Rumos da economia

11/11/2021 Noticias POR: Eddie Nascimento

Paulo Molinari - Consultor Safras & Mercado

 

Instabilidade política, elevação de preços, custos de produção e os rumos da economia mundial, são assuntos atuais, que mudam constantemente e o produtor deve ficar de olho. Para exibir o retrato do momento, a Revista Canavieiros traz uma entrevista com o Consultor Safras & Mercado, Paulo Molinari.

Paulo Roberto Molinari é economista, bacharel em Ciências Econômicas pela UFPR e pós-graduado em Agribusiness pela FAE. Atua em análise econômica e de mercados agrícolas. É especializado em análise técnica. Também é analista sênior em Agribusiness.

Revista Canavieiros: Paulo, o que é possível transmitir aos produtores sobre os aspectos do mercado financeiro?

Paulo Molinari: Estamos em uma fase de transição inédita para a economia mundial e para o agronegócio global. Esta pandemia trouxe mudanças drásticas nas relações de mercado, distribuição, atitudes de política monetária e econômica e mudanças sociais que podem ou não ser permanentes. De fato, esta geração não dispõe de experiência neste quadro pandêmico e tudo que se tenta fazer para corrigir a trajetória econômica passa a ser um teste diante do que vai ocorrendo. Portanto, o pós-pandemia também é um grande teste para as economias e para recomposição global das cadeias produtivas. O primeiro ponto é a recomposição da demanda em um quadro de altíssima liquidez global. Isto gera inflação e ações de inversão das atitudes dos bancos centrais, ou seja, de juros baixos e alta liquidez para juros em alta e retração da liquidez. É a forma de controlar a inflação. Esta curva de juros será muito importante nos próximos meses e quanto mais tardia for a elevação de juros mais cedo a inflação será constatada. Para o agronegócio, a demanda, é claro, é um ponto fundamental e será o grande foco nos próximos dois anos. Porém, as cadeias produtivas apresentaram traumas logísticos e de um processo organizado notamos uma dificuldade de recomposição do ajuste da produção e distribuição. Isto vai afetando os insumos agrícolas, em particular, fertilizantes e químicos. Uma temporada de custos altos exigindo preços finais de mercado altos é o ponto de observação para os preços das commodities nas próximas semanas. Quando as cadeias de distribuição voltarem a se compor, é possível uma acomodação geral de custos e preços finais, retomando níveis próximos as médias mais recentes.

Revista Canavieiros: O que o mercado tem apontado, qual é a perspectiva?

Molinari: De forma geral, precisamos de mais produção para atender uma demanda pós-pandemia. Os produtores irão tentar mais uma safra recorde mundial em 2022. A questão são os custos de insumos, fertilizantes e químicos, com preços altíssimos e dificuldades na distribuição. Os custos altos podem ser indicadores de contenção deste aumento de produção de curto prazo e manter os  preços ainda firmes com estoques baixos.

Revista Canavieiros: Como estão as commodities? O que é possível falar sobre cada uma delas?

Molinari: Cada commodity detém o seu perfil e importância. O café dispõe de uma safra brasileira muito ruim para 22/23 e isto sustenta preços além da recomposição global da demanda. O mercado do complexo rações, soja, milho e trigo, estão sustentados pela boa demanda global, estoques baixos nos EUA e incógnita sobre a continuidade das importações por parte da China. O algodão tem excelente demanda por parte da China e sustenta preços. É importante refletir que algumas commodities hoje dependem, basicamente, dos movimentos da China no mercado internacional, ou seja, soja, milho, trigo, algodão, carne bovina e carne suína. O momento é muito bom para a maioria das commodities com a atenção apenas ao crescimento dos custos de produção.

Revista Canavieiros: Como você tem analisado as lavouras pesquisadas pela Consultoria Safras e Mercados, o que se pode falar sobre a safra brasileira?

Molinari: A safra brasileira deverá ter novamente um recorde de produção para a soja, com 142,2 MT previstas. O milho deverá recuperar plenamente a sua produção, com previsão para 122 milhões de toneladas em 2022. Apenas o café tem uma visão de perda forte de produção para 2022 diante da seca e das geadas registradas em 2021. De forma geral, o Brasil deve manter a sua tendência de ser um grande produtor e exportador em 2022. O único ponto de avaliação e de atenção é o fenômeno climático LA NINA, que pode trazer algum tipo de surpresa negativa para o Sul do Brasil e Argentina.

Revista Canavieiros: Em relação aos outros países, os problemas que tivemos por aqui, como geadas, falta de chuvas, que de alguma forma afetaram parte da produção, é possível falar se outros países também passaram por problemas parecidos em suas safras?

Molinari: Esta foi uma situação característica dos efeitos do La Nina em 20/21, atingindo Argentina, Paraguai e Brasil em suas lavouras de verão e inverno. Mas, esta condição não foi evidenciada em outros países de forma tão expressiva. Nos EUA, houve perdas no trigo e o aumento de produção do milho foi contido. Canadá e Rússia apresentaram pequenas perdas de produção no trigo.

Revista Canavieiros: Plantio. Quais são os avanços e as expectativas para os principais grãos como a soja e milho?

Molinari: Basicamente agora, o foco está concentrado nas safras da América do Sul. Os potenciais são de safras recordes na região. Se isto se confirmar, a acomodação de preços no mercado internacional é o ponto a ser avaliado para 2022. Somente uma demanda muito além de qualquer expectativa poderia neutralizar acomodações de preços em 2022 para as duas commodities.

Revista Canavieiros: Qual é a tendência para a nova área plantada, e os preços estão atrativos?

Molinari: No milho, a área esta prevista em 0,3% de acréscimo, 21,17 milhões de hectares. Na soja, 2,2% de aumento de área, 39,82 milhões de hectares. Os preços são excepcionais nas duas culturas, com níveis recordes.

A soja praticamente dobrou seu preço em relação a 2020, o mesmo ocorrendo com o milho. O único ponto de atenção é de que os custos de produção também estão subindo agressivamente. Fertilizantes e químicos têm preços recordes e está contendo um pouco a rentabilidade do setor.

Revista Canavieiros: De alguma forma, essa safra vai impactar em outros seguimentos, como a produção de carne?

Molinari: Safras boas podem se traduzir em acomodação de preços, consequentemente ajudam a conter custos altos no setor carnes. Há grande potencial de aumento de produção no setor carnes, mas precisamos de alavancagem da demanda e também de oferta de insumos a preços acessíveis.

Revista Canavieiros: Pecuária. Como está a situação da exportação da carne brasileira para outros países?

Molinari: Na carne bovina, as exportações são recordes e não vemos como este processo de crescimento de vendas possa ser alterado. Diante da demanda mundial mais forte e da China sendo a grande compradora de carne brasileira, o Brasil deve manter bons ritmos de vendas este ano e em 2022. Na avicultura, o Brasil segue bem nas exportações, com aumento de vendas para mais de 150 países. O setor segue mantendo a boa distribuição mundial de exportação. Na suinocultura, a situação é um pouco diferente. A China recompôs a sua produção com fortes investimentos na importação de matrizes e alojamentos elevados. Agora, há excesso de produção na China, o governo precisa comprar e estocar carne para neutralizar as baixas e os preços internacionais desabaram. O grande boom de vendas de carne suína para a China certamente acabou. Agora, dependerá de um novo grande indicador mais à frente.

Revista Canavieiros: Ainda sobre a pecuária, quais são as perspectivas para os próximos meses?

Molinari: Há duas situações: a demanda interna e o fluxo de exportações. A demanda interna sofre diretamente com a perda de poder de compra da população devido à a lta i nf lação x s alários. D esta forma, o a lto preço da carne bovina está direcionando a demanda para as opções frango e suíno. Isto ajuda estes dois setores, os quais seguem com bom ritmo de produção e preços. A carne bovina depende exclusivamente das boas compras e a preços altos por parte da China. Sem China temos uma situação, com China o quadro é outro. Portanto, a retomada das compras da China é fundamental para a observação do quadro mais à frente de preços, pois somente a demanda interna não absorve tais preços altos da carne bovina. As exportações de carne suína devem se estabilizar ou até ceder nas próximas semanas. No frango, o ritmo é forte e deverá se manter desta forma.

Revista Canavieiros: Como o mercado internacional tem reagido à insegurança institucional brasileira, isso prejudica de alguma forma o mercado do agro?

Molinari: A crise brasileira é institucional e foca na tentativa de influenciar a transição política brasileira. A questão é que envolve um dos poderes que não poderia ter viés ideológico e político. Neste ponto, se instaura a insegurança política e jurídica e inibe a entrada de investimentos, influencia o câmbio e acelera situações como a inflação. Não se trata de prejudicar apenas o agro, mas, sem dúvida, sem este processo institucional o Brasil poderia estar constatando um nível de crescimento econômico mais expressivo, ações de investimentos mais contundentes e uma entrada de capitais no país surpreendente. O ambiente jurídico de insegurança nos traz o pior quadro possível para 2022 envolvendo o processo eleitoral.