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Você conhece seu solo?

06/04/2020 Cana-de-Açúcar POR: Marino Guerra
Você conhece seu solo? É ilusão achar que cada fazenda ou talhão tem produtividade padronizada

Uma análise a cada cinco hectares não é o suficiente para um conhecimento profundo

Um dos fatores que faz a agricultura brasileira ser um sucesso é certamente o amor que o produtor rural tem pelo que faz e por sua propriedade. Em muitos casos, a terra foi herdada, sendo fonte de renda da família por gerações, comprada por meio de um enorme esforço financeiro ou ainda arrendada, quando há uma disputada corrida entre a produtividade e a data do pagamento pelo uso da terra ao seu proprietário.

Mesmo diante desse relacionamento íntimo, às vezes, a intensidade da paixão não é refletida em conhecimento. Essa percepção é clara ao observar os conceitos de análise de área inerentes às práticas de agricultura de precisão, que permitem a conclusão de que basear a estrutura do solo em apenas uma amostragem a cada cinco hectares é muito pouco perante o risco que a prática agrícola está exposta.

No entanto, isso não significa um alerta de que é necessário pegar uma broca e sair peneirando os talhões de modo desordenado e sem nenhum critério.

Ao longo da Jornada de Agricultura de Precisão muito foi conversado sobre o tema, principalmente no que diz respeito em qual metodologia seguir para executar as amostragens do solo, sempre considerando o seu georreferenciamento.

E aí o produtor pensa: "lá vêm eles com essas 'novidades'”, o que é uma visão totalmente equivocada, pois a primeira vez que tal prática foi documentada data de 1929, quando um extensionista norte-americano criou um método de medir o pH de uma área através da amostragem do solo.

Exemplo de grade fixa com os pontos de amostra no talhão, o programa de georreferenciamento informa as coordenadas para a coleta do material

Nele, foi definida uma grade de amostragem como um ziguezague num talhão quadrado. Cada ponto gerou um resultado contendo “teores” diferentes, mas havia semelhanças entre os vizinhos, fazendo com que fosse possível definir linhas, ou seja, uma interpolação. Com base nisso chegou-se à recomendação para a correção da acidez do solo a taxa variável.

O tempo passou e as maneiras de "ler" o solo evoluíram, mas isso não significa que se tornaram caras ou tão complexas a ponto de inviabilizar a adoção por parte dos produtores. Pelo contrário, diante da variedade de metodologias de amostragem disponíveis, sempre há uma que se adapta à realidade de trabalho de cada um.

O professor José Paulo Molin divide a escolha da maneira de se trabalhar em duas opções: sem conhecimento prévio da área, ou seja, uma zona de expansão ou uma nova propriedade arrendada ou adquirida; e com conhecimento prévio da área, aquela em que o produtor já possui alguma leitura de solo, tem as culturas instaladas ali mapeadas e até mesmo o conhecimento adquirido na lida diária.

Para os talhões novos, o método de amostragem recomendado é em grade por ponto, respeitando sempre os limites da lavoura, que pede um planejamento criterioso visando que cada local de coleta tenha o máximo de aproveitamento, tendo assim, um retrato fiel da área.

Esse método de trabalho abre um leque de opções sobre o posicionamento do ponto dentro das células da grade a ser utilizada.

Dentre elas há o arranjo dos pontos de modo equidistantes numa distribuição fixa. Outra é o arranjo de forma aleatória dentro da célula o que, segundo o professor, é uma forma de trabalho mais difícil sob o ponto de vista da navegação, porém apresenta vantagens geoestatísticas, principalmente no processo de interpolação (definição, no mapa, das regiões perante as informações colhidas no campo).

A definição na apostila da Jornada, cujos autores são os professores José Paulo Molin, Lucas Rios do Amaral e André Freitas Colaço, é descrita do seguinte modo: “Essa estratégia permite verificar a semelhança entre amostras próximas e entre outras distantes, ou seja, caracterizar o efeito da distância na semelhança entre pontos. Essa caracterização define a dependência espacial do parâmetro, que pode ser utilizada posteriormente na interpolação dos dados".

Outra prática é acrescentar pontos adicionais próximos das referências de uma grade regular, o que também contribuirá para tornar mais fiel a realidade retratada no mapa final, inclusive quando são empregadas grades de baixa densidade no número de amostragens.

Durante a retirada das amostras, o agricultor deve estar atento e coletar também as subamostras, que precisam ser pegas ao redor do ponto georreferenciado teórico, sempre respeitando um raio pré-definido, podendo este ser determinado em volta do ponto teórico de mesma magnitude do valor do erro do receptor GNSS (Sistemas Globais de Navegação por Satélite, conhecidos popularmente por GPS), que gira entre um a cinco metros para os equipamentos do chamado grupo 1 (que não utilizam correção diferencial e possuem apenas uma frequência).

Quanto ao número de coletas, em primeiro lugar o produtor precisa ter a ciência de que quanto menos, embora tenha maior rendimento do trabalho, maior será o risco de contaminação do dado e, com isso, a geração de erros amostrais. Segundo o acadêmico, o usual é ter de seis a dez subamostras.

Nos casos em que o número de amostras demandado na grade por ponto for muito alto, de maneira que seu custo se torne inviável, ele poderá optar pela amostragem por célula. Esse trabalho permite a ampliação da grade utilizada, que é coletada através de um caminho em ziguezague diagonal e com uma frequência alta de subamostras ao longo de toda a área.

O mapa gerado nesse caso não é interpolado, isso porque como cada célula gera um resultado médio, não ocorrerão áreas de transição ou lacunas preenchidas com a técnica.

Exatamente neste aspecto é que está a diferença entre as duas formas explicadas na apostila da Jornada. “A escolha do método de amostragem afetará não somente a qualidade do mapa do atributo, mas também a própria intervenção em taxas variáveis. As recomendações geradas com base em amostragem por ponto apresentam maior resolução da informação, portanto, as doses variam em curtas distâncias e são equivalentes ao tamanho da quadrícula do mapa final. Já aquelas geradas com base em amostragem por célula, as doses variam apenas quando há transição entre elas”.

No caso de ser conhecedor do ambiente, o produtor deve optar pela coleta por unidades de gestão, ou seja, regiões com mínima variabilidade dentro dos talhões que podem ser delimitadas com base na avaliação de alguns fatores de produção levantados e suportados pelos dados georreferenciados. Geridas dentro de uma unidade homogênea do talhão, elas necessitam de poucas amostras para a sua representação.

A principal fonte de informação dessa metodologia é o mapa de produtividade, sendo um dos problemas notáveis quando a cultura é a cana-de-açúcar devido ao fato da indústria de colhedoras ainda não conseguir implementar um sistema confiável que mede a quantidade de cana  que passa em relação ao posicionamento, sempre georreferenciado.

Mesmo perante essa dificuldade, o produtor consegue delimitar as regiões conforme a produtividade da propriedade, fazendo uso de outras fontes de informação como fotos aéreas da terra nua (sem palha), imagens de satélite e drones, definição do índice de biomassa, medição da condutividade elétrica, contagem de falhas e também ao mensurar a produtividade no momento da colheita. Um exemplo disso é o uso de um aplicativo que mede a distância percorrida e relacioná-la com o enchimento dos transbordos, tendo assim, um número de toneladas por metro-linear.

Outras maneiras de conseguir informações de como está a área também existem, contudo, o que todas exigem é disposição para ter a informação. E muito mais valiosa do que o investimento na contratação ou execução do serviço de retirada de amostra e mapeamento é a qualidade do dado, pois se ele estiver errado apontará para tarefas totalmente equivocadas para serem executadas.

Exemplo da definição de unidades de manejo de uma área conforme o mapa de produtividade. Baseada nessa informação, adicionada a outras, é indicado onde serão feitas as amostragens