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Sizuo Matsuoka, o “pai da cana”

06/01/2014 Cana-de-Açúcar POR: Folha de S.Paulo
Criador da variedade mais cultivada no país, Sizuo Matsuoka distribuiu mudas durante a crise do setor para salvá-las; hoje, continua a inovar. 
Sizuo Matsuoka pode ser considerado o pai da cana. Desenvolveu e distribuiu às usinas, em 1989, a variedade mais cultivada no país para evitar que ela desaparecesse com o fim do IAA (Instituto do Açúcar e do Álcool). Em 2003, montou com o grupo Votorantim a CanaViallis, empresa de melhoramento genético de cana vendida à Monsanto em 2008. Hoje, desenvolve em sua própria empresa, a "cana energia". 
Meu avô veio do Japão e trouxe a família para trabalhar em cafezal. Foi para Cafelândia (SP) e depois --eu não sei como deu-- ele e o grupo de imigrantes compraram terra em Coroados (SP). Abriram a mata e lá se estabeleceram. Plantavam tudo. 
Fui o primeiro de 11 irmãos a sair do campo para estudar. Queria fazer agronomia, até porque eu não sabia o que existia de profissão. Só conhecia agricultura. E também só conhecia a Esalq [Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz]. Então fui para Piracicaba fazer cursinho para conseguir entrar. Na parte financeira, eu nem sei como deu. Era difícil para os meus pais me manterem ali. 
Consegui bolsa de estudos no terceiro ano e deu para terminar o curso. Queria continuar em pesquisa, mas precisava trabalhar. Batalhei por uma bolsa na Fapesp, consegui e fui para o IAC [Instituto Agronômico de Campinas]. 
Lá havia várias opções de pesquisa e eu decidi ficar com a cana --a única coisa que os meus pais não tinham plantado. Em 1968, entre os problemas de pesquisa, o da cana era o mais importante. 
Acontece que, daquele ano em diante, a cana deu um boom. Em 70, o IAA [Instituto do Açúcar e do Álcool] criou o Plano Açúcar, um órgão só para pesquisar cana, e eles me chamaram. 
Depois de alguns anos, fui para a chefia do programa de melhoramento genético e comecei a ficar engajado nessa área. Mas, a partir de 85, o Plano Açúcar passou a ter problemas financeiros. 
Quando o Collor entrou [1990], fechou o IAA e ficamos naquele desespero. Pensamos que iríamos perder tudo o que fizemos. As portas do instituto foram lacradas e eu fiquei lá como guarda do patrimônio. Depois de um tempo, saiu a determinação para passar as instalações para a Universidade Federal de São Carlos [UFSCar]. 
O problema era o material genético que estava no campo, perdido. Mesmo se quisesse, a universidade não tinha recursos para continuar as pesquisas. 
Decidimos passar tudo para as usinas. Cinco delas colocaram esse material em teste. Colheram no primeiro ano, no segundo, e voltamos quando elas estavam colhendo no terceiro ano. Os resultados foram muito bons. Com o tempo, quando eu já estava na UFSCar, conseguimos recuperar as variedades. 
Desse grupo, algumas são cultivadas até hoje. As RB [sigla usada para identificar as variedades desenvolvidas pelas universidades federais] dominam o mercado. Em São Paulo, mais de 60% são RB. 
Se não fosse a gente distribuir as mudas para as usinas, boa parte dessas variedades estava perdida e eu não sei o que seria do setor, porque elas também deram origem a outras mais recentes. 
MUNDO CORPORATIVO 
No início dos anos 2000, com o boom da biotecnologia, a Votorantim criou um ramo de novos negócios e nos convidou para montar a CanaViallis [empresa de melhoramento genético de cana]. 
Eu estava completando os anos para a aposentadoria e acabei aceitando. Eu e outros quatro pesquisadores entramos com o conhecimento, e eles, com o dinheiro. Isso criou um trauma tremendo na universidade. Ninguém imaginava que eu iria sair ou criar uma empresa. 
Foram cinco anos na CanaViallis. Em 2008, ela foi vendida para a Monsanto [por cerca de R$ 300 milhões]. Eu achava que um dia poderia ser vendida, mas não tão rápido. Foi uma surpresa, mas não me arrependi da mudança. 
Na Votorantim, surgiu a ideia de desenvolver uma cana voltada para a produção de biomassa. Criamos variedades voltadas para a produção de energia e fizemos testes. Sabíamos que tinha potencial. Mas isso iria se perder na CanaViallis. 
Saí de lá já pensando em montar a minha empresa. Só que, na hora de sair, tive de cumprir um ano e meio de quarentena. Ao fim, montei a Vignis, em 2010. 
Eu e meu sócio, que é da área financeira, gastamos muito dinheiro do nosso bolso. Se eu soubesse todas as dificuldades que iria encontrar, não teria montado, não... 
A gente viu que a cana era boa. Mas, conforme as coisas vão evoluindo, vemos as dificuldades operacionais para entregar o produto. Hoje, pesquisa para mim é hobby. 
Mas, se a Vignis não existisse, não teria o desafio, né? Depois, imagino: se ninguém tivesse feito uma planta nova como essa, o que seria? 
Vignis busca investidor para nova cana energia.
Criador da variedade mais cultivada no país, Sizuo Matsuoka distribuiu mudas durante a crise do setor para salvá-las; hoje, continua a inovar. 
Sizuo Matsuoka pode ser considerado o pai da cana. Desenvolveu e distribuiu às usinas, em 1989, a variedade mais cultivada no país para evitar que ela desaparecesse com o fim do IAA (Instituto do Açúcar e do Álcool). Em 2003, montou com o grupo Votorantim a CanaViallis, empresa de melhoramento genético de cana vendida à Monsanto em 2008. Hoje, desenvolve em sua própria empresa, a "cana energia". 
Meu avô veio do Japão e trouxe a família para trabalhar em cafezal. Foi para Cafelândia (SP) e depois --eu não sei como deu-- ele e o grupo de imigrantes compraram terra em Coroados (SP). Abriram a mata e lá se estabeleceram. Plantavam tudo. 
Fui o primeiro de 11 irmãos a sair do campo para estudar. Queria fazer agronomia, até porque eu não sabia o que existia de profissão. Só conhecia agricultura. E também só conhecia a Esalq [Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz]. Então fui para Piracicaba fazer cursinho para conseguir entrar. Na parte financeira, eu nem sei como deu. Era difícil para os meus pais me manterem ali. 
Consegui bolsa de estudos no terceiro ano e deu para terminar o curso. Queria continuar em pesquisa, mas precisava trabalhar. Batalhei por uma bolsa na Fapesp, consegui e fui para o IAC [Instituto Agronômico de Campinas]. 
Lá havia várias opções de pesquisa e eu decidi ficar com a cana --a única coisa que os meus pais não tinham plantado. Em 1968, entre os problemas de pesquisa, o da cana era o mais importante. 
Acontece que, daquele ano em diante, a cana deu um boom. Em 70, o IAA [Instituto do Açúcar e do Álcool] criou o Plano Açúcar, um órgão só para pesquisar cana, e eles me chamaram. 
Depois de alguns anos, fui para a chefia do programa de melhoramento genético e comecei a ficar engajado nessa área. Mas, a partir de 85, o Plano Açúcar passou a ter problemas financeiros. 
Quando o Collor entrou [1990], fechou o IAA e ficamos naquele desespero. Pensamos que iríamos perder tudo o que fizemos. As portas do instituto foram lacradas e eu fiquei lá como guarda do patrimônio. Depois de um tempo, saiu a determinação para passar as instalações para a Universidade Federal de São Carlos [UFSCar]. 
O problema era o material genético que estava no campo, perdido. Mesmo se quisesse, a universidade não tinha recursos para continuar as pesquisas. 
Decidimos passar tudo para as usinas. Cinco delas colocaram esse material em teste. Colheram no primeiro ano, no segundo, e voltamos quando elas estavam colhendo no terceiro ano. Os resultados foram muito bons. Com o tempo, quando eu já estava na UFSCar, conseguimos recuperar as variedades. 
Desse grupo, algumas são cultivadas até hoje. As RB [sigla usada para identificar as variedades desenvolvidas pelas universidades federais] dominam o mercado. Em São Paulo, mais de 60% são RB. 
Se não fosse a gente distribuir as mudas para as usinas, boa parte dessas variedades estava perdida e eu não sei o que seria do setor, porque elas também deram origem a outras mais recentes. 
MUNDO CORPORATIVO 
No início dos anos 2000, com o boom da biotecnologia, a Votorantim criou um ramo de novos negócios e nos convidou para montar a CanaViallis [empresa de melhoramento genético de cana]. 
Eu estava completando os anos para a aposentadoria e acabei aceitando. Eu e outros quatro pesquisadores entramos com o conhecimento, e eles, com o dinheiro. Isso criou um trauma tremendo na universidade. Ninguém imaginava que eu iria sair ou criar uma empresa. 
Foram cinco anos na CanaViallis. Em 2008, ela foi vendida para a Monsanto [por cerca de R$ 300 milhões]. Eu achava que um dia poderia ser vendida, mas não tão rápido. Foi uma surpresa, mas não me arrependi da mudança. 
Na Votorantim, surgiu a ideia de desenvolver uma cana voltada para a produção de biomassa. Criamos variedades voltadas para a produção de energia e fizemos testes. Sabíamos que tinha potencial. Mas isso iria se perder na CanaViallis. 
Saí de lá já pensando em montar a minha empresa. Só que, na hora de sair, tive de cumprir um ano e meio de quarentena. Ao fim, montei a Vignis, em 2010. 
Eu e meu sócio, que é da área financeira, gastamos muito dinheiro do nosso bolso. Se eu soubesse todas as dificuldades que iria encontrar, não teria montado, não... 
A gente viu que a cana era boa. Mas, conforme as coisas vão evoluindo, vemos as dificuldades operacionais para entregar o produto. Hoje, pesquisa para mim é hobby. 
Mas, se a Vignis não existisse, não teria o desafio, né? Depois, imagino: se ninguém tivesse feito uma planta nova como essa, o que seria? 
Vignis busca investidor para nova cana energia.