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Rústicos sistematizados

Produtores tecnificados de amendoim conseguem plantio de sucesso em outubro seco

Por: Marino Guerra

Mesmo sendo uma planta considerada rústica, o produtor especialista sabe que para ter rentabilidade na cultura do amendoim somente a produtividade não basta, é preciso haver um encaixe perfeito com a qualidade.

Diante dessa regra, em que o destino de quem a quebra é, na maioria das vezes, um sério problema financeiro, os agricultores se vêem diante de uma corrida constante pelas melhores técnicas para manejar suas roças.

Claro que às vezes as condições climáticas de uma safra, como a do ano passado, deixam todos com um pé atrás, principalmente quando se fala em investimentos, mas mesmo na quebra, o produtor de amendoim profissional consegue tirar proveito dos ensinamentos, passando a tomar atitudes para, pelo menos, tentar diluir os problemas gerados em anos ruins.

Para o período de plantio deste ano, que veio bastante "ralo" em água, é inegável que a apreensão voltou à mente dos produtores. Um novo castigo de São Pedro seria devastador para muitos, mas as sementes brotaram e com a chuva chegando num volume positivo na primeira semana de novembro, o ânimo e as plantas conseguiram arrancar.

Essa conclusão veio após milhares de quilômetros rodados visitando diversos participantes do “Projeto Amendoim” da Copercana.

Na região de Tupã, um dos mais experientes é o engenheiro mecânico, apenas formado, pois sua carreira toda foi construída na roça, Flávio Pavão de Souza, que neste ano plantará cerca de 550 alqueires, sendo pouco mais da metade em Rancharia e o restante dividido entre os municípios de Ipê e Nantes.

Desde a década de 80 na cultura e devido a sua experiência, ele se acostumou aos altos e baixos das safras e, para se proteger dos períodos de depressão, possui duas medidas.

A primeira consiste na entrada no projeto da Copercana. Participando desde 2005, Souza destaca que o apoio na compra de insumos, máquinas e equipamentos, aliado a um suporte técnico especializado, faz com que a navegação nos mares do amendoim seja mais estável.

Ele exemplifica que no ano passado, se não fosse pela qualidade das sementes, sua produtividade seria bem menor que as 400 sacos por alqueire que conseguiu colher.

Sua segunda estratégia de defesa se baseia na integração com outras culturas e até mesmo com a pecuária. Souza arrenda áreas de reforma de pasto geralmente por dois anos e nesse tempo pode tomar duas atitudes diferentes: entrar com amendoim, plantar milheto no inverno e colocar gado (do dono da terra, fazendo com que caia o valor do arrendamento, ou animais próprios que, ao término do período, vão para um semiconfinamento ).

Ao escolher trabalhar consorciado com uma segunda lavoura, sua opção é pela mandioca. Então, ele entra com o plantio entre abril e maio, e como o seu ciclo dura 15 meses, ele depende da época em que a terra estará disponível para entrar com o amendoim antes ou depois. No entanto, Souza pode chegar a fazer até duas safras da oleaginosa caso consiga negociar alguns meses a mais com o dono da terra.

Fiel em iniciar seu plantio no dia 20 de setembro, mesmo com o período ameaçando ser seco, ao final do mês ele já havia enterrado sementes em 216 alqueires e, na metade de outubro, quando foi feita a entrevista, já tinha 500 alqueires plantados.

Quando questionado sobre um possível arrependimento em decorrência do veranico, pois numa média havia chovido cerca de 60 mm na sua lavoura em Tupã, ele mostrou a brotação advinda das sementes produzidas pela Copercana para afirmar que estava satisfeito até ali com o resultado do início do ciclo da cultura, tanto que prospecta uma produtividade entre 450 e 500 sacos por alqueire.

Para encerrar a conversa, o produtor falou que sempre procura melhorar o seu plantel de máquinas e implementos, tendo como próximo alvo de aquisição um autopropelido e que pretende pagá-lo com a economia de produtos que será proporcionada pela sua precisão de aplicação.

Ainda no Sudoeste Paulista, faz parte também do time Copercana o produtor João Pedro Bidoia, que cultivará nessa safra 400 alqueires entre as linhas-mães da meiosi da Usina Atena, localizada em Martinópolis-SP.

Praticamente nascido numa lavoura de amendoim, o agricultor entrou no projeto há aproximadamente seis anos em busca de ganho de qualidade, segurança de venda e informações de confiança, tanto através da possibilidade de troca de conhecimento com outros fornecedores, como o conhecimento técnico passado pela equipe da cooperativa e também nos diversos eventos e publicações que teve a oportunidade de participar e ler.

“Antes eu não tinha onde buscar informação confiável, pois o que chegava até mim vinha de fontes demasiadamente comerciais, interessadas em vender o produto. Depois que entrei para o Projeto Amendoim passei a confiar no conhecimento transmitido, um dos motivos cruciais para eu conseguir aumentar a área da minha lavoura”, conta Bidoia.

Na época que decidiu entrar para o projeto, ele cultivava 280 alqueires divididos entre terras de reforma de canavial e pasto. Além do crescimento de área, a evolução técnica do produtor também é nítida. O fato disso é que hoje sua lavoura está somente em terras da usina parceira, sendo um dos poucos em que a unidade industrial tem confiança para cultivar em áreas de meiosi, que exige precisão cirúrgica na aplicação de herbicidas e manobra das máquinas.

Por outro lado, Bidoia conta que estar no meio das linhas-mãe de cana traz alguns benefícios. Os dois principais são que a área é entregue praticamente pronta em relação à correção de solo (calcário, gesso e fosfato) e por ter os talhões sistematizados, gerando uma economia grande de diesel pela redução no número de manobras.

Para chegar a essa eficiência, toda a aplicação é feita com os seus dois autopropelidos equipados com abertura seletiva de sessão bico-a-bico, utilizando como guia o arquivo de mapa construído a partir das informações geradas no manejo de constituição das linhas-mãe de cana.

“Temos o cuidado de aplicar os herbicidas que podem prejudicar a cana em horários parados, considerando o vento. Para continuarmos com a parceria, sabemos que precisamos ter o mesmo cuidado que temos com o amendoim também com a cana”, disse Bidoia.

Embora todo esse desempenho, as condições climáticas da última safra lhe renderam precários 368 sacos por alqueire. Contudo, ao observar o que já havia plantado e brotado neste  ano (295 alqueires), ele demonstra segurança em chegar próximo de sua meta de 450 sacos por alqueire, até porque além do nascimento robusto devido à qualidade das sementes da Copercana, foram jogadas, em média, dois caroços a menos por metro linear plantado.

Talvez não tenha região que mais sentiu o veranico de janeiro do ano passado que a de Barretos.  Áreas como a das Contendas não chegaram a receber míseros 30 mm ao longo dos 30 primeiros dias de 2019, o que transformou o verde tapete vistoso de uma lavoura desenvolvida de amendoim num cenário lastimável com plantas sem cores e enrugadas, com um caule frágil ligando-as ao solo, mostrando, em alguns pontos, assustadoras rachaduras.

Retrato esse que fez produtores como João Paulo Sestari, com 15 anos de experiência na cultura, e seus parceiros de trabalho, o irmão Pedro Paulo Sestari; e o pai, Pedro Luiz Sestari, classificarem a última temporada como a pior de todos os tempos.

Contudo, a resiliência que somente a experiência dá a quem tira o seu sustento do campo não os permite que desistam. Mas, como diz o ditado “não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças”, medidas foram tomadas neste  ano para expor menos a operação. Dentre elas está a redução da área de plantio em 20%. No ano passado foi cultivado mil hectares, e nesse o plantio ficou em 800, além da aquisição de uma apólice assegurando 90% da lavoura na Copercana Seguros.

O plantio deste ano começou no dia 25 de setembro e, mesmo com a pouca chuva, a germinação veio forte. Dentre as variedades escolhidas foi plantada o IAC OL3, cultivar precoce que entrou em áreas arrendadas da usina, onde a pressão por tirar o mais rápido possível a cultura de rotação é maior. No restante dos talhões que não têm pressão para a entrada da cana, foi escolhida a cultivar IAC 505 que possui ciclo quase 30 dias maior e suporta mais variações climáticas.

Ainda falando sobre o relacionamento com a unidade industrial, o produtor disse que é a primeira vez que plantará em meiosi, e que para não dar fito na cana, criou uma espécie de saia na ponta das barras das bombas, fazendo com que a deriva seja bloqueada.

Sobre a importância em fazer parte do projeto da Copercana, Sestari lembrou do desenvolvimento em tecnologia (máquinas, implementos, variedades, defensivos e adubação) adquirido ao participar do grupo, além de dois pontos principais: custeio e garantia de entrega e venda do produto.

Para finalizar o giro da germinação do amendoim, a última parada foi na propriedade de Nelson Gonçalves Moreira Júnior, produtor que cultiva a cultura em Jaborandi, local da sede do sítio, e também em Barretos.

Sua trajetória começou ainda na infância, quando trabalhava com o pai na roça da variedade conhecida como tatuzinho. “Quando dava 200 sacos por alqueire era festa em casa", lembra Moreira Júnior.

O tempo passou e o agricultor dedicou-se a outras atividades, até que em 2010 viu seu amigo e também produtor rural de Jaborandi, Giovani Pinto Neto, retornando à cultura.

Ao longo de cinco anos ele acompanhou de perto o trabalho do amigo e a sua grande evolução a cada safra graças à parceria com a Copercana. Em 2015, através da corretagem de uma terra, Moreira Júnior conseguiu levantar os recursos necessários para a compra dos primeiros equipamentos. Na época, duas baterias e um arrancador foram adquiridos.

Em sua primeira safra foram cultivados 11 alqueires em área própria, o que lhe rendeu 600 sacos por alqueire. “Fiquei empolgado igual pescador novo quando pega o primeiro peixe grande”, conta o produtor.

A cada ano Moreira Júnior foi evoluindo e, entre 2018 e 2019, plantou 72 alqueires e então veio o fumo. O seu problema foi tão grave que se não fosse a parceria com a Copercana teria que vender um sítio para arcar com os prejuízos.

“Eu gostaria de aproveitar a oportunidade para agradecer a todas as pessoas com quem tive contato na Copercana, pois entenderam a minha situação e trouxeram uma solução que me  permitiu estar de pé nessa safra”, disse Moreira Júnior.

Com uma postura bastante conservadora, o produtor reduziu a sua operação para 45 alqueires em área própria, diminuindo assim o risco. Como consequência dessa ação, ele pode ter margens maiores.

Diante disso, e também pensando no seu plantel de maquinário que apresenta uma estrutura de plantio mais ágil em relação a de colheita, Moreira Júnior plantou dividindo a área em três blocos de tempo distintos. Assim, ele terá condições de fazer uma colheita ao seu tempo, porém contínua.

De uma gentileza ímpar, uma estratégia bastante inteligente que ele adota em sua roça é a de abrir o campo para experimentos. Só neste ano, atendendo à equipe técnica da Copercana, há uma área em que está sendo realizado um teste com o plantio através do uso de GPS, tendo como testemunha o plantio feito no olho tradicional da fazenda.

Outra estratégia é a validação, na prática, de um estudo desenvolvido pela faculdade de Agronomia da Unesp (Campus Botucatu) de uma nova formulação de adubação, que inclusive deverá ser publicada no Boletim 100 do IAC.

Sobre o assunto, o produtor tem o pensamento simples, mas inteligente de quem tem uma vida toda desenvolvida na roça. “Como eu não sou um grande produtor, que tem condições de pagar pelas novas tecnologias e testá-las, eu libero parte da minha lavoura para a execução desses estudos e assim acompanho o que há de mais novo. Além disso, recebo a visita de grandes especialistas na minha fazenda, uma mão lava a outra”.

Uma das características que mais apaixona quem acaba se envolvendo de alguma maneira no mundo do amendoim é o fato dele não ser um produto comoditizado e ter todo o seu processo produtivo baseado em padrões de qualidade para que, no final, se enquadre nos exigentes padrões de qualidade dos clientes que pagam melhor.

Assim, no primeiro ano de cobertura da safra, foi possível descobrir toda a dificuldade que é chegar a esse resultado, principalmente em tempos de clima tão inesperado. Porém, ao término desse texto, diferentemente da soja, cana, milho, abacaxi, goiaba ou qualquer outra cultura, a forma de se produzir o amendoim também não é uma commodity.