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Será que agora acordam?

17/12/2013 Cana-de-Açúcar POR: Roberto Rodrigues | Revista Globo Rural, Dezembro/2013
No último dia 5 de novembro foi instalada, no Congresso Nacional, em Brasília, a Frente Parlamentar pela Valorização do Setor Sucroenergético. Pode-se perguntar o porquê dessa Frente específica, uma vez que já existe a Frente Parlamentar da Agricultura, além da tradicional Comissão de Política Agrícola da Câmara dos Deputados e sua similar no Senado Federal, todas instâncias comprometidas com o setor do agronegócio brasileiro. Seria o aproveitamento meramente eleitoral de uma situação desfavorável a uma importante cadeia produtiva tradicionalmente financiadora de campanhas para executivos e legislativos federais e estaduais? Para que mais uma instância?
 
Desta vez, há razões de sobra para essa importante nova Frente. Tanto é verdade que sua instalação teve a assistência de grande e significativa plateia de lideranças dos produtores de cana-de-açúcar e de representantes das indústrias de açúcar, etanol e derivados, além de exportadores, distribuidores de combustíveis, trabalhadores e demais elos da cadeia produtiva.
 
O setor vive um momento de grandes incertezas. Já se dá como certo um superavit global da produção de açúcar na safra 2013/2014. Uma eventual redução das metas europeias e americanas no uso de biocombustíveis assombra nossos exportadores de etanol. Se a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos determinar uma redução forte, podemos perder um mercado de quase 1 bilhão de litros no ano que vem. Por outro lado, cresce globalmente a tendência do uso do etanol como aditivo à gasolina, o que abriria um mercado enorme e duradouro. Mas tudo é incerto.
 
Certo mesmo é que esse setor formidável, gerador de empregos, mitigador do aquecimento global pela redução das emissões de CO2, único programa mundial alternativo ao combustível fóssil, produtor de energia renovável, inclusive a bioeletricidade via cogeração, redutor das importações de petróleo e mais uma série de benefícios, está abandonado à própria sorte pelo governo federal, cuja falta de politica adequada vai levando à ruína tanto agricultores quanto industriais, reduzindo empregos no campo e nas cidades. São 400 unidades industriais, mais de 70 mil produtores de cana e 800 mil empregos diretos. Considerada a cadeia toda, os números saltam para 2,5 milhões de trabalhadores em mais de 1.000 municípios brasileiros.
 
Mas a estagnação setorial já determinou o fechamento de 40 usinas, 100 mil empregos foram extintos desde 2009 e metade das 4 mil indústrias de base que alimentam o segmento está operando com ociosidade de 50%.
 
Por tudo isso, a Frente vem em muito boa hora. Embora as lideranças privadas já estejam conversando com o governo em Brasília, os resultados são nulos e mais empresas estão prestes a fechar. O papel da Frente será fundamental na busca das soluções necessárias para resolver essa crise que se arrasta sem definições. E seu trabalho será em várias áreas: debater com a sociedade a temática toda, participar da elaboração de um planejamento estratégico da matriz energética brasileira, definir as questões tributárias, recuperar a Cide, estabelecer uma política de precificação dos combustíveis que viabilize os investimentos privados, inclusive em inovação tecnológica, criar regras para a comoditização do etanol, incentivar a bioeletricidade, proteger os fornecedores de cana (produtores autônomos), melhorar a qualificação profissional e até mesmo buscar uma instância governamental que centralize e coordene as ações públicas para o setor.
 
Quem sabe agora o governo acorda! Tomara! (Roberto Rodrigues é coordenador do Centro de Agronegócio da Fundação Getúlio Vargas, presidente do Conselho Superior do Agronegócio (Cosag) da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e ex-ministro da Agricultura)