aceleração significativa. Segundo a ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis), as vendas de etanol hidratado em maio foram de 1,87 bilhão de l, 42% maior que na comparação com maio de 2018. Nos primeiros cinco meses deste ano comercializou-se 9,03 bilhões de l, 37% a mais. Pode-se atingir um valor de vendas entre 25 e 28 bilhões de l neste ano. Segundo a Unica, nos primeiros 15 dias de junho vendeu-se pelas unidades produtoras da região Centro-Sul 1,30 bilhão de l, sendo 354,76 milhões de anidro. De hidratado foram 902,03 milhões de l, um excelente resultado.
  • O presidente da Unica acredita que podemos produzir entre 47 e 50 bilhões de l de etanol por safra até 2028, lembrando que hoje estamos ao redor de 33 bilhões de l. Este crescimento será graças ao RenovaBio e tudo o que vem por trás destes investimentos em ampliação das unidades. Poderão ser emitidas debêntures no valor de R$ 62,3 bilhões por ano. O governo estima que o RenovaBio deve oferecer R$ 13 bilhões por ano na economia, sendo R$ 9 bilhões na renovação de canaviais.
  • O CNPE (Conselho Nacional de Política Energética) aprovou em 4 de junho o período de 180 dias para que o Ministério da Economia analise as mudanças de tributação para a liberalização do mercado de etanol. Parece que desta vez veio para ficar. Um dos agentes da cadeia seria o responsável pelo recolhimento de todos os impostos. É necessário aprovação do Congresso. Além da questão tributária, é preciso ver como funcionarão os controles de qualidade, o efetivo pagamento de impostos e os créditos do RenovaBio.
  • Estuda-se nos EUA eliminar o benefício que pequenas refinarias (até 75 mil barris por dia de produção) têm para não adicionar etanol na mistura de gasolina, caso o etanol cause dano econômico. Em maio foram liberadas as vendas de E15 durante todo o ano, antes apenas era permitido no verão, mas teve pouco efeito. Quanto mais etanol consumido nos EUA, mais o agronegócio brasileiro ganha.
  • Segundo a AIE (Agência Internacional de Energia), os biocombustíveis devem ter 19% de participação no setor de transportes mundial até 2023. Os maiores potenciais de crescimento estão em China e Índia, que podem chegar a uma meta de 10% em 2020. São países onde o consumo de combustíveis cresce mais de 5% ao ano.
  • De acordo com a corretora SCA Etanol do Brasil, os preços do hidratado neste mês permaneceram ao redor de R$ 2,00/l com impostos nas usinas e o anidro ao redor de R$ 1,95/l. Estamos conseguindo atravessar a safra sem queda significativa, o que é muito importante.
  • A EPA (Agência de Proteção Ambiental dos EUA) acredita que os EUA importação cerca de 60 milhões de galões de etanol vindos do Brasil em 2020, reduzindo sua projeção anterior para atender ao mandato de “biocombustíveis avançados” do próximo ano, proposto em 5,04 bilhões de galões. Nos últimos dois anos, a EPA vinha estimando que essas importações do etanol brasileiro ficariam na casa dos 100 milhões de galões. É um ajuste para a média dos últimos 4 anos. Também teremos algum espaço na cota de celulósicos, com o etanol feito à partir do bagaço da cana. Manteve em 15 bilhões de galões o espaço para o etanol de milho e outros considerados convencionais.
  • Uma análise de longo prazo feita pelo prof. Adriano Pires mostrou que ano passado o Brasil consumiu praticamente 80 milhões de m³ de diesel e gasolina (sem contar biodiesel e etanol), com quase 20% importados. Com a retomada da economia (a relação entre o quanto aumenta o uso de combustíveis com a variação do PIB pode chegar a 2 para 1) e a dificuldade de ampliação da oferta interna, maiores volumes de importações serão necessárias, portanto temos que investir em capacidades industriais e de movimentação.
 
Finalizando, qual seria a minha estratégia com base nos fatos?
  • O que observar agora em julho/agosto: mais uma vez torcer pelos preços do petróleo permanecerem em patamares que viabilizem a explosão de vendas de hidratado com margem para as usinas. É o que nos resta neste momento para salvar o valor do ATR, lembrando que com o andar da carruagem e a qualidade da cana até o momento, podemos ter importante frustração nas produções esperadas de açúcar e etanol.
 
Homenageado do mês
Desta vez, nossa singela homenagem vai ao amigo Luis Arakaki. Exemplo de família empreendedora no Noroeste do nosso Estado, ele também é um grande espírito inovador e empreendedor.
 
*Marcos Fava Neves é professor titular (em tempo parcial) das Faculdades de Administração da USP em Ribeirão Preto e da FGV em São Paulo, especialista em Planejamento Estratégico do Agronegócio. Confira textos, vídeos e outros materiais no site doutoragro.com