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Tem Cheiro de Virada na Cana

20/06/2019 Colunista POR: Revista Canavieiros
*Marcos Fava Neves


Reflexões dos Fatos e Números do Agro


  • Começando esta análise com os dados internacionais relevantes do mês de abril, o USDA (Departamento de Agricultura dos Estados) soltou as expectativas de plantio para 2019/20. Para milho espera-se uma área 4% maior, totalizando 37,56 milhões de hectares. Os estoques são de 218,4 milhões de toneladas e caíram 3% em um mês, porém estão acima do que previam analistas em mais de 6 milhões de toneladas. Já na soja, a queda deve ser de 5% na área plantada, totalizando 34,24 milhões de hectares. Mas como os estoques nos EUA estão muito altos (quase 74 milhões de toneladas e 30% maiores que na mesma data do ano passado), então este número não alterou o mercado da soja. Para o trigo esperam plantar 4% a menos, totalizando 18,54 milhões de hectares (estoques também muito altos), bem como 2% menor no algodão, com 18,54 milhões de hectares.
  • Os estoques de grãos no mundo estão em patamar muito confortável, o que força a permanência dos preços nos níveis atuais. Para o milho, o USDA estima que ao final da safra 2018/19 (agosto deste ano) os estoques estarão acima de 27% da necessidade de demanda (caindo de 31,4% na safra anterior). Na soja, os estoques deverão estar próximos a 30% das necessidades anuais de consumo.
  • Um estudo recente da FAO/ONU mostra que o crescimento na demanda por alimentos deve se desacelerar nos próximos anos, devido a um menor crescimento da população mundial, uma estabilização em 3,5% ao ano do crescimento da atividade econômica e petróleo ao redor de US$ 65 a 70 o barril. A produção agrícola aumentaria ao redor de 15% neste período.
  • Numa das maiores crises desta década, segundo o Rabobank, cerca de 200 milhões de porcos devem ser abatidos na China devido à peste suína africana, em um rebanho estimado de 360 milhões de animais. Estima-se queda de 30% na produção chinesa, o que reduziria a demanda por rações (estima-se que a demanda por farelo pode cair entre 10 a 20%) e a importação de grãos. A China tem 50% da produção mundial de suínos. Este fato deve chacoalhar o mercado mundial de carnes neste ano.
  • Mundando agora o foco ao agro brasileiro, estudo da Fiesp (Federação das Indústrias de São Paulo) indicou que suas empresas gastam 1,2% do que faturam só no preparo e pagamento de tributos. Isto equivale a R$ 37 bilhões ou 5% do PIB da indústria de transformação e 9,3 vezes maior que os valores de Alemanha, Argentina, Canadá, Chile, China, Coreia do Sul, Espanha, Estados Unidos, França, Índia, Itália, Japão, México, Reino Unido e Suíça. Está aí uma reforma que é para passar com 500 votos no Congresso. Não faz sentido perder esta competitividade, geração de empregos e oportunidades.
  • A nova estimativa da Conab é de 235,3 milhões de toneladas de grãos, quase 1% maior que a estimativa de março e 3,4% maior que a safra 2017/18. Quem puxou para cima foi a segunda safra de milho, que vem tendo bom clima e deve passar de 68 milhões de toneladas, estando 2,3% acima da projeção anterior e 26% maior que a produção da safra passada. A Conab estima a safra total 2018/19 em 92,8 milhões de toneladas, a segunda maior da história, sendo que a safrinha deste ano entregará 10 milhões de toneladas a mais que a do ano passado. Para a soja são esperadas quase 114 milhões de toneladas, também aumentando 0,3% da última projeção, mas 4,6% abaixo da safra passada. A estimativa de abril também trouxe o algodão com 2,8% a mais, chegando a 2,65 milhões de toneladas. Já atingimos 90% de colheita da safra da soja, plantada em quase 36 milhões de hectares, ou seja, praticamente não temos mais riscos climáticos.
  • Em março, nossas exportações do agro caíram 5,3% quando comparadas a março de 2018. Ficaram em US$ 8,6 bilhões, 47,6% do total vendido pelo Brasil. As importações do agro também caíram quase 12%, ficando em US$ 1,1 bilhão. Isto posto, o saldo do mês foi de US$ 7,5 bilhões (4% menor que março de 2018). Praticamente todos os produtos importantes tiveram queda, inclusive a cadeia da soja, com 1,2%, exportando US$ 4 bilhões. Foi uma queda de preços (o índice caiu mais de 6%), pois os volumes no geral foram 1,2% maiores.
  • Em relação aos produtos exportados, as carnes caíram 8,5% e ficaram em segundo lugar, com US$ 1,2 bilhão. Frango caiu 4%, suínos 9% e bovinos 10%. Queda forte também apresentou a cana (38,2%), ficando em apenas US$ 393 milhões. Quem cresceu em valor exportado foi o café (12,3%), atingindo quase US$ 470 milhões e o milho, que cresceu quase 70%, atingindo praticamente US$ 180 milhões.  Nos três primeiros meses do ano estamos 14% acima do desempenho do mesmo período do ano anterior.
  • A China foi novamente o principal comprador do nosso agro neste mês (35% das nossas exportações), com US$ 3 bilhões, mas o valor é quase 10% menor que o de março de 2018.
  • A nova estimativa do Valor Bruto da Produção (VBP) de 2019 é de R$ 588,8 bilhões, aumento de 0,8% em relação à estimativa anterior. Devemos ter R$ 392,4 bilhões para as 21 lavouras e R$ 196,4 bilhões para as cinco cadeias da pecuária.
  • O petroleo já subiu mais de 30% neste ano, mudando novamente as análises. Preços mais altos do petróleo tendem a fortalecer os preços dos grãos. Resta ver se estabiliza agora.
  • Enfim, neste mês, para o agro, tivemos estabilidade de preços das principais commodities e agora é acompanhar a segunda safra de milho (que não tenha impactos do clima), a gripe suína africana na China, o acordo comercial China e EUA e o andamento das reformas no Brasil.
 
Reflexões dos Fatos e Números da Cana
 
  • A cana começou a me dar um cheiro de virada no ar, pelos números que estão saindo. Começo pelo Rabobank, que estima déficit global de 4,3 milhões de toneladas de açúcar na safra 2019/20, com queda da produção indiana, principalmente (cerca de 2,2 milhões menor). Para o final da safra 2018/19 é estimado um superávit de 1,1 milhão de t. Estimam-se preços entre 11,5 centavos de dólar por libra-peso a 14 centavos de dólar. O consumo nesta safra deve crescer 1,4% e os estoques ao final devem estar próximos a 39% das necessidades anuais. Para o Rabobank, a safra 2019/20 deve ficar entre 560 milhões e 570 milhões de toneladas de cana produzindo ao redor de 28 milhões a 29 milhões de t de açúcar.
  • Pela S&P Global Platts, o déficit na safra mundial 2019/20 (de outubro a setembro) será menor, ao redor de 1,93 milhão de toneladas. E a safra 2018/19 terá superávit de 5,55 milhões de toneladas. Bem diferente do Rabobank.
  • Segundo a Archer, produziremos, no Centro-Sul, cerca de 26,9 milhões de toneladas de açúcar, contra 28,5 milhões em 2018/19. O mix será de 36% para açúcar e teremos 572 milhões de toneladas. De etanol, esperam-se 29,5 bilhões de litros em 2019/20, número bem superior aos 26,4 bilhões de 2018/19. O endividamento, segundo a Archer é de R$ 100,05 bilhões, 12% acima do início da safra passada e quase R$ 180/t de cana processada.
  • Para a SCA, produziremos 27,32 bilhões de litros de etanol (17,97 de hidratado e 9,35 de anidro), ficando abaixo dos 30,08 bilhões de litros de 2018/19. Para o açúcar, a SCA espera 28,92 milhões de toneladas, mais de dois milhões acima das 26,54 milhões da safra 2017/18. A ED&F Man acredita em 29,3 milhões de toneladas (11% a mais) e cerca de 39% da cana indo para açúcar. Serão fabricados 28,9 bilhões de litros de etanol. A safra deve ser de 577 milhões de toneladas, cinco acima das 572 milhões desta safra.
  • Estudo do Pecege/Orplana/CNA mostra que o custo médio para se produzir uma tonelada de cana nesta safra que se encerrou foi R$ 103,83 por tonelada, muito acima do preço recebido, de R$ 78/t. Foram colhidas menos toneladas por hectare (77 contra 80). Segundo a Orplana, em 11 anos os custos de produção subiram 177,4% e a produtividade caiu 12,5%. Custo mais alto e preço mais baixo, pois o Cepea fechou as análises de preços médios recebidos na safra 2018/2019, que acabou em 31 de março. No caso do açúcar cristal, o preço médio foi de R$ 62,57/saca 50kg, valor 7,75% menor que o da safra anterior. No caso do hidratado e anidro, a queda foi de 4%.
  • As projeções de produção de cana estão próximas, o que difere é o mix colocado pelas consultorias, fortalecendo produção de açúcar ou de etanol.
 
Reflexões dos Fatos e Números do Açúcar
  • Em artigo no Valor, Eduardo Leão traz interessantes números e contribuições na questão do mercado mundial de açúcar. O Brasil detém praticamente 25% da produção mundial e 50% de participação no que é transacionado. EUA, Europa e China, que consomem cerca de 45 milhões de toneladas, compram apenas 20% de sua necessidade, pois têm muito apoio para produzirem localmente (tarifas de importação gigantes e cotas), mesmo apresentando custos maiores. Concorrentes do Brasil nas exportações também apoiam o produtor e subsidiam as exportações, e os principais exemplos são Índia e Tailândia. Segundo a Unica, apenas o apoio da Índia tirou US$ 1,3 bilhão dos nossos produtores. Leão recomenda que o setor público continue entrando com painéis na OMC, defendendo o comércio e nossa a competitividade e para o setor privado, estimular a entrada do etanol nestes países produtores, visando consumir cana e tirar açúcar do mercado mundial e com isto cooperando com o desenvolvimento desta alternativa.
  • Segundo a Archer, cerca de 49% do açúcar desta safra que será exportado já foi fixado a um valor médio de 13,08 centavos de dólar por libra-peso, o que corresponde a R$ 1.158,95/tonelada. O preço médio do açúcar nesta época do ano nas safras de 2014/15 até a 2018/19 foi de R$ 1.334 por tonelada, portanto o preço de agora (R$ 1.134/tonelada) está 15% abaixo. Cálculos da empresa mostram que, para usinas eficientes, os custos de produção (sem custo financeiro) seriam de: 9,10 centavos de dólar por libra-peso no Brasil, 13,27 na Tailândia, 16,17 na Europa e 17,2 cents na Índia.
  • Convergem as consultorias que as safras 2019/20 devem ser menores na Índia e Tailândia e o Brasil deve tirar mais açúcar ainda do mercado internacional.
  • Segundo a INTL FCStone, o déficit de açúcar na safra 2018/19 será de 0,3 milhão de toneladas. A última estimativa era de 0,7 milhão de toneladas. Serão produzidas 185,7 milhões de toneladas, valor 3,3% menor que o de 2017/18. No caso do consumo, será 1,2% maior, totalizando 186,0 milhões de toneladas (valor bruto).
  • No açúcar, resta torcer para que as safras de nossos concorrentes sejam menores e que o petróleo continue neste patamar para que o hidratado remunere mais e o mix vá o máximo possível para etanol.
Reflexões dos Fatos e Números do Etanol e Energia
  • As chuvas de abril, que caíram em boa parte de São Paulo, pararam a colheita e o processamento e geraram um salto no preço do etanol. O hidratado entregue em Paulínia chegou a quase R$ 2/litro.
  • Em nota, a Unica ressaltou que 60% do preço do etanol na bomba é parte da cadeia de produção, sendo os outros 40% da cadeia de comercialização e impostos.
  • A FS Bioenergia (pertencente ao grupo Summit/EUA e Tapajós/Brasil) declarou que vai investir  R$ 1 bilhão em Nova Mutum para montar a terceira usina de etanol. Já tem uma em Sorriso (MT) sendo construída (termina ano que vem) e outra em Lucas do Rio Verde, praticamente duplicada. Seus planos de expansão envolvem mais duas usinas, provavelmente em Primavera do Leste e Campo Novo dos Parecis. Segundo o Valor, a nova unidade vai esmagar 1,3 milhão de toneladas de milho a cada ano e produzir 530 milhões de litros de etanol, 340 mil toneladas de DDG (Distillers Dried Grains) e 17 mil toneladas de óleo.
 
Finalizando, qual seria a minha estratégia com base nos fatos?
 
  • O que observar agora em março/abril: A gasolina neste ano já subiu mais de 25% e este é o alento principal para a cana, que pode fazer com que novamente as usinas priorizem o máximo possível de etanol, tirando açúcar do mercado mundial e ocupando mais espaços no mercado de combustíveis do Brasil, que está dando mais resultados que o açúcar. Esta é a torcida, que o consumo continue forte.
 
  • Quem é o homenageado do mês?
Desta vez nossa singela homenagem vai ao amigo Francisco Maturro, presidente da Agrishow e uma das mais marcantes personalidades do nosso agro. Espalha conhecimento e simpatia por onde passa!
 
Haja Limão
Imaginar que deputados federais e senadores sejam contra a reforma da previdência é algo que não consigo entender. Um sistema pernóstico, concentrador de renda, que compromete o nosso futuro, o emprego e o desenvolvimento e os nossos deputados dos partidos da esquerda são contra, bem na linha do quanto pior melhor, digno de irresponsabilidade com seus filhos e netos.
*Marcos Fava Neves é professor titular (em tempo parcial) das Faculdades de Administração da USP, em Ribeirão Preto, e da FGV, em São Paulo, especialista em planejamento estratégico do agronegócio. Confira textos, vídeos e outros materiais no site doutoragro.com