atendimento@revistacanavieiros.com.br (16) 3946-3300

Um novo ciclo para o país

12/11/2019 Cana-de-Açúcar POR: Fernanda Clariano
Um novo ciclo para o país

Em entrevista concedida à reportagem da Revista Canavieiros no dia 20 de setembro, o diretor técnico da Unica (União da Indústria de Cana-de-Açúcar), Antonio de Pádua Rodrigues, analisou o atual cenário do setor sucroenergético, principalmente a questão do RenovaBio, e comentou sobre o avanço dos carros elétricos. Confira:

Revista Canavieiros: Estamos na reta final de regulamentação do RenovaBio. Quais as perspectivas em relação ao programa?
Antonio de Pádua Rodrigues: São perspectivas altamente positivas porque o RenovaBio tem características fundamentais. Uma delas é a transparência – é um programa que terá metas, compromisso e estamos na reta final. O RenovaBio vai levar a um aumento de produtividade, redução de custos e a uma formação de preço que o mercado não paga – que é valorizar as externalidades do nosso produto através de um papel que é o CBio (Crédito de Descarbonização). Isso irá animar o mercado como um todo, pois incentivará a produção de etanol, influenciará no preço do açúcar e estimulará o aumento da produtividade agrícola tanto na cana própria como na cana do fornecedor.

Revista Canavieiros: Como as usinas estão se manisfestando em relação ao CBio, há interesse?
Pádua: Ainda têm muitas dúvidas, muitas acham complicado, mas atualmente já são mais de 70 usinas em processo de análise. A meta que deveremos atingir no ano que vem é algo que representará 30% da nossa cana, ou 50% da cana para combustível – estamos agora num processo de certificação das empresas e, a partir do dia 24 de dezembro, quem estiver certificado terá o direito de pedir a emissão do CBio. Estamos nos dias finais do CNPE (Conselho Nacional de Política Energética) divulgar uma resolução que vai regrar todo o mercado de CBio, não dependeremos nem do Banco Central e nem do Conselho de Valores Monetários, e uma resolução da ANP que vai detalhar mais o fluxo. O nosso processo agora é até dia 24 de dezembro e quanto mais empresas será melhor, mas isso não significa que no decorrer de 2020 elas não possam se certificar - vamos ter também um processo de empresas se certificando todo dia, ou seja, vai ganhando corpo, se ajustando, e como é algo novo vem o aprendizado para todos.

Revista Canavieiros: O crescimento dos carros elétricos ameaça o etanol?
Pádua: O avanço dos carros elétricos no Brasil é um ponto muito importante. A entidade não é contra e defende que o etanol componha essa transformação com o uso de motores flex (etanol e eletricidade). Alguns estudos mostram que a emissão de CO2 de um híbrido movido a biocombustível seria menor que a de um veículo 100% elétrico. Acredito que os carros elétricos e a etanol devem caminhar juntos. Não seríamos prejudicados.

Revista Canavieiros: Seria um desafio o setor voltar a ter um bom relacionamento com o sistema financeiro?
Pádua: Isso é um desafio, e ainda não está acontecendo - empresas que pedem recuperação judicial, empresas em dificuldades e cada vez mais o setor financeiro vai apertando as usinas e dificultando o alongamento da dívida - tudo é complicado. Se eu preciso ter uma retomada da expansão da produção e cumprir as metas do RenovaBio é necessário plantar cana, reformar canavial, e quando é que vou fazer isso? Eu esperarei o sistema financeiro ver que o valor do CBio em 2020 vai valer alguma coisa? Está faltando credibilidade, e embora eu acredite que parte dela já exista, tem um problema muito grande ainda que é como vamos arrumar tanto dinheiro para sair de 600 milhões de toneladas de cana para mais de 800 milhões de toneladas. Sair de uma produção de 30 bilhões de litros de etanol para 47 bilhões de litros. Eu diria que isso é um grande desafio e tem que haver planejamento, acreditar e começar a ter iniciativas.

Revista Canavieiros: Como a Unica vê esse momento no setor sucroenergético?
Pádua: O setor tem enfrentado muita dificuldade, isso já vem de alguns anos, agravada ultimamente pela questão dos preços do açúcar - do subsídio hoje dado aos produtores da Índia, prejudicando o mundo produtor de açúcar. No entanto, conseguimos ver um lado positivo: o Brasil é diferente de todos os países produtores porque tem a alternativa do etanol e observamos atualmente uma mudança muito clara em termos de perspectiva.

Revista Canavieiros: O senhor está otimista com todo esse cenário?
Pádua: Temos o caldo da cana, o açúcar, o etanol e a cachaça no sangue, é difícil não ver este setor com otimismo e tentar passar o tempo todo para os empresários esse otimismo. Só fica nessa atividade quem gosta, não é para aventureiro, não é uma coisa simples, é algo que demanda muita gestão, muito capital. É necessário acreditar, ser perseverante, e temos isso no nosso setor.