Queda do petróleo coloca renováveis em risco no Brasil

28/01/2016 Cana-de-Açúcar POR: Valor Econômico
O impacto que a queda vertiginosa do preço do petróleo pode ter na matriz de energia é diferente no Brasil e no mundo. Se nos países industrializados a crise não deve afetar a expansão da geração de eletricidade por fontes renováveis, no Brasil pode estimular o uso das térmicas movidas a combustíveis fósseis e prejudicar a competitividade dos biocombustíveis, acreditam alguns analistas.
"Aqui o risco é maior e o país deve evitar as armadilhas", alerta o físico e especialista em energia José Goldemberg, presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, a Fapesp e ex-ministro da Educação, no começo da década de 90.
As energias renováveis mais comuns, eólica e solar, são usadas para produzir eletricidade em países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Nas nações industrializadas, as renováveis competem com carvão, não com petróleo. Isso também acontece na China e Índia, que usam muito carvão. Por isso, analistas internacionais acreditam que o mercado de energias renováveis não se abalará com o preço do petróleo em queda. "Seria muito caro mudar toda a infra-estrutura para produzir eletricidade a partir do petróleo", diz Goldemberg.
O cenário é diferente no Brasil. O petróleo cada vez mais barato pode estimular o uso maior das termelétricas movidas com derivados do petróleo, como o Brasil já vem fazendo para compensar as perdas com energia hidrelétrica quando os reservatórios estão baixos, uma das "armadilhas" citadas por Goldemberg. "Essa é a lógica puramente econômica, e isso não deveria acontecer", aconselha.
A outra ameaça, na visão dele, é seguir explorando o pré-sal. "Continuar investindo no pré-sal é ir na contramão do mundo. Talvez o Brasil tenha que enfrentar essa realidade". Goldemberg se refere às notícias da semana passada, com grandes empresas adiando investimentos de US$ 380 bilhões em exploração de petróleo em "lugares problemáticos, como o Ártico", cita.
No último ano e meio, o preço do petróleo caiu mais de 75%. Saiu de US$ 110 o barril para ficar em menos de US$ 30 nos últimos dias. Enquanto isso, o mercado das renováveis coleciona boas notícias. É provável que a China bata dois novos recordes, ter instalado 30,5 gigawatts (GW) de eólica em um único ano, 2015, e ainda, 16,5 GW de solar. A usina de Belo Monte, a título de comparação, terá potência instalada de 11,2 GW.
"O que se imagina é que a China irá migrar do carvão direto para as renováveis", diz a engenheira Suzana Kahn, presidente do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PMBC), que reúne cerca de 350 cientistas brasileiros. O preço baixo do petróleo é conjuntural, e os investimentos da indústria de energia são de longo prazo, analisa. "As oscilações do preço do petróleo não afetam tanto a estratégia de investimento do setor, por isso não acredito que atrapalharia o bom momento das renováveis".
Para Suzana, as renováveis se beneficiam da instabilidade do Oriente Médio, porque os países buscam segurança energética. "As renováveis têm a vantagem de serem fontes de energia distribuídas e geradas localmente. Essas instabilidades, de certa forma, beneficiam as renováveis, que não estão sujeitas às oscilações mundiais".
"No caso brasileiro, o consumo de petróleo ocorre basicamente no transporte", diz André Ferreira, diretor¬presidente do Instituto de Energia e Meio ambiente (Iema), de São Paulo. "Para nós, o grande desafio desse cenário está em viabilizar combustíveis renováveis. Se o petróleo se mantiver baixo assim, dificulta o etanol de segunda geração, que vem sendo pesquisado no Brasil", cita Ferreira. "Mesmo o etanol que usamos hoje pode ser desafiado no futuro, se essa situação se prolongar. Nosso problema está aí, na competitividade do etanol, não na geração de energia elétrica".
"A discussão central, que vai além do petróleo, é o Brasil falar sobre o nosso portfólio de ativos para a nova economia", diz Carlos Nomoto, secretário-executivo do WWF-Brasil. "Na nossa cesta de ativos temos água, floresta, luminosidade, ventos e 8 mil quilômetros de costa. A dependência do Brasil ao petróleo não deveria ser assim".
Para Nomoto, que trabalhou mais de 20 anos no mercado financeiro, "é preciso precificar estes ativos e valorizá¬los." Ele defende que o país crie "um ambiente regulatório para atrair capital para isso. Dinheiro existe e o Brasil poderia ser o país perfeito para investidores nestes recursos".
Segundo relatório da Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês), de novembro, pelo menos 27 países estão reduzindo ou acabando com os subsídios aos combustíveis fósseis. Na ausência de subsídios, as tecnologias das renováveis se tornam ainda mais competitivas.
"O setor de energias renováveis tem crescimento mais estável", diz Pedro Telles, da campanha de clima e energia do Greenpeace. "O preço do petróleo está baixo agora. Mas até quando irá sustentar esse nível? A perspectiva de longo prazo das energias renováveis é mais atraente do que a do petróleo." Telles lembra a mensagem do acordo assinado na CoP¬21: "O principal sinal do Acordo de Paris foi que teremos que ficar longe dos combustíveis fósseis". 
O impacto que a queda vertiginosa do preço do petróleo pode ter na matriz de energia é diferente no Brasil e no mundo. Se nos países industrializados a crise não deve afetar a expansão da geração de eletricidade por fontes renováveis, no Brasil pode estimular o uso das térmicas movidas a combustíveis fósseis e prejudicar a competitividade dos biocombustíveis, acreditam alguns analistas.
"Aqui o risco é maior e o país deve evitar as armadilhas", alerta o físico e especialista em energia José Goldemberg, presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, a Fapesp e ex-ministro da Educação, no começo da década de 90.
As energias renováveis mais comuns, eólica e solar, são usadas para produzir eletricidade em países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Nas nações industrializadas, as renováveis competem com carvão, não com petróleo. Isso também acontece na China e Índia, que usam muito carvão. Por isso, analistas internacionais acreditam que o mercado de energias renováveis não se abalará com o preço do petróleo em queda. "Seria muito caro mudar toda a infra-estrutura para produzir eletricidade a partir do petróleo", diz Goldemberg.
O cenário é diferente no Brasil. O petróleo cada vez mais barato pode estimular o uso maior das termelétricas movidas com derivados do petróleo, como o Brasil já vem fazendo para compensar as perdas com energia hidrelétrica quando os reservatórios estão baixos, uma das "armadilhas" citadas por Goldemberg. "Essa é a lógica puramente econômica, e isso não deveria acontecer", aconselha.
A outra ameaça, na visão dele, é seguir explorando o pré-sal. "Continuar investindo no pré-sal é ir na contramão do mundo. Talvez o Brasil tenha que enfrentar essa realidade". Goldemberg se refere às notícias da semana passada, com grandes empresas adiando investimentos de US$ 380 bilhões em exploração de petróleo em "lugares problemáticos, como o Ártico", cita.

 
No último ano e meio, o preço do petróleo caiu mais de 75%. Saiu de US$ 110 o barril para ficar em menos de US$ 30 nos últimos dias. Enquanto isso, o mercado das renováveis coleciona boas notícias. É provável que a China bata dois novos recordes, ter instalado 30,5 gigawatts (GW) de eólica em um único ano, 2015, e ainda, 16,5 GW de solar. A usina de Belo Monte, a título de comparação, terá potência instalada de 11,2 GW.
"O que se imagina é que a China irá migrar do carvão direto para as renováveis", diz a engenheira Suzana Kahn, presidente do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PMBC), que reúne cerca de 350 cientistas brasileiros. O preço baixo do petróleo é conjuntural, e os investimentos da indústria de energia são de longo prazo, analisa. "As oscilações do preço do petróleo não afetam tanto a estratégia de investimento do setor, por isso não acredito que atrapalharia o bom momento das renováveis".
Para Suzana, as renováveis se beneficiam da instabilidade do Oriente Médio, porque os países buscam segurança energética. "As renováveis têm a vantagem de serem fontes de energia distribuídas e geradas localmente. Essas instabilidades, de certa forma, beneficiam as renováveis, que não estão sujeitas às oscilações mundiais".
"No caso brasileiro, o consumo de petróleo ocorre basicamente no transporte", diz André Ferreira, diretor¬presidente do Instituto de Energia e Meio ambiente (Iema), de São Paulo. "Para nós, o grande desafio desse cenário está em viabilizar combustíveis renováveis. Se o petróleo se mantiver baixo assim, dificulta o etanol de segunda geração, que vem sendo pesquisado no Brasil", cita Ferreira. "Mesmo o etanol que usamos hoje pode ser desafiado no futuro, se essa situação se prolongar. Nosso problema está aí, na competitividade do etanol, não na geração de energia elétrica".
"A discussão central, que vai além do petróleo, é o Brasil falar sobre o nosso portfólio de ativos para a nova economia", diz Carlos Nomoto, secretário-executivo do WWF-Brasil. "Na nossa cesta de ativos temos água, floresta, luminosidade, ventos e 8 mil quilômetros de costa. A dependência do Brasil ao petróleo não deveria ser assim".
Para Nomoto, que trabalhou mais de 20 anos no mercado financeiro, "é preciso precificar estes ativos e valorizá¬los." Ele defende que o país crie "um ambiente regulatório para atrair capital para isso. Dinheiro existe e o Brasil poderia ser o país perfeito para investidores nestes recursos".
Segundo relatório da Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês), de novembro, pelo menos 27 países estão reduzindo ou acabando com os subsídios aos combustíveis fósseis. Na ausência de subsídios, as tecnologias das renováveis se tornam ainda mais competitivas.
"O setor de energias renováveis tem crescimento mais estável", diz Pedro Telles, da campanha de clima e energia do Greenpeace. "O preço do petróleo está baixo agora. Mas até quando irá sustentar esse nível? A perspectiva de longo prazo das energias renováveis é mais atraente do que a do petróleo." Telles lembra a mensagem do acordo assinado na CoP¬21: "O principal sinal do Acordo de Paris foi que teremos que ficar longe dos combustíveis fósseis".