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Safra de cana começa com reformas e renovações

07/05/2012 Cana-de-Açúcar POR: Globo Rural
O setor sucroalcooleiro no Brasil vem enfrentando inúmeras provações. Entrou no purgatório em 2008, empurrado pela crise financeira mundial, que brecou as decisões sobre a construção de novas usinas, devido à escassez de capital. Os reflexos foram percebidos também no campo: as empresas reduziram para cerca de 10% o ritmo de renovação anual dos canaviais. O resultado? Aumento do volume de cana-de-açúcar no sexto e sétimo anos de corte (quando o indicado é ter vida útil de até cinco colheitas) e, claro, as lavouras envelhecidas derrubaram a produtividade - que, na última safra, foi 18% menor. O clima tornou mais agudo o problema. Houve excesso de chuvas em 2009, seca em 2010, passando ao ano seguinte com um alto índice de florescimento - o que fez a cana perder muito peso e açúcar - somado às fortes geadas em algumas regiões produtoras.
Agora, com a safra 2012/2013, que se inicia neste mês, a ideia é colocar ordem na casa. Os investimentos começam a voltar e a expectativa é se aproximar do patamar ideal de renovação, de 20% da área ao ano. "Neste ciclo, devemos renovar 1,3 milhão de hectares, frente ao total de 7,4 milhões de hectares de área em colheita no centro-sul do país", afirma Antônio de Pádua Rodrigues, diretor técnico da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica).
Terceira maior esmagadora de cana do Brasil, a Guarani decidiu desembolsar R$ 152 milhões para reformar 38.000 hectares, que terão o primeiro corte em 2013, e ampliar 16.000 hectares de área cultivada. "O planejamento é que, em 2015, o canavial atinja a idade desejada de três cortes. Hoje, está em quatro cortes", conta Jaime Stupiello, diretor agrícola da empresa. Como 65% do volume processado vem de produtores parceiros, a companhia resolveu estimular esses fornecedores a recorrer à Prorenova, linha de crédito de R$ 4 bilhões lançada pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) em janeiro para financiar a renovação e a ampliação dos canaviais do país. O objetivo da Guarani é voltar ao nível de produtividade de 85 toneladas por hectare - na última safra, foi de 71 toneladas por hectare. Para o novo ciclo, a previsão é de um aumento de cerca de 10% em moagem no período 2012/2013, passando a 18,3 milhões de toneladas - ainda aquém da capacidade de 20 milhões de toneladas.
Com 24 usinas e uma estrutura para moer quase 65 milhões de toneladas, a Raízen (joint venture formada entre Cosan e Shell) também segue firme na meta de reduzir o descompasso entre a canadisponível e a capacidade de esmagamento. A partir da safra 2010/2011, a empresa retomou a renovação das lavouras ao ritmo de 20% da área ao ano, como sugere a Unica, e aumentará ainda em 5% a área total. Maior processadora individual de açúcar e etanol do Brasil - só perde para a Coopersucar, que tem maior produção, mas é formada por diversos grupos diferentes -, a companhia teve uma ociosidade de cerca de 12 milhões de toneladas na colheita passada. E, no final de 2011, reviu seus planos de expansão industrial: diminuiu em 20% a meta inicial de processamento em 2015/2016, que agora deve ficar em 80 milhões de toneladas.
"Vamos otimizar ao máximo as atividades em nossas usinas, possivelmente com um pequeno investimento para ampliar a capacidade. Ainda assim, continuaremos dando atenção às boas oportunidades em termos de aquisição e projetos greenfield (construções do zero)", explica Cassio Paggiaro, diretor agrícola da Raízen.
O otimismo no setor já voltou a bater à porta da Dedini, maior fornecedora de equipamentos para usinas do Brasil, que, após o baque de 2008, passou a sofrer com uma série de renegociações e chegou a ter mais de R$ 500 milhões em pagamentos atrasados. "O último dos projetos que tínhamos em andamento quando veio a crise foi entregue em novembro do ano passado, enquanto o prazo normal seria 2009", afirma José Luiz Olivério, vice-presidente da Dedini. Essas reprogramações impactaram no faturamento da empresa: era de R$ 2,2 bilhões, em 2008, e caiu para o valor atual de R$ 1 bilhão.
Nesse período de baixa no setor sucroenergético, a Dedini foi procurar mais fortemente negócios em outras áreas, como nos segmentos de petróleo e gás, cervejarias, hidrelétricas e biodiesel. A empresa também aproveitou o período de vacas magras para se preparar tecnologicamente, aperfeiçoando equipamentos para o aproveitamento total da cana - inclusive da palha, na qual está um terço da energia da planta. Quanto ao açúcar, aprimorou a produção do caldo em refinado num único passe, sem precisar de refinaria, e, no caso do etanol, há soluções para o uso de maiores teores alcoólicos na fermentação, o que permite a redução do consumo de energia e da quantidade de vinhaça produzida. "Já estamos sendo procurados para atualização de orçamentos e acreditamos que, no segundo semestre deste ano, já começam a ser retomados os projetos de aumento de capacidade. Em 2013, devemos ter um novo boom", prevê Olivério.
A tendência é que a safra 2012/2013 tenha início na segunda quinzena de abril - 15 ou 30 dias atrasada em relação ao ano anterior, o que não é algo necessariamente ruim. "Há uma área 4% maior que no ano passado para ser colhida e o grande florescimento não é esperado, o que eleva a produtividade e o teor de sacarose", afirma Pádua.
Segundo a consultoria Datagro, a produção deve atingir 518,30 milhões de toneladas no centro-sul do país, um aumento de 5% em relação à anterior. A Job Economia espera entre 520 milhões e 540 milhões de toneladas. Entretanto, de acordo com Júlio Maria Borges, diretor executivo da Job, a produtividade média não deve ter grande recuperação, ficando igual ou ligeiramente menor que no ano passado, de 69 toneladas por hectare. A consultoria avalia ainda que a nova safra será mais neutra, sem tanto viés açucareiro ou alcooleiro. No Centro-Sul, a perspectiva é de oferta de 33,5 milhões a 34 milhões de toneladas de açúcar, entre 6% e 8% maior em comparação ao último ciclo. No caso doetanol, devem ser produzidos de 22,3 bilhões a 22,8 bilhões de litros, avanço de 7% a 9% em relação ao período 2011/2012. O etanol segue beneficiado pela linha de financiamento de estoques, que, em seu quarto ano, tem à disposição R$ 4,5 bilhões. O objetivo do governo ao liberar esse recurso é reduzir a volatilidade de preço e estabilizar a oferta do biocombustível.
No curto prazo, já há medidas importantes, o que ainda faltam são as de longo prazo, que retomem os investimentos. Para o diretor da Unica, o etanol perdeu competitividade para a gasolina, os custos aumentaram e o setor precisa ganhar em produtividade. "É preciso uma política pública que incorpore ao preço do etanol o valor de seus benefícios ambientais e que se estabeleça um plano de qual volume teremos de ofertar nos próximos anos, de acordo com as metas da matriz de combustível do país, e que dê garantias a quem quer investir", afirma.
A Petrobras é um dos gigantes que estão de olho no mercado desse biocombustível e a meta da estatal é alcançar a liderança no segmento em até cinco anos. Há 450 usinas no país, com capacidade instalada para processar entre 650 milhões e 700 milhões de toneladas de cana. E quanto ainda deve crescer? O setor acredita que terá 1,2 bilhão de toneladas até 2020, o que demandará 120 novos projetos greenfield. "A decisão sobre novas usinas tem de vir já, porque um projeto iniciado hoje só terá resposta a partir de 2015", completa Pádua.
Mariana Caetano