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Soja: Motivos para plantar e esperar

Tanto os produtores que iniciaram o plantio mais cedo como aqueles que esperaram trabalharam bem dentro de suas respectivas estratégias

Por: Marino Guerra

O grande dilema do período de plantio da soja em 2019, com certeza, foi quando iniciar os trabalhos. Com o fim do vazio sanitário em 1º de outubro, as áreas já poderiam começar a receber as sementes, porém a chuva rara e dispersa do mês motivou muitos agricultores a deixarem suas máquinas preparadas no barracão, esperando as águas reais da primavera.

Com 300 hectares na atual safra, o produtor Rodrigo C. Toniello é um exemplo de quem optou por esperar a chuva antes de entrar com o plantio.

Iniciando sua oitava temporada de cultivo da soja em rotação de cultura com a cana-de-açúcar, sua opção foi baseada principalmente na experiência nada agradável da safra passada, quando o veranico pegou a lavoura na época de formação dos canivetes (fim de dezembro e quase todo mês de janeiro), prejudicando e muito o resultado final.

Porém, ele não esperou a chegada da primavera para montar sua estratégia e diante de todos os sufocos superados ao longo dos anos percebeu que, para o seu perfil (considerando o fato de ter áreas bastante picadas), uma solução seria superestimar a estrutura de trabalho, fazendo com que as tarefas sejam concluídas de maneira mais rápida, aproveitando os dias ideais na execução de cada manejo, do plantio à colheita.

Dessa forma, ele montou um forte plantel de máquinas, implementos e profissionais de forma a executar uma média de 25 hectares ao dia.

Outra característica de sua operação é na adoção constante de recursos tecnológicos. Para este ano, ele equipou todos os tratores com GPS, visando ao ganho de eficiência em todas as fases do cultivo, mas também para se adaptar de maneira quase que perfeita em áreas de meiosi.

A segunda técnica adotada por Toniello é a inoculação via micron, ou seja, no sulco de plantio, com o objetivo de ter maior assertividade tanto de local como quantidade e proteger de maneira mais efetiva a semente, bem como o ambiente que se transformará na rizosfera.

Quanto às variedades que busca, foram selecionadas plantas precoces, com ciclos de no máximo 115 dias. Isso porque se comparadas com as superprecoces, elas são mais tolerantes aos períodos climáticos extremos (veranicos ou chuvas muito fortes), enquanto que as de ciclos menores apresentam problemas em sete dias sob condições adversas.

O time de cultivares conta com 100% das variedades RR, resistentes ao glifosato, e Inox, tolerantes à ferrugem asiática.

Como manejo de plantio, a sua escolha é quase sempre por fazer o preparo de solo, pois como trabalha em parceria com um número variado de fornecedores e terras de usina, ele se depara com talhões que ainda não estão sistematizados. Dessa maneira, ele é obrigado a fazer o seu alinhamento, executando serviços como a quebra de curvas de nível.

Outro importante argumento que justifica a sua opção de manejo de plantio está relacionado ao combate às pragas de solo da cana, sendo possível realizar um ataque mais apropriado ao mexer a terra.

Ainda se destaca em seu manejo a adubação, feita no sulco de plantio na formulação 4-18-18 (N-P-K) mais um mix de micronutrientes (4% de cálcio, 1% de magnésio, 7% de enxofre, 0,03% de boro e 0,12% de zinco), enquanto ao uso de fungicida, o produtor conta que faz geralmente apenas duas aplicações, aos 30 e 60 dias após o plantio.

Como espera fechar o plantio até o final de novembro, por ter começado no início do mês, ele planeja iniciar a colheita a partir do dia 20 de fevereiro.

Para encerrar a conversa, o produtor foi questionado porque se abre tanto ao risco com a soja, já que sua atividade principal é a produção canavieira. Como resposta, diz que o principal motivo é gostar do que faz, e a partir daí ter o capricho demandado para superar os desafios da cultura que, tirando os anos de verdadeiros desastres climáticos, gera um retorno interessante.

Por outro lado, há casos de operações em que o tamanho exige que os envolvidos forcem para que o cultivo vingue meio que atropelando o clima em prol de uma programação que, apenas por motivos muito especiais, é alterada.

Assim é o caso da Usina Alta Mogiana (localizada em São Joaquim da Barra-SP), uma das maiores produtoras do grão tanto do Estado de São Paulo como em rotação de cultura com a cana-de-açúcar.

Cultivando o grão desde o início das operações da unidade industrial, na década de 80, nesta temporada foram plantados mais de três mil hectares ao longo de pouco mais de um mês, esta quantidade por ano é regra e não excessão.

Diante dessa conjuntura, em anos mais secos, a estratégia é "correr atrás" das chuvas. Para se ter ideia, o plantio deste ano esteve espalhado em 12 municípios, e não poucas vezes em pequenas propriedades, o que, segundo o gerente de produção agrícola da empresa, Luis Augusto Contin Silva, exige a adoção de algumas medidas específicas. O plantio direto que, por ter a palha, permite o início dos trabalhos a partir de chuvas em menor volume acumulado é fator primordial neste contexto.

“Como temos um calendário bastante rígido, não tem como esperarmos as condições ótimas para executarmos o plantio. Assim, trabalhamos sempre com as situações climáticas mínimas, o que às vezes pode até interferir na produtividade, mas dificilmente perdemos alguma área”, disse Contin.

Lógico que para desafiar São Pedro dessa maneira o plantio precisa ser muito bem feito. E esse trabalho começa já na escolha das variedades, na qual a seleção é feita adotando tecnologias como RR e IPRO (que oferece proteção contra as lagartas). Nas sementes, há uma atenção especial com o tratamento e a inoculação, ainda são executadas duas aplicações de fungicidas e o controle de percevejos, além, é claro, do glifosato para limpar a área das invasoras.

O gerente de processos e tratos culturais, Manoel Vicente de Faria Neto, destacou outras características das cultivares buscadas para este ano. “Como temos nossa janela muito bem estabelecida, não podemos abrir mão de variedades de grupo de maturação de no máximo 6.2, buscamos plantas com o crescimento indeterminado (característica que não inibe o desenvolvimento da planta) e também tenham capacidade de engalhamento e tolerância a veranicos”.

Uma última característica morfológica é a regra entre as seis ou oito variedades escolhidas pelo time da usina do fato delas serem “caneludas”. Como o plantio é direto, é preciso que haja um intervalo relativo (para a colhedora conseguir passar com certa folga) entre os galhos mais baixos e o solo, com o lógico objetivo de não perder grãos.

Claro que a Alta Mogiana não empreende numa segunda cultura todos esses anos sem conseguir calcular vantagens. Logicamente, a financeira é importante e a empresa tem um posicionamento comercial bastante interessante. Isso porque como ela sempre planta muito cedo, é também uma das primeiras a colher e, como ela não adota política a estocagem do grão, ou seja, colhe e vende, consegue bons preços em decorrência da falta de produtos novos.

Contudo, há também as vantagens agronômicas como conta o gerente de conservação geral e Cia de Terras, Sebastião Falcão da Silva: “Além da fixação de nitrogênio, percebemos que as operações de plantio de cana nas áreas de soja são melhores em decorrência do seu colchão de palha. Há também o aproveitamento do ativo fixo da empresa porque utilizamos os tratores do preparo de solo, os implementos de pulverização e a otimização da mão-de-obra”.

Para os produtores que desanimaram com a soja em decorrência dos problemas do ano passado, as histórias contadas aqui mostram que anos ruins fazem parte da agricultura, porém também faz parte desse tipo de negócio o simples fato de não desistir. Assim, se Deus quiser, a Revista Canavieiros publicará o sucesso não somente das duas empreitadas, mas também de outros produtores, convencendo quem saiu da atividade a voltar.